
Todos os anos, desde 2018, o dia 23 de Março é celebrado em Angola como a data da chamada “libertação da África Austral”. A narrativa oficial apresenta este momento como um marco decisivo na derrota do apartheid, na independência da Namíbia e na mudança do equilíbrio político na região.
No entanto, como acontece frequentemente com a história escrita por quem detém o poder, a realidade é mais complexa, menos linear e sobretudo, mais incómoda.
A Batalha do Kuito Kuanavale, frequentemente apontada como o epicentro desta “libertação”, deve ser analisada com rigor e honestidade histórica. Durante a guerra civil angolana, o Kuito Kuanavale não foi uma posição defensiva. Foi sim, a principal base avançada das forças governamentais para projectar uma ofensiva estratégica contra a Jamba, então quartel-general da UNITA, situado a cerca de 350 quilómetros a sul, na província do kuando Kuvango.
Esta base concentrava meios humanos e materiais significativos, incluindo contingentes cubanos e assessores militares da então União Soviética. O objectivo era claro: destruir a capacidade militar da UNITA, tomar a Jamba e eliminar a resistência ao sistema político instalado em Luanda desde 1975.
O que se seguiu não foi uma vitória rápida nem decisiva. Pelo contrário, tratou-se de um conflito prolongado, (desde o Lomba-87 ao Último Assalto em 1990) marcado por sucessivas tentativas falhadas de romper as linhas defensivas da UNITA.
Durante cerca de dois anos, as forças governamentais enfrentaram uma resistência feroz, sofrendo reveses significativos no terreno. A verdade é que a Jamba não foi tomada. Esse facto, por si só, desmonta uma parte essencial da narrativa triunfalista que hoje se procura consolidar.
Entretanto, na arena política internacional e sob o impulso de Ronald Reagan, o mundo mudava a uma velocidade vertiginosa. A queda do Muro de Berlim, em 1989 e o subsequente colapso da União Soviética alteraram profundamente o equilíbrio geopolítico global.
Angola que dependia fortemente do apoio soviético, viu-se subitamente privada do seu principal aliado estratégico. Cuba, por sua vez, perdeu a sua retaguarda política e logística que sustentava a sua presença militar em Angola.
É neste contexto que emerge a decisiva intervenção diplomática dos Estados Unidos da América, através da política do “linkage”, conduzida pelo então subsecretário de Estado para os Assuntos Africanos, Chester Crocker, em concertação com todos os actores relevantes do conflito da África Austral.
Esta estratégia propunha uma solução integrada para o conflito regional: a retirada das tropas cubanas de Angola em paralelo com o fim do apoio sul-africano à UNITA, a independência da Namíbia e o início de um processo político interno em Angola.
Este caminho culminaria, mais tarde, nas negociações directas entre o Governo angolano e a UNITA, realizadas em 1991, em Bicesse, Portugal, um passo que durante anos havia sido rejeitado por Luanda.
Perante estes factos, impõe-se uma reflexão: pode um processo tão complexo, feito de impasses militares, mudanças geopolíticas globais e compromissos diplomáticos, ser reduzido a uma única data e apresentado como uma vitória clara e inequívoca de uma das partes?
A designação de “libertação da África Austral” atribuída ao 23 de Março parece, assim, mais um exercício de construção política da memória do que um reflexo fiel da história. Trata-se de uma simplificação conveniente que ignora os múltiplos actores, interesses e circunstâncias que verdadeiramente moldaram o desfecho do conflito.
Importa ainda sublinhar um elemento que confere a esta reflexão uma dimensão particular: quem escreve estas linhas não o faz apenas como observador distante, mas como alguém que participou, de perto ou de longe, de forma directa, nos acontecimentos aqui descritos.
Essa vivência impõe não apenas o direito à palavra, mas também o dever de contribuir para uma narrativa mais equilibrada, mais honesta e mais próxima da verdade histórica.
A história não deve ser um instrumento de propaganda, mas sim um espaço de memória, de aprendizagem e de reconciliação. Revisitar o 23 de Março com espírito crítico não diminui os sacrifícios feitos, nem apaga o sofrimento vivido. Pelo contrário, dignifica-os, ao inseri-los num contexto real, livre de mitos e simplificações.
Talvez tenha chegado o momento de Angola e a África Austral como um todo, encarar este passado com maior maturidade. Não para reabrir feridas, mas para compreender que a paz, a independência e a transformação política da região não foram obra de um único momento, nem de um único actor, mas sim o resultado de um processo longo, complexo e profundamente humana.
E essa verdade, por mais incómoda que seja, merece ser contada para as gerações vindouras.
*Ex-secretário-geral da UNITA