“Endinheirados” e o investimento na economia – Adebayo Vunge
"Endinheirados" e o investimento na economia – Adebayo Vunge
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Um aspecto curioso, porventura nem sempre tido em conta pelos seus críticos, prende-se ao facto de DonaId Trump trazer uma abordagem que coloca o capitalismo financeiro relativamente em cheque.

Ao invés disso, o 47.º Presidente dos Estados Unidos da América prefere uma abordagem que privilegia a reindustrialização do país, permitindo que o grande capital, esteja ao dispor desse processo.

É uma loucura o que se assiste, hoje no mundo, com ramificações um pouco por toda a parte. O Presidente Lula da Silva é uma das individualidades globais que se opõe ao cenario actual em que temos um por cento da população mundial a deter 90 por cento da riqueza.

Quando olhamos ao perfil dos multimilionários actuais, temos uma grande concentração de riqueza ao nível da tecnologia e dos serviços financeiros, deixando a economia real cada vez mais depauperada em termos de recursos disponíveis para o agro-negócio e a industria transformadora.

O historiador e autor de best sellers, Harari Yuval, faz uma análise muito profunda sobre a realidade global, com recursos historiográficos e sociológicos para permitir perceber o que se está a passar hoje com fenómenos do nosso tempo como o capitalismo, a globalização, a democracia e as transições energéticas e tecnológicas. Harari é confiante e optimista.

A grande maioria das pessoas corresponde, hoje, com êxito, ao ideal capitalista-consumista. A nova ética promete o paraíso na condição de os ricos se manterem gananciosos e passarem o seu tempo a ganhar mais dinheiro e de as massas darem rédea solta aos seus desejos e paixões – e comprar cada vez mais. Esta é a primeira religião da história cujos seguidores fazem realmente o que lhes é pedido”, lê-se no Homo Sapiens.

Os riscos da financeirização excessiva da economia são demasiado evidentes uma vez que os instrumentos especulativos podem gerar paralesia por falta de investimentos direccionados para outros sectores.

No mundo actual, há outros factores que condicionam ainda mais essa realidade, como é o fenómeno do emprego que se vê cada vez mais limitado fruto dos avanços tecnológicos.

Os magnatas estão a prosperar como nunca se viu na História da Humanidade, conseguindo esquemas de multiplicação no sistema financeiro, mas ao mesmo tempo retiram recursos e capacidade para as famílias consumirem, as empresas investirem na produção e o Estado poder desenvolver políticas públicas.

É verdade, entretanto, que alguns instrumentos podem ajudar a capitalizar empresas e financiar a produção, mas os indicadores estatísticos revelam discrepâncias nos fluxos e direccionamento dos recursos em sede da banca, fundos de investimento, mercado de capitais e outras instituições do Sistema Financeiro.

É claro que a discussão em torno do valor do gasto público, da necessidade de disciplina orçamental e em torno da qualidade da despesa pública é sempre muito questionável e em toda a parte levantando, ao de cima, a discussão sobre o papel do Estado e do seu peso na sociedade e na economia.

É claro que a discussão sobre os sistemas tributários levantam sempre muita discussão sobre a sua finalidade, a forma como esse exercício de arrecadação de receitas é feito e no final do dia os instrumentos como incentivos e taxas mais adequadas ao próprio momento económico suscitam sempre uma reflexão mais geral.

Curiosamente, vemos muito discurso contra o gasto público, mas queremos cada vez mais infra-estruturas e mais consumo entre as famílias.

É claro que as sociedades procuram sempre um capitalismo que não subalternize os Direitos Humanos, num claro conflito entre prosperidade, liberdade e igualdade.

Então, precisamos de instituições públicas e privadas, do Sistema Financeiro, que entreguem soluções de produtiviodade ao cidadão, às famílias e às empresas.

Abordagens como aquela que vemos acontecer com o Fundo de Apoio do Desenvolvimento Agrário (FADA) que, em 2024, disponibilizou cerca de dezassete mil milhões de kwanzas para cooperativas e camponeses, para além de um programa que disponibiliza instrumentos para mecanização e aceleração da produtividade agrícola e pecuária em fileiras fundamentais para aumentar a segurança alimentar.

A expectativa é que, no nosso estádio de desenvolvimento, a banca comercial seja mais agressiva e menos rendeira, na disponibilização de recursos à economia em diversos sectores.

Termino com uma frase de Ladislau Dowber, economista brasileiro, que faz pensar e muito aplicável também ao nosso contexto: “eu achei interessante o comentário de um empresário que diz assim: realmente com a quebra dos direitos trabalhistas está mais fácil contratar, mas para que vou contratar se eu não tenho para quem vender?”.

Precisamos de um choque geral para aumentar a nossa produção e produtividade. Precisamos de criar condições para que o nosso mercado de consumidores possa voltar a crescer, sendo aqui fundamental proteger e alargar uma classe média angolana com poder de compra e capacidade de consumo, fruto do aumento da sua renda.

Precisamos que “os nossos endinheirados”, como costumava referir o falecido Gustavo Costa, possam colocar os seus recursos ao serviço da economia.

*Jornalista

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