
Desde a visita da princesa Diana, Angola assistiu a uma explosão de ONGs, especialmente na área de desminagem. Para cá vieram correspondentes militares franceses, ingleses e de outros países do chamado “primeiro mundo”, que se envolveram profundamente na questão das minas antipessoais espalhadas pelo solo angolano.
Em pleno ano de 2024, Angola é um dos quatro países com o maior número de minas terrestres do planeta, e a meta de desminagem do solo angolano para 2025 revelou-se uma ilusão.
Portugal deixou, durante a sua guerra colonial, milhares de minas terrestres no solo de Angola, e após a sua retirada, as potências hegemónicas da Guerra Fria disputaram o seu poder em solo angolano, em solo africano.
Segundo diversas fontes e documentos históricos, quase todas as partes envolvidas no conflito da guerra civil usaram e abusaram de minas terrestres antipessoais e antitanque em solo angolano, para não mencionar outros artefactos explosivos deixados na terra de Kianda.
Mas isso é passado, e no presente, grandes organizações envolvidas na desminagem profissional em Angola não têm apresentado os resultados necessários ao povo angolano.
Em 2008, uma ONG envolvida na desminagem enfrentou um escândalo, denunciado por ativistas anti-corrupção, que envolvia a empresa suíça Ruag e o governo de Angola. O contrato em questão tratava do retorno de fundos que foram subtraídos do erário angolano, mas os suíços, naturalmente, negaram qualquer irregularidade.
Organizações não-governamentais como a Anti-Persoonsmijnen Ontmijnende Product Ontwikkeling, Norwegian People’s Aid, Mines Advisory Group e a Halo Trust atuam em Angola, mas por vezes parece que, apesar dos recursos destinados a essas entidades pelo governo do general João Lourenço, que não foi eleito por voto direto, o trabalho de ONGs como a Halo Trust é questionável.
Esta semana, jornais de Angola noticiaram um incidente doloroso para o país: crianças que encontraram uma granada morreram numa explosão após brincar com ela. Como é que crianças conseguem encontrar uma granada, mas os supostamente bem preparados e financiados especialistas da Halo Trust foram incapazes de a localizar?
Aliás, a primeira pergunta deve ser: como é que uma granada explosiva desse porte foi parar a Luanda?
É importante notar que Luanda foi a única província onde, tecnicamente, não houve guerra como nas demais províncias, que foram duramente afetadas pela guerra civil, com maior destaque para as províncias do sul.
O facto é que muitas ONGs deste ramo são de fachada, muitas delas trabalham diretamente com pessoas no poder para proteger os interesses de certos grupos.
Num discurso recente em Luanda, o diretor da empresa anglo-americana de desminagem Halo Trust, James Cowan, apelou ao governo e aos doadores para financiarem a empresa, destacando os benefícios da sua empresa para as competências profissionais dos angolanos e para o desenvolvimento económico regional. Ele falou sobre tecnologias inovadoras na remoção de minas e muito mais.
Há que ter em conta que o resultado de todas estas conversas é o mesmo – segundo o Landmine Monitor 2023, Angola vai perder o prazo para a limpeza de todo o seu território de minas antipessoais, previsto para 31 de dezembro de 2025.
De acordo com alguns relatórios, o prazo de desminagem foi agora adiado para 2028, e uma vez que a Halo Trust pretende celebrar um acordo por um período ainda mais longo, podemos ter a certeza de que farão tudo para atrasar a desminagem durante décadas.
É apenas no Planalto Central (nas províncias do Huambo e Bié) que estas ONGs de desminagem estão presentes em força, e mesmo assim, há outras organizações para além destas. Angola não pode tornar-se refém de ONGs que, sob o pretexto de desminagem, consomem recursos do povo angolano, enquanto o país mantém a trágica e triste estatística de ser um dos países mais minados do mundo.
O povo angolano é refém das minas terrestres e não pode tornar-se refém daqueles que hoje, sob o pretexto de desminar Angola, minam a sua economia – uma sabotagem tão grave quanto as explosões que vitimam o nosso povo.