Dor e consternação no último adeus a Mano Chaba, o miúdo do Paraíso
Dor e consternação no último adeus a Mano Chaba, o miúdo do Paraíso
Chaba

Os restos mortais do músico Jeremias Ekundi Tchicúlia (Mano Chaba), de 17 anos, falecido na última terça-feira, por afogamento, na Ilha do Cabo, repousam, desde ontem, no cemitério da Mulemba, no município do Hoji ya Henda, em Luanda.

Milhares de pessoas, entre familiares, amigos, fãs e a sociedade civil participaram nas exéquias e provaram o carinho que nutriam pelo kudurista. Os presentes choraram incansavelmente, cantaram e protagonizaram momentos de oração e adoração a Deus.

Em sua homenagem, a moldura humana percorreu a pé, por aproximadamente uma hora e meia, na caravana fúnebre, cantou todas as músicas do artista, enquanto alguns exibiam camisolas com o rosto do também conhecido como “Filho do Padá”, com dizeres reflexivos, como “o amor não se compra com dinheiro”, por sinal, as últimas palavras de Mano Chaba, expressadas em live, na praia onde veio a falecer, por asfixia mecânica.

O semblante dos pais, irmãos e demais membros da família de Mano Chaba era desolador e de profunda consternação. Quase sem voz, a mãe, Anabela Ekundi, orava, enquanto levantava as mãos para o céu.

Este jornal tentou abordar o pai, mas as únicas palavras de Eugénio Tchicúlia eram, “eu não posso falar nada, apenas quero pedir que a sua alma descanse em paz”.

No cemitério, também conhecido por Catorze, o apóstolo Cornélio Manuel, da Igreja Ministério do Pão, dirigiu a oração com base no amor e na esperança divina.

Na mensagem que marca o elogio fúnebre de Mano Chaba, lida pela tia, Ilda Ferramenta, destaca-se a grandeza de um ser franzino, mas de uma inteligência e humanidade raras.

Mano Chaba, que iniciou profissionalmente a sua carreira musical aos 12 anos, já fez parte de um grupo denominado, “Zona Clássica”.

Depois de decidir seguir a sua carreira a solo, o filho do Padá, nome que atribuiu ao seu primeiro E.P, gravou a música, “O Mundo dá voltas”, que viralizou, sobretudo no mundo dos jovens da segunda década de 2000.

O tema, “Sonhos”, lê-se na carta fúnebre, foi crucial para um novo renascer no Paraíso, bairro onde nasceu, tendo em conta a letra motivadora, para o abandono do mundo da delinquência para almejar os objectivos, por outros meios.

Familiares e colegas vão eternizar a memória

O músico Sini, que conviveu de perto com Mano Chaba e partilharam a gravação no tema “Foco”, garantiu elevar a fasquia musical do movimento Kuduro, como forma de honrar a memória do autor dos temas, “Sonhos”, “Menino de rua” e “Regra do jogo”.

“Vamos dar sequência à gravação da sua obra discográfica, promover as músicas e apresentar ao público, porque achamos que esta é também uma forma de reconhecimento dos seus feitos, embora não acabados na sua plenitude”, disse o também kudurista.

Inconsolável, a cantora Tuga Agressiva descreveu o colega como um verdadeiro exemplo de superação e que dava sinais evidentes de que seria uma pessoa grande, no show business angolano.

“As letras cantadas por Mano Chaba tocavam a todos nós, porque é uma realidade que se vive nos nossos bairros, nas nossas famílias e na sociedade de forma geral”, enfatizou.

Na mesma situação estava a influenciadora digital Débora fala na Cara. Depois do sepultamento dos restos mortais do artista, considerou que Mano Chaba apresentou temas intemporais e foi um músico revolucionário.

“Mesmo sem nunca ter privado com ele, de longe, notava-se que era um ser de princípios, de luz e respeitador de valores”, disse.

O presidente da cooperativa, “Tudo pelo Kuduro”, Pilosos Maestro, lamentou igualmente a morte prematura de uma evidente aposta do estilo musical, considerando que a classe empobrece, com a partida do novo talento.

No local do velório, o influenciador digital do bairro Paraíso, Emama, foi a única figura pública que subiu ao palco para interpretar a maioria do repertório de Chaba, levando as milhares de pessoas aos prantos.

O coordenador-adjunto da organização do obituário de Mano Chaba, Salu Bernardo, agradeceu a participação dos fãs e da população em geral, pela forma ordeira como procederam, apesar de alguns incidentes ocorridos no cemitério. “O importante é que não houve registo de danos humanos e materiais”, disse.

Asseguramento policial

O director do Gabinete de Imprensa da Polícia Nacional, Nestor Goubel, ao fazer o balanço do asseguramento considerou ter decorrido dentro dos marcos planificados, com uma presença considerável de agentes, na ordem dos mais de 3000, de todas as especialidades, sob o olhar atento do seu comandante provincial, comissário-chefe Manuel Gonçalves, na qualidade de coordenador da operação.

Momentos após ao funeral, um grupo de jovens, supostamente desmotivados pela proibição de acesso ao interior do cemitério, tendo em conta que o espaço não reunia condições para albergar tamanha moldura humana, protagonizou um momento tenso, com o arremesso de pedras e garrafas à polícia, que foi obrigada a lançar várias bombas de gás lacrimogéneo, mas sem registo de mortes ou ferimentos.

O menino do sonho partilhado

Jeremias Ekundi Tchicúlia nasceu a 23 de Abril de 2007. Manucho, como era carinhosamente tratado, é formado em Informática pela escola do ensino médio, Mpangi Afonso. É de uma família cristã, da Igreja Evangélica Congregacional em Angola (IECA) e fez parte do coro central.

Em 2024, Mano Chaba, por conta do seu talento, foi premiado como melhor corista do estilo Kuduro, da comuna de Kikolo, The Best Kikolo Awards, Revelação Dipanda e no mesmo ano, passou a pertencer à produtora Sold Out Skadd do renomado cantor, Deezy, antigo membro do grupo musical Força Suprema.

in JA

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