Angola: Raiva mata 1250 pessoas nos últimos quatro anos
Angola: Raiva mata 1250 pessoas nos últimos quatro anos
cao e gato

Mais de 1.250 pessoas, entre adultos e crianças, morreram nos últimos quatro anos, em Angola, por mordedura de cães vadios ou semi-domiciliados, infectados pelo vírus da raiva, com base nos registos do Centro de Processamento de Dados Epidemiológicos (CPDE) do Ministério da Saúde.

Com base no relatório do CPDE, as províncias com maior incidência de casos de raiva, em 2023, foram Luanda, com 74 ocorrências, Cuanza-Sul (29), Bié (22), Huíla (17), Benguela e Cunene (15), Uíge (11), Cuanza-Norte (9), Lunda-Norte e Huambo (7) e Malanje (5).

Para os técnicos do CPDE, o número de casos tende a aumentar devido à baixa cobertura da vacina, causada por inúmeros factores, desde o logístico aos recursos financeiros e de equipamentos.

Os técnicos explicaram, ainda, que o débil sistema de recolha dos animais vadios, na maioria cães semi-domiciliados, tem sido uma das causas do aumento do número de mordeduras e transmissão do vírus da raiva aos humanos, assim como a fraca adesão por parte da população às campanhas de vacinação, sobretudo no meio rural.

Actualmente, como forma de contrapor as estatísticas, os técnicos têm optado pela vacinação antirábica em cães, gatos e macacos, de forma contínua nos serviços de veterinária a nível nacional.

Zoonose muito perigosa

A bastonária da Ordem dos Médicos Veterinários de Angola (OMVA), Carla Fernandes, considerou a raiva uma das zoonoses mais antigas e perigosas que ainda persiste, especialmente nos países em desenvolvimento.

No país, a doença viral, que é fatal em quase 100 por cento dos casos, continua a representar uma preocupação significativa para a saúde pública e a segurança animal.

Carla Fernandes disse que a OMVA está a trabalhar para garantir a promoção da formação contínua dos técnicos do sector, assim como a ética profissional com a regulamentação da actividade veterinária no país.

“Através da OMVA, os médicos veterinários recebem orientações sobre boas práticas e são incentivados a envolverem-se activamente nas campanhas de controlo contra a raiva”, referiu.

A ordem, explicou, tem colaborado com as autoridades de Saúde Pública e entidades internacionais para criar uma rede de suporte, de forma a promover as políticas de combate à raiva, por meio da vacinação em massa.

Papel dos veterinários

A bastonária da Ordem dos Médicos Veterinários de Angola sublinhou que o papel dos médicos veterinários se torna fundamental, por serem os profissionais que actuam na linha de frente, garantindo a vacinação e promovendo campanhas de sensibilização sobre a raiva nas comunidades.

“A responsabilidade dos médicos veterinários vai além da aplicação das vacinas, que sâo os principais agentes de prevenção e controlo de surtos”, avançou.

Os profissionais do sector, continuou, têm realizado investigações epidemiológicas e diagnósticos precisos que auxiliam na detecção precoce e na resposta rápida aos casos de raiva.

Este ano, recordou, a data vai servir, também, para a promover mais a população sobre a importância da vacinação de animais domésticos, em especial cães e gatos, que são os principais transmissores do vírus para os humanos.

Prevenção

O Dia Mundial da Luta contra a Raiva é assinalado hoje, 28 de Setembro, como forma de incentivar o combate à doença e, ainda, consciencializar as pessoas sobre a importância da prevenção.

A vacinação é a forma mais eficaz de prevenir a raiva, protegendo não só os animais, mas também as comunidades.

A raiva, de acordo com os dados estatísticos, está presente em todos os continentes e afecta mais de 150 países. A nível mundial, a doença é responsável por 60.000 mortes humanas anualmente e, na grande maioria dos casos, os cães são a principal fonte de infecção.

Uma estratégia global foi criada, na qual Angola também aderiu, para o controlo da epidemia, por meio da educação das pessoas, e garantir a eliminação da raiva no mundo até 2030.

A meta foi estabelecida pela Organização Mundial de Saúde Animal (OIE), com anuência da Aliança Global Contra a Raiva (GARC), a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Organização das Nações Unidas para a Agricultura (FAO).

Raiva canina é uma doença letal e prevenível

De uma brincadeira de criança, o drama de Ana (nome fictício) começou. Aos 10 anos, quando estava a brincar de noite, com alguns cães de rua, foi mordida por um deles

Com medo de ser repreendida, decidiu não contar aos pais sobre o incidente, acreditando que a mordida não era grave. Os dias passaram e Ana seguiu a rotina normal, sem saber que tinha sido infectada com o vírus da raiva.

Três semanas após a mordida, a menina começou a apresentar sintomas como febre, confusão mental e espasmos musculares. Nesse momento, os pais descobriram o que tinha ocorrido semanas antes e a levaram para o hospital, mas já era tarde demais.

Os médicos confirmaram que ela estava em estágio avançado de raiva, uma doença fatal quando não tratada a tempo e, infelizmente, não poderiam fazer nada para a salvar.

Luta contra negligência

Para a coordenadora provincial da Vigilância Epidemiológica, Luísa Paulo, a negligência em procurar ajuda médica após uma mordida de animal pode ter consequências trágicas.

