
Conheci pessoalmente o embaixador Dombele Bernardo Mbala nos anos 1990, mas também cheguei a escrever nas páginas do Jornal de Angola pronunciamentos de Dombele enquanto chefe de missão na Cote D´Ivoire.
Por ironia do destino, em 2003 cheguei a receber do Embaixador Dombele Bernardo, em carta enviada ao então Ministro da Comunicação Social, Hendrik Vaal Neto, um convite para ser seu adido de imprensa na Embaixada de Angola na Côte D’Ivoire, embora não tenha se concretizado.
Dombele disse-me que eu era um jovem promissor, precisava de mim para reforçar o seu quadro de colaboradores, lia os meus artigos no Jornal de Angola e sabia do meu interesse sobre política e nacionalismo africano.
A nossa amizade (o embaixador Dombele Bernardo, carinhosamente tratado por “Papá Dombele”) e eu, mantém-se intacta e duradoura como se fôssemos os dois da mesma geração, pese embora a diferença de idade. Muitas vezes chegámos a privar em Abidjan nas reuniões da OMAOC, Organização Marítima da África do Oeste e do Centro.
Nascimento
Dombele Mbala Bernardo é também um douto e digno filho de Maquela do Zombo, província do Uíge, onde nasceu na comuna de Mpinda, em 2 de Fevereiro de 1935.
Dombele Bernardo é filho de Dombasi Luvuezo e de Menga Manzambi, autóctones desta região de “Kongo-dia Ntotila”. Domabasi Luvuezo foi um conhecido comerciante da região, homem apegado à família e ao trabalho.
Mega Manzambi, mulher devota à religião, coadjutora do marido na boa educação da família e nos grandiosos planos futuros para os filhos.
Dombele tinha vários irmãos, mas era o que mais se destacava no seio da família por tão cedo revelar-se um homem inteligente e com uma excelente capacidade de motivação e diálogo.
Dombele Bernardo aprendeu bastante na escola da vida e do saber, embora desde cedo aficionado pela política e diplomacia africanas.
Mobilizador, enérgico, dedicou muito tempo e saber da sua vida a reflectir como iria ajudar a transformar Angola, endiabrado a todo o momento por um certo desejo de crescer e vencer.
Um combatente incansável da liberdade, defensor acérrimo dos desígnios pan-africanistas. Patriota que esbanja angolanidade, mas que se esbarra na concepção de Nkrumah, enquanto líder africano que chegou a ser citado por Luther King Jr. nos seguintes termos: “Prefiro a autonomia com perigos à servidão com tranquilidade”.
Exílio
Dombele Mbala Bernardo, muito jovem, escapou à opressão colonial portuguesa, abandonando o país com os seus pais. Instalou-se no país vizinho, a ex-colónia belga do Congo, nomeadamente na antiga cidade de Theysville (Mbanza Ngungu), posteriormente em Léopoldville, hoje Kinshasa.
Graças à prosperidade comercial dos seus pais, frequentