França: factos, lições e dúvidas – João Melo
França: factos, lições e dúvidas - João Melo
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A derrota da extrema direita francesa na segunda volta das eleições legislativas, realizadas no passado domingo, 8, é o acontecimento político mais importante dos últimos tempos, marcados pelo crescimento do protofascismo em vários pontos do globo. Desde logo, o acontecimento em questão demonstrou que a ascensão da extrema direita não é inevitável e pode ser travada.

A análise desse evento deve começar pelos factos, pois alguns deles começaram a ser escamoteados logo na noite de domingo pelos comentaristas conservadores e de direita (ou da “esquerda” otanista, isto é, defensora da OTAN), desagradados com a vitória, que nenhum deles previra, da esquerda francesa, unida na Nova Frente Popular.

O primeiro facto é, mais uma vez, a constatação de que as pesquisas e sondagens se têm tornado inquestionavelmente um instrumento de campanha, ao invés de previsões objectivas dos resultados eleitorais.

A meio da tarde de domingo, nenhuma sondagem previa a vitória da Nova Frente Popular, continuando a apontar a extrema direita como a provável vencedora das eleições.

Possivelmente, o objectivo seria desanimar o eleitorado anti-fascista (na maioria de esquerda), mas funcionou ao contrário. A participação nas eleições de domingo foi a maior dos últimos 40 anos da história francesa, o que foi decisivo para a derrota da extrema direita.

Esse é outro facto a assinalar: nas democracias representativas, o voto é determinante; não basta defender as posições que cada um considere as mais correctas, criticar o Governo, desejar mudanças ou, como no caso francês, tentar impedir mudanças perniciosas, é preciso votar.

O terceiro facto custa mais aos analistas de direita engolir: a principal responsável pela derrota da extrema direita francesa no último domingo foi a Nova Frente Popular, ou seja, a esquerda.

O que mais desagrada a tais analistas é o facto de, entre os quatro partidos que compõem a Nova Frente Popular, o mais votado ter sido o França Insubmissa, de Jean-Luc Mélenchon. Por isso, alguns e algumas começaram logo na noite de domingo a chamá-lo “agente de Pequim”; sintomaticamente, as vozes mais tonitruantes pertencem à “esquerda” otanista.

A indesmentível verdade é que não só a Nova Frente Popular foi a mais votada, como também contribuiu para salvar a coligação governamental de Macron, que as pesquisas davam como a grande derrotada das eleições.

Com efeito, foi por proposta da Nova Frente Popular (NFP) que, depois da primeira volta, se criou um consenso relativo, de acordo com o qual, na segunda volta (a que, em França, concorrem apenas os três mais votados na primeira volta), se o terceiro colocado fosse um candidato da coligação de esquerda ou do macronismo, desistiria, para facilitar a vitória do candidato anti-fascista melhor colocado, fosse ele da NFP ou da coligação presidencial.

Aqui, impõe-se uma nota: esse “pacto republicano” para barrar a extrema direita foi cumprido principalmente pela esquerda. Com efeito, dos candidatos que abandonaram a corrida, a fim de facilitar a vitória do candidato anti-fascista melhor colocado, cerca de dois terços eram da NFP e um terço do campo macronista, ou seja, aproximadamente dois terços dos candidatos macronistas que ficaram em terceiro lugar na primeira volta concorreram novamente na segunda volta, facilitando a vitória da extrema direita nos respectivos círculos.

Referidos os principais factos, vejamos agora duas lições. A primeira é que, mais uma vez, ficou claro que a mobilização popular, a unidade, a militância e a acção das ruas continuam a ser fundamentais para enfrentar e derrotar a extrema direita, mais do que tentar simplesmente responder no campo virtual, dominado por esta última.

Com efeito, no actual modelo tecno-financista do capitalismo, de que as BigTechs são um dos instrumentos, as forças conservadoras e protofascistas dominam as novas tecnologias de comunicação e as chamadas redes sociais (tal como já dominavam e continuam a dominar a comunicação de massas, a cultura e o entretenimento), pelo que, obviamente, há aí um combate a travar.

Mas as forças populares não se podem limitar à luta nesse campo, onde o desequilíbrio é formidável, pelo que continua a ser imperioso deslocar a luta para o terreno, digamos assim, social-material.

A segunda lição é que, mais uma vez, as recentes eleições legislativas francesas confirmaram algo que digo há muito: nem toda a direita dita liberal é genuinamente democrática, como o demonstraram os sectores macronistas e outros que, por anti-esquerdismo primário, se furtaram ao “pacto republicano” que poderia ter aprofundado da derrota da extrema direita; muitas vezes, não hesita em se aliar ao fascismo.

Isso conduz-nos às dúvidas inevitáveis, perante os resultados das eleições do último domingo em França. A Nova Frente Popular venceu com maioria relativa, pelo que não é certo, nem matemática nem politicamente, que Macron a chame para governar.

Segundo sei, a NFP estará disponível para fazer uma coligação com macronistas moderados, mas o presidente (um ex-socialista que ajudou a destruir o PS francês) pode ser tentado a outras “engenharias”, de consequências imprevisíveis, não apenas em função dos resultados eleitorais propriamente ditos, como, sobretudo, da situação económica e social da França.

*Jornalista e escritor

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