Fazenda Cacanda: a queda de um gigante agro-pecuário da Lunda Norte sob gestão da Gesterra
Fazenda Cacanda: a queda de um gigante agro-pecuário da Lunda Norte sob gestão da Gesterra
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Em 2012, antevia-se o início de uma verdadeira revolução agrícola na província da Lunda Norte, com a reinauguração da fazenda Cacanda, um projecto que colocou a região na rota da auto-suficiência alimentar, reduzindo de forma significativa as importações de ovos, carne e produtos hortícolas.

Contudo, dificilmente a população imaginaria que aquele que foi considerado o maior investimento do Executivo no sector agro-pecuário da Lunda Norte viria a transformar-se num “gigante adormecido”, cuja recuperação continua envolta em incerteza.

Criada em 1975 pela diamantífera Diamang – antecessora da actual Endiama –, a fazenda Cacanda chegou a atingir, na década de 1980, uma produção diária de cerca de 35 mil ovos, quantidade suficiente, à época, para alimentar os trabalhadores mineiros e abastecer o mercado local.

Com a extinção da Diamang, no final da década de 1980, a Endiama, criada para gerir a exploração diamantífera em Angola, retirou-se definitivamente do projecto.

Em Junho de 1995, três anos depois, a fazenda retomou a actividade sob gestão da empresa sul-africana Trans Energy, experiência que durou apenas dois anos, devido a desentendimentos com a parte angolana.

Em 2012, após um processo de reabilitação e modernização avaliado em 29 milhões de dólares norte-americanos, financiado por uma linha de crédito de Israel, a fazenda foi entregue à gestão privada pelo Governo Central, com o objectivo de assegurar a auto-suficiência alimentar.

A recuperação teve impacto positivo na produção alimentar em grande escala e na economia local, abastecendo os mercados da Lunda Norte e da Lunda Sul e reduzindo consideravelmente os níveis de importação de ovos, carne e produtos hortícolas.

Até 2016, a fazenda, implantada numa área de cinco mil hectares, produzia cerca de 20 mil ovos por dia e cinco mil toneladas semanais de hortícolas, asseguradas por cerca de 100 estufas de 25 metros cada, numa área total de 3,6 hectares.

A produção de carne de abate atingia 11 toneladas por mês, sustentada por um efectivo pecuário de aproximadamente 400 cabeças de gado.

O complexo agro-pecuário dispunha ainda de um matadouro industrial bovino que, em plena actividade, apresentava um nível tecnológico comparável a outros existentes no país, com capacidade para o abate de oito animais por dia, totalizando 240 bovinos por mês.

Além de aviários, fábrica de ração, matadouro, oficinas, viveiros de plantas, centro de formação agrícola, áreas administrativas e residências para gestores e trabalhadores, a fazenda – situada a cerca de quatro quilómetros do centro da cidade do Dundo – encontrava-se equipada com todas as infra-estruturas necessárias ao seu funcionamento.

O projecto contava com 12 naves, cada uma com capacidade para 25 mil pintos destinados à produção de ovos. A avicultura era desenvolvida de forma intensiva, apoiada na produção de cereais, com destaque para o milho e a soja, posteriormente transformados em ração na unidade fabril da fazenda.

Entre as infra-estruturas existentes destacava-se ainda um sistema de rega por “pivot” com 400 metros de comprimento, implantado num perímetro de 250 hectares, dos quais 120 eram irrigados, recorrendo a tecnologia avançada, e 130 não irrigados.

Na concepção inicial do projecto estava igualmente prevista a aplicação de técnicas de inseminação artificial, com vista à aceleração da reprodução animal.

Todos estes pressupostos apontavam para a estabilização do mercado regional e para a diversificação da matriz económica da província, excessivamente dependente da exploração diamantífera.

A fazenda de Cacanda previa a criação de mais de 200 empregos directos e cerca de 2.500 indirectos, constituindo-se como uma das principais apostas para a segurança alimentar e nutricional da região.

Os objectivos da sua reabilitação e modernização passavam pela transformação da Lunda Norte num polo agrícola de referência, reduzindo a dependência quase exclusiva da economia dos diamantes.

