
À medida que Angola entra, ainda que de forma discreta, na fase inicial de pré-campanha para as Eleições Gerais de 2027, torna-se cada vez mais evidente que o mapa político nacional caminha para uma reconfiguração profunda — e não necessariamente favorável à oposição, em particular à UNITA.
Os resultados eleitorais de 2022, que atribuíram à UNITA cerca de 43,95% dos votos e 90 deputados à Assembleia Nacional, foram largamente influenciados por um factor conjuntural: a construção de uma plataforma informal de convergência da oposição, a chamada Frente Patriótica Unida (FPU), que agregou forças políticas distintas em torno de um objectivo comum.
Contudo, esse modelo mostrou-se frágil, temporário e estruturalmente instável.
Hoje, assistimos à saída formal do projecto político PRA-JA Servir Angola dessa plataforma, num movimento que revela divergências estratégicas profundas e confirma aquilo que muitos analistas já antecipavam: a oposição angolana não conseguiu transformar uma aliança eleitoral circunstancial numa frente política sólida, duradoura e coerente.
Paralelamente, cresce a probabilidade de o Bloco Democrático vir a concorrer sozinho em 2027. Caso tal não aconteça, o partido corre mesmo o risco de extinção, por se tratar do segundo pleito consecutivo sem participação eleitoral — uma situação prevista na lei dos partidos políticos. Este cenário, por si só, já evidencia o grau de fragilidade organizacional de parte significativa da oposição.
O que isso significa, na prática?
Significa que o capital eleitoral alcançado pela UNITA em 2022 dificilmente será reproduzido em 2027.
Pelo contrário, tudo aponta para uma fragmentação desse eleitorado. Os quase 44% de votos e os 90 deputados obtidos há quatro anos tenderão a dispersar-se entre diferentes forças políticas, com particular destaque para o PRA-JA Servir Angola, que passará a disputar directamente uma fatia relevante do espaço oposicionista.
Este fenómeno terá consequências claras no Parlamento: a bancada da UNITA deverá encolher substancialmente, enquanto novas forças tentarão afirmar-se, diluindo ainda mais o peso político da oposição como bloco.
A experiência comparada mostra que sistemas políticos marcados por oposição fragmentada tendem, naturalmente, a favorecer partidos com estrutura nacional consolidada, implantação territorial efectiva e capacidade organizativa comprovada. Em Angola, esse partido continua a ser o MPLA.
Independentemente de quem venha a assumir a presidência do MPLA no próximo congresso, e independentemente de quem seja o cabeça de lista em 2027, o MPLA entra nesse ciclo eleitoral com vantagens estratégicas evidentes: presença em todo o território nacional, governação efectiva, domínio institucional e, sobretudo, uma máquina política experiente.
Ao mesmo tempo, o MPLA tem hoje uma oportunidade clara de reposicionamento político: aprofundar a sua narrativa de estabilidade, reformas graduais, crescimento económico, inclusão social e modernização do Estado — mensagens que encontram eco numa população cada vez mais preocupada com emprego, custo de vida, serviços públicos e desenvolvimento local, mais do que com confrontos ideológicos.
A oposição, por seu lado, enfrenta um dilema existencial: sem unidade, sem um projecto comum e sem liderança agregadora, torna-se difícil convencer o eleitorado de que existe uma alternativa governativa sólida.
Não basta criticar. É preciso apresentar propostas viáveis, quadros técnicos preparados e uma visão clara de país.
Até ao momento, esse vazio permanece.
Assim, começa desde já a desenhar-se um cenário político onde o MPLA surge novamente como favorito natural à vitória em 2027, beneficiando não apenas da sua estrutura histórica, mas sobretudo da incapacidade da oposição em manter coesão estratégica.
Mais do que uma previsão, trata-se de uma leitura racional dos sinais políticos actuais.
Angola caminha para eleições em que o factor decisivo não será apenas a popularidade de partidos ou líderes, mas a capacidade real de organização, mobilização e governação. E nesse capítulo, goste-se ou não, o MPLA continua a deter uma vantagem estrutural difícil de contrariar.
*Economista