“Se a pessoa for mordida e não procurar um profissional de saúde, e o animal for portador da raiva, a situação pode agravar-se rapidamente”, explicou, além de considerar importante as pessoas saberem que um animal infectado pode morrer em até 30 dias e uma vez que os sinais aparecem não há tratamento eficaz.

A vacinação contra a raiva, recordou, é um processo que requer um esquema específico de cinco doses para garantir a imunização completa. “Após completar essas doses, a pessoa estará livre do vírus da raiva”, afirmou.

A coordenadora pediu, por isso, uma atenção especial dos pais, pois a maioria dos casos de raiva notificados são de crianças entre 2 e 15 anos, a maioria do sexo masculino.

“É crucial que os pais orientem os filhos a não abusar de animais, pois essa imprudência pode levar a mordidas e à contaminação”, alertou, lembrando que muitos casos de raiva são registados quando as crianças tentam brincar com cães ou gatos e acabam sendo mordidas.

Além disso, explicou, a imunidade proporcionada pela vacina antirrábica não é duradoura como no caso de outras vacinas, como a da febre amarela, que oferece protecção até 10 anos. “Se uma pessoa for exposta ao vírus da raiva após 60 dias da vacinação, ela deve reiniciar o esquema vacinal”, informou.

Os sintomas da raiva em humanos, disse, podem aparecer entre 3 semanas a 2 anos após a exposição, sendo que os sinais incluem ansiedade, febre, delírios, espasmos musculares e hipersensibilidade à luz e à água. “É vital procurar atendimento médico imediatamente após a mordida, mesmo que não haja sintomas visíveis”, orientou.

Às comunidades, a coordenadora fez um apelo para apostarem mais na prevenção como forma de combater a raiva.

Os serviços de Vigilância Epidemiológica, assegurou, vão continuar a trabalhar em estreita colaboração com a comunidade para promover a saúde pública e reduzir os casos de raiva através da conscientização e vacinação.

Única solução

A médica veterinária Telma Muquê disse que uma das principais formas de controlar e erradicar a raiva é através da vacinação de animais domésticos, como cães e gatos, bem como de animais selvagens mantidos em cativeiro, como macacos.

“Todos os animais domésticos devem ser vacinados e as vacinas estão disponíveis tanto em clínicas veterinárias privadas como nos serviços públicos”, disse, acrescentando que a lei da sanidade animal, no artigo 9, alínea b, obriga a vacinação contra a raiva, sendo uma responsabilidade legal de quem possui animais de estimação.

A vacinação, referiu, é uma medida preventiva de alta eficácia, tanto em situações normais quanto em casos de exposição ao vírus, sendo o tratamento profilático pós exposição, quando realizado nas primeiras 48 horas após o contacto com um animal infetado, envolve a administração de soro antirrábico e vacinas.

“São necessárias três doses de soro e cinco de vacinas para garantir a profilaxia eficaz”, explicou. No entanto, alertou que não existe tratamento específico para a raiva uma vez que os sintomas aparecem, e a morte é quase certa, tanto para animais como para seres humanos”.

Sintomas e mortalidade

A médica explicou que os sintomas da raiva podem demorar semanas ou até meses a manifestar-se, dependendo do período de incubação após a pessoa ou animal ter sido mordido por um animal infetado.

“Os sinais mais característicos da doença incluem hidrofobia (medo de água), fotofobia (sensibilidade à luz), paralisia progressiva e, eventualmente, a morte”, afirmou.

Uma vez que esses sintomas se manifestam, ressaltou, o desenlace é rápido e irreversível, reforçando a necessidade de uma resposta imediata após o contacto com um animal suspeito de estar infectado.

Os casos de sobrevivência humana, contou, embora raros, envolvem sequelas graves e irreversíveis, devido ao facto do vírus causar danos severos ao sistema nervoso central, resultando numa encefalomeningite.

Nos humanos

A médica veterinária Kareem Tungo realçou que embora seja amplamente conhecida como uma doença que afecta animais, os seres humanos também podem contrair raiva através da mordedura ou arranhadura de um animal infetado, principalmente cães e gatos.

“O vírus ataca o sistema nervoso central, onde leva o portador a óbito em questão de dias, caso não seja diagnosticado e tratado a tempo” disse.

De acordo com a especialista, uma vez que o vírus entra no organismo humano, ele percorre o corpo até atingir o cérebro, um processo que pode levar até 45 dias após a infecção.

“Os primeiros sintomas da raiva humana são muitas vezes confundidos com os de uma gripe comum: mal-estar, fraqueza geral, dor de cabeça, temperatura baixa e irritabilidade”, explicou.

No entanto, ressaltou que à medida que o vírus afecta o cérebro, os sintomas tornam-se mais graves e neurológicos, como ansiedade, confusão, agitação, alucinações e insônia.

“Estes são sinais críticos de que a doença está em estágio avançado e, infelizmente, se o tratamento não for iniciado cedo, a morte ocorre em 5 a 7 dias”, alertou.

A única forma eficaz de prevenir a raiva humana, informou, é através da profilaxia pré-exposição e pós exposição no caso de um possível infecção, a vacina antirrábica humana é administrada para impedir que o vírus avance e cause danos fatais ao sistema nervoso central.

“O tratamento profilático envolve uma série de doses de vacina, e a sua eficácia é muito maior quando administrado logo após o contacto com um animal potencialmente infetado”, contou.

in JA

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