
No dia 22 de Maio enfrentei uma interminável fila de um dos bancos comerciais. Enquanto aguardava pela minha vez divertia-me com chuva de imensas correntes de diálogos, mas a conversa sobre economia do país foi a que mais lama provocou e até arrastou resíduos de assuntos bíblicos.
Ouvi no meio da fila uma frase que se disparou da seguinte forma; “Abrir a bíblia na rua para fazer dinheiro é a moda de alguns dos crentes”. Comecei a meditar nesta afirmação, mas logo fui chamado pela balconista.
Há uma fervura incrível, inexplicável e, ao mesmo tempo, inacreditável sobre o mediatismo e a vulgarização das pregações do evangelho, nas paragens de autocarros ou no interior, nos mercados informais e em outros lugares onde há normalmente muita gente.
É uma prática que se agiganta em corpo de leoa, por vezes aparece em forma de arma cujo cano é direccionado para o cérebro de gente com fé. Vulgarizada por pessoas que parecem ser “iluminadas demais” e por vezes revestidas de visível vestes de “mercantilistas”.
Presenciei diversos episódios que me deixaram com a boca-aberta sobre o mediatismo de alguns ditos pregadores que expõem a Palavra santa do Senhor nos espaços públicos sem ética nem rigor na homilética.
Na semana passada esperei numa das paragens pelo moço que me tem levado a Biblioteca Nacional, o tempo corria sem piedade e sua ausência frustrava cada vez mais a minha expectativa. Decidi ligar-lhe, mas ouvi como resultado uma suave melodia da irmã Sofia; “Olha o lobo com veste de ovelha cuidado ele te vai devorar”.
O sol mostrou o rosto das 13h00, aquela instituição encerra às 15h00. Tive apenas uma hipótese, entrar num autocarro. A seguir entrou um homem com uma aparência incomum, calmo, mas com sede de soltar imensas palavras. Do sovaco carregava uma enorme e humilde bíblia que reflectia outro século em termo de conservação e na mão directa recortes de papéis que anunciavam futilidade na forma absurda.
De repete, como que um caçador alveja uma lebre, abriu seus dois instrumentos ao mesmo tempo: a bíblia e a boca. Ele fervia com palavras desencontradas, com pouco domínio da língua, da homilética, e, sobretudo, desfeito do princípio da ética ao discurso. No final eu não acreditei: pediu oferta! Fortaleceu este pedido com uma teoria: “a mão que dá é a que recebe”.
Foi pela primeira vez que pesquisei numa biblioteca com o corpo dentro e o coração entregue aos factos ocorridos na rua. Antes das 15h00 decidi devolver os livros. Ardia dentro de mim desejo de explorar mais sobre o assunto. Regressei pela mesma via. Desta vez não foi um mercantilista. O que vi tenho dúvidas que o caro leitor acredite. Eu não acreditei: Um maluco literalmente maluco!
Apresentou-se como pregador e desatou-se a pregar! Sua roupa visivelmente de doente mental, a mão estava perpendicular com um bouquet de lixo e outros objectos de difícil identificação. Seu discurso era pouco controlável, o descuidado foi a principal personagem da sua narrativa.
Depois disso entreguei-me num instante de pensamentos; como uma pessoa com doença mental se motiva para pregar? Como a Palavra do Senhor é capaz de ser objecto de vulgarização? Como pode um espírito mercantil invadir o solene mercado divino?!
Eu pensava que o espírito do mercantilismo e mediatismo sobre a Palavra do Senhor Jeová existia somente dentro de algumas igrejas e não em céu-aberto. Em conversa com um amigo disse-me que este fenómeno de pregar na rua e depois estender a mão para pedir dinheiro é uma prática recorrente nos mercados informais.
As vendedoras, conforme o meu interlocutor, até apreciam. Elas doam o dinheiro como que tivessem num recinto ou ambiente religioso. Depois comecei a frequentar mercados informais para compreender mais e formar uma opinião com adorno de factos presenciados.
Hoje eu familiarizei-me com esta febre do mercantilismo bíblico e mediatismo nos mercados informais e acho que estes “agentes bíblicos das ruas” merecem repreensão e direccionamento por parte dos principais líderes cristãos ou do órgão de tutela.
*Secretário-Geral da Brigada Jovem de Literatura de Angola-BJLA