Início da queda

Em 2017, quando o então Ministério da Agricultura e Pescas – actualmente desdobrado em dois departamentos ministeriais – entregou a gestão da fazenda à Gesterra – Gestão de Terras Aráveis, S.A., empresa de capitais públicos e de direito privado, ligada à GEFI, braço empresarial do MPLA, liderada à época por Carlos Alberto Jaime “Calabeto”, entretanto falecido, e em parceria com a Agressurb, os níveis de produção registaram uma queda acentuada, deixando o projecto praticamente ao abandono.

A força laboral reduziu-se de 169 trabalhadores, até 2016, para menos de 50 actualmente, até em 2024. Já no ano transacto contava-se aos dedos dos pés.

Em Março de 2018, durante uma visita do Presidente da República à Lunda Norte para orientar uma reunião da Comissão Económica do Conselho de Ministros, o projecto recebeu 17 mil aves destinadas à produção de ovos. Contudo, três meses depois, as aves desapareceram sem explicação conhecida.

Desde 2013, a gestão da fazenda passou por três empresas privadas: a israelita Agricultiva, a Omatapalo e, actualmente, a Agrisurbi, que não se pronunciou sobre o estado do projecto.

Este jornal apurou, entretanto, que a fazenda de Cacanda integra a lista de activos em processo de alienação pelo Instituto de Gestão de Activos e Participações do Estado (IGAPE).

Reacção do Governo

O director do Gabinete Provincial da Agricultura, Pescas e Desenvolvimento Rural da Lunda Norte, José Mendes, afirmou que existem actualmente tentativas de exploração da fazenda, mas que as limitações ao nível dos factores de produção impedem a recuperação dos níveis anteriores.

Segundo o responsável, a decisão sobre o destino e a eventual recuperação do projecto não compete ao Governo Provincial, manifestando, contudo, a expectativa de que os constrangimentos sejam ultrapassados e se criem condições para atrair investidores.

O responsável, que é também engenheiro agrónomo, defendeu ainda a transformação do centro de formação da fazenda de Cacanda numa instituição de investigação aplicada e participativa, permitindo aos produtores acompanhar trabalhos de campo através de estágios profissionais e aplicar posteriormente os conhecimentos adquiridos.

José Mendes sublinhou que a Lunda Norte dispõe de solos férteis, recursos hídricos abundantes e condições naturais favoráveis ao desenvolvimento agrícola, mas que a falta de formação técnica tem condicionado uma exploração mais eficiente desses recursos.

Para o agrónomo, o cenário poderia ser revertido com a revitalização do centro de formação da Cacanda, cuja missão passava pela capacitação dos agricultores, através de ciclos formativos curtos, seminários técnicos e introdução de novas culturas e tecnologias.

A formação em métodos adequados de gestão pecuária e práticas agrícolas sustentáveis integrava igualmente os objectivos do centro.

Declínio total

A fazenda Cacanda entrou em declínio acentuado a partir de 2017, ano em que a sua gestão foi entregue à Gesterra – Gestão de Terras Aráveis, S.A.. Até então, o empreendimento apresentava níveis de produção significativos, desempenhando um papel relevante na segurança alimentar da Lunda Norte e da Lunda Sul.

Com a entrada da Gesterra, registou-se uma queda abrupta da produção agro-pecuária, acompanhada pelo progressivo abandono das infra-estruturas. A força de trabalho reduziu-se drasticamente, passando de 169 trabalhadores, em 2016, para menos de 50 nos anos seguintes, comprometendo a continuidade das operações agrícolas, avícolas e pecuárias.

Durante este período, desapareceram activos produtivos essenciais, incluindo um lote de 17 mil aves destinadas à produção de ovos, entregue em 2018, sem que tenha sido apresentada uma explicação pública para o seu destino.

As unidades de produção – aviários, estufas, matadouro e sistema de rega – deixaram de operar de forma regular, levando à paralisação quase total do projecto.

A má gestão reflectiu-se também na incapacidade de assegurar investimentos, manutenção e planeamento estratégico, resultando na perda do papel da fazenda como pólo de produção alimentar e gerador de emprego.

O projecto, anteriormente visto como um instrumento de diversificação económica e redução da dependência diamantífera da província, transformou-se num activo improdutivo.

Como consequência do colapso operacional sob gestão da Gesterra, a fazenda Cacanda acabou integrada no processo de alienação conduzido pelo Instituto de Gestão de Activos e Participações do Estado (IGAPE), simbolizando o fracasso de um dos maiores investimentos públicos no sector agro-pecuário da Lunda Norte.

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