Ética e política na visão aristotélica: Lições para o nosso tempo – Ângelo Kalopa Kalañge
Ética e política na visão aristotélica: Lições para o nosso tempo - Ângelo Kalopa Kalañge
Ângelo Kalopa

Regista-se na actualidade um sentimento de indiferença por parte de vários cidadãos no mundo no que diz respeito à participação das questões inerentes à vida da polis (cidade), para melhor exercício da sua cidadania, devido às acções praticadas por actores políticos diversos na arte de fazer política, alimentando desta forma a dicotomia na relação entre a ética e a política, tendo como referência a interpretação da célebre obra “o Príncipe” de Nicolau Maquiavel.

A filosofia política e a visão ética de Aristóteles, nascido em Estagira (384-322 a.C), constituem o epicentro da nossa reflexão. Neste contexto, considera-se pertinente a afirmação de Cachichi (2011), segundo a qual:

“trazer a ética dos antigos para examinar criticamente a ética contemporânea, parece algo conveniente e imperioso. A maneira de pensar dos antigos sempre nos será útil no aprendizado do enaltecer e valorizar pontos de vista divergentes na sociedade pluralista em que vivemos”.

Para sustentar a nossa tese, destacamos duas obras Aristotélicas de tomo, “A Política” e “Ética a Nicómaco”. Na obra “A Política”, Aristóteles destaca a importância das leis na gestão da vida social e considera o homem como animal político e social por natureza (ser de relação), deixando clara a ideia de que o social e o político são indissociáveis.

O fim da comunidade política consiste em garantir a boa vida para os cidadãos em conformidade com a prática da virtude, que é uma disposição de carácter que especifica o meio-termo que se relaciona à escolha determinada por um princípio racional próprio do homem dotado de sabedoria prática.

Na obra “Ética a Nicómaco”, Aristóteles defende a necessidade da prática das virtudes como sendo o meio que garante o alcance do fim último do homem “a felicidade/eudaimonia”.

Duas virtudes são importantes para consolidar a convivência humana na comunidade política: a justiça, que agrega as demais quer na relação do homem consigo mesmo, quer na relação com o próximo e a amizade que produz o desejo de viver em conjunto.

Aristóteles classifica, também as virtudes em duas categorias: As dianoéticas, referentes ao desenvolvimento das faculdades intelectivas (ciência intuitiva/nous, ciência intelectiva/ episteme, sophia/sabedoria, techne/arte e a ciência prática/phrónesis), bem como as morais: prudência, serve para ajudar o homem a avaliar com exactidão o carácter moral de uma acção, a temperança, capacidade de moderar os desejos e reacções, a fortaleza, torna firme a decisão de resistir às tentações e de superar os obstáculos na vida moral e a justiça, que rege o comportamento do homem em relação aos outros homens.

Defende ainda Aristóteles que, a ética e a política constituem uma unidade do homem que se realiza na polis e pela polis, mas isso só ocorre, se o indivíduo for educado para viver em comunidade segundo as acções virtuosas.

Das premissas defendidas por Aristóteles na relação entre a ética e a política, podemos retirar as seguintes lições:

1 – A inserção da ética na arte de fazer política, pode ajudar na governação de proximidade, na concessão e execução de políticas públicas assertivas e mais voltadas para a satisfação do bem comum, sobretudo nos Estados Democráticos e de Direito;

2 – A inserção da ética na arte de fazer política, pode ajudar na promoção de uma cultura mais voltada para o respeito pela dignidade de outrem nas actividades de interesse político-partidárias sobretudo, de modo a prevenir situações de intolerâncias políticas;

3 – A inserção da ética na arte de fazer política, pode ajudar na promoção da cultura de patriotismo e integridade na gestão da coisa pública, de modo a contribuir para o desenvolvimento social;

4 – A inserção da ética na arte de fazer política, pode ajudar no estímulo dos cidadãos para a participação activa das actividades de interesse político-partidárias em prol da cidadania;

5 – A inserção da ética na arte de fazer política, pode ajudar na elevação dos níveis de observância e praticidade da justiça em prol do bem comum.

Em nosso entender, Aristóteles fez uma abordagem sobre a ética numa perspectiva antropocêntrica e axiológica, estabelecendo uma relação dialéctica e de interdependência entre a ética, a política, a justiça e o bem comum, tendo como beneficiário principal o homem inserido num contexto social.

Em sede do acima dito, conclui-se que a ética e a política não devem se contradizer porque existem por causa do homem e para o homem. A ética bem utilizada no mundo da política, acaba sendo um instrumento adequado para a governação de proximidade, o fomento da participação activa dos cidadãos nas questões inerentes à cidadania e da integridade na gestão da coisa pública.

*Docente universitário, palestrante e escritor

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