28 de Agosto e o Presidente José Eduardo dos Santos – Ismael Mateus
28 de Agosto e o Presidente José Eduardo dos Santos - Ismael Mateus
Jes e fm

Nos seus mais de 30 anos de poder, o antigo Presidente permitiu que o dia do seu aniversario fosse transformado numa data de comemoração nacional, com associações, órgãos de comunicação social e o próprio MPLA a assinalarem a efeméride.

Hoje, sinal dos tempos, praticamente não existem referências nem ao 28 de Agosto nem ao próprio José Eduardo dos Santos, o que traz de volta a preocupação com o “day after” dos nossos dirigentes.

Historicamente, as sucessões, passe a proximidade verbal, não são bem-sucedidas. As lideranças dos partidos políticos e na direcção do país são as mais visíveis, mas é claramente um problema nacional.

Seja qualquer for o cargo, o sucessor procura “desinfestar” a casa deixada pelo antecessor, desde a mudança de móveis, de cortinas até ao afastamento completo de quem tenha com ele trabalhado, ou seja, visto como fiel servidor ao anterior “chefe”.

A história de José Eduardo dos Santos, não só a relacionada com a vigência do mandato, mas também com a sua saída, deveria servir para caso de estudo para os problemas angolanos como a sucessão, a tentação dos poderes vigentes de criar figuras instrumentalizáveis a quem preferem entregar o poder ou a dificuldade geral dos poderes em promover novas lideranças com base no mérito e capacidade de liderança.

No caso dos partidos políticos, todos eles sem excepção, o problema atinge níveis de extrema preocupação, tal como acontece com a alta direcção do país. Tanto num como noutro caso, a grande maioria das escolhas tem por base o tacticismo político dos actuais chefes e não propriamente o melhor interesse dos partidos ou do país.

Do dossier de JES, a primeira lição que se aprende é que o “day after” está directamente vinculado à forma como se exerce o poder. Decisões políticas não colegiais, não consensuais, geram quase sempre o desconforto das pessoas, embora a grande generalidade dos afectados só ganhe coragem para reclamar ou contestar depois do autor sair do poder.

A segunda lição é que apesar de algumas pessoas poderem ter cometido erros graves, o tempo revela-se a seu favor, actuando como um factor reparador e reabilitador.

O antigo Presidente não deixou de ter as mesmas responsabilidades na proliferação da corrupção no país, mas o tempo tem actuado a seu favor. Aos poucos começa a ser melhor compreendido. Ainda que as suas ideias tenham descambado no tal banquete dos corruptos, a ideia genuína de criar uma forte classe empresarial nacional faz cada vez mais sentido.

A actual privatização também representa a transferência da titularidade de propriedades de cidadãos angolanos para estrangeiros. Não se pode pensar no desenvolvimento do país e na diversificação sem uma estratégia de angolanização da economia nacional e sem uma classe patriótica de grandes empresários que, ao invés de transferir dinheiro e adquirir propriedades no estrangeiro, decida criar riqueza e emprego em Angola.

Outra lição aprendida é que as obras e os feitos históricos também são grandes passaportes para o “day after”. Mais facilmente são referidas as coisas negativas, mas o tempo, aos poucos, encarrega-se de trazer também as positivas. Por mais que não se fale de JES, cada vez que alguém passa pela centralidade do Kilamba ou outras, é inevitável o reconhecimento de uma marca para o futuro deixado por JES.

Uma outra lição é que os excessos nas tomadas de decisões acabam por prolongar-se até ao período do “day after”. Os aspirantes ao poder e as novas gerações adoptam uma postura de condescendência face ao poder instituído, à espera do dia seguinte para se vingarem ou para reverter decisões, posicionamentos e projectos do partido/Presidente anterior.

O próprio Presidente João Lourenço tem de ter consciência de que muita gente, dentro e fora do seu partido, olha para ele esperando pelo dia seguinte, o dia em que ele não estiver no poder e as suas acções, os seus projectos e decisões vão ser postos em causa ou até denunciados.

Algumas das acções menos consensuais e as mais contestadas vão ser denunciadas como lesivas aos interesses do Estado. Como hoje acontece com os seus antecessores, vai ser também o tempo a permitir um olhar mais sereno sobre as obras e feitos de João Lourenço quando terminar o seu mandato.

A solução, como já afirmamos, reside na necessidade de alteração do modo de fazer política, de governar com mais diálogo e com uma gestão mais participativa.

O dilema do dia seguinte está intimamente relacionado com a transparência do Governo e com o estilo de governação adoptado.

Quanto mais os cidadãos estiverem envolvidos, quanto mais dialogantes e transparentes forem as instituições, quanto mais dúvidas e suspeições forem esclarecidas de modo convincente, menos mágoas, menos casos ficarão acumulados para o “ajuste de contas” no dia seguinte.

Essa problemática do dia seguinte também está relacionada com a cultura do “espera a tua vez”. Para evitar críticas, quem está no poder socorre-se da expressão “espera a tua vez”.

Criou-se o preconceito de que quem critica aspira o lugar do criticado e, assim, o país não avança, por culpa da hipocrisia. Os que assistem de fora, nada dizem à espera que chegue a sua vez, e os que estão no poder, não querem ouvir opiniões diferentes porque, sendo a “sua vez”, têm todo o direito de cometer erros e realizar os “seus” projectos, mesmo que errados.

Ao invés de aproveitar o que há de positivo no antecessor, a nossa prática é “mandar tudo para o lixo”, sob o signo da santa ignorância do “agora é a minha vez”. Com esta mentalidade, não podemos ter, naturalmente, um país a crescer.

*Jornalista e escritor

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