
Num contexto em que Angola procura reduzir a sua dependência do petróleo e construir uma economia mais sólida e inclusiva, a diversificação económica surge como prioridade estratégica. Para compreender melhor os avanços, os desafios e as perspetivas deste processo, conversámos com o economista Verdim Pandieira José, que partilhou a sua visão sobre os sectores prioritários, o impacto no emprego juvenil, o papel da agricultura, das Zonas Económicas Especiais e das políticas públicas que sustentam esta transformação.
Acompanhe a entrevista:
Quais são os principais sectores prioritários definidos pelo Governo para impulsionar a diversificação da economia angolana?
O Executivo tem vindo a adotar uma abordagem estratégica e multissetorial, delineada no Plano de Desenvolvimento Nacional (PDN) e na Estratégia de Diversificação da Economia Nacional. Entre os sectores prioritários estão a agroindústria, agropecuária, pescas, indústria transformadora, mineração não petrolífera, turismo, logística e energias renováveis.
A agricultura é, sem dúvida, o sector com maior potencial: representa cerca de 8% do PIB e emprega metade da força de trabalho, embora tenhamos 58 milhões de hectares de terra arável ainda subutilizados. Na mineração, além do petróleo, há um interesse crescente em diamantes, ouro e terras raras. O turismo, embora incipiente, é parte da visão “Angola 2025”. Já o sector das energias renováveis tem recebido 69% do financiamento climático, sobretudo em projetos solares e eólicos. Destaco ainda o crescimento exponencial das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), com um aumento superior a 1.300% em startups entre 2012 e 2022, sinal claro de modernização digital.
De que maneira a diversificação económica pode contribuir para a redução do desemprego juvenil no país?
De forma muito significativa. A diversificação pode gerar empregos formais e informais, absorvendo a mão-de-obra jovem em sectores emergentes. Estimula o empreendedorismo, fomenta o autoemprego e dinamiza cadeias de valor em áreas como agricultura, turismo e tecnologia.
Neste momento, cerca de 83% dos desempregados em Angola são jovens, o que configura uma crise estrutural. Por isso, a aposta em agricultura comercial, TIC e economia verde é crucial. Contudo, exige qualificação técnica e adequação da formação profissional às exigências atuais do mercado.
Um exemplo ilustrativo: Angola gastou cerca de 3 mil milhões de dólares em importações de alimentos em 2022. Projetos de modernização agrícola, como o PDAC e iniciativas privadas como a Fazenda Media 31, demonstram como a irrigação e a mecanização aumentam a produtividade e geram empregos. Também o relançamento do Café Gabela mostra que culturas tradicionais podem ser revitalizadas para o mercado interno e externo.
Qual é, concretamente, o papel do sector agrícola na diversificação económica?
O sector agrícola é estratégico. Contribui para o PIB não petrolífero, substitui importações, reforça a segurança alimentar e dinamiza a industrialização rural. É também um motor de integração económica, gerando valor em toda a cadeia produtiva.
Dr., que papel desempenham as Zonas Económicas Especiais, como a ZEE Luanda-Bengo, neste processo?
As ZEEs são fundamentais. Funcionam como plataformas de atração de investimento, facilitam a instalação de unidades produtivas, promovem a transferência de tecnologia e incentivam a industrialização. Além disso, oferecem incentivos fiscais e logísticos que reduzem custos operacionais e aceleram o crescimento industrial.
Quais são os principais entraves que ainda dificultam esse processo?
Os maiores entraves são a dependência do petróleo, deficiências logísticas e infraestruturais, escassez de mão-de-obra qualificada, dificuldades de acesso ao crédito, burocracia excessiva e um ambiente de negócios ainda pouco competitivo.
E qual o papel do investimento privado nacional e estrangeiro nessa dinâmica?
O investimento privado é determinante. Iniciativas como o PDAC, financiado pelo Banco Mundial, e empresas como a Carrinho Agri fortalecem cadeias produtivas. O ecossistema de startups também demonstra vitalidade, com mais de 1.300% de crescimento em dez anos. O investimento bem direcionado é a base de uma economia diversificada e resiliente.
Que políticas públicas têm sido adotadas para fomentar a industrialização e reduzir a dependência do petróleo?
Destaco o PRODESI, que apoia produção, exportações e substituição de importações, incluindo a capacitação de mais de 3.000 agroempreendedores. O Plano Nacional de Desenvolvimento Industrial canaliza 21% do OGE 2025 para sectores sociais e infraestruturais.
Houve ainda revisão da Lei do Investimento Privado, com novos incentivos fiscais e aduaneiros, e a criação da linha de crédito “Transforma Aqui”, que disponibiliza até 800 milhões de kwanzas a MPMEs.
Essas políticas têm resultados: entre 2021 e 2023, as exportações não petrolíferas cresceram 40%, contribuindo para reduzir o défice da balança de pagamentos de 6,5% do PIB em 2020 para 2,8% em 2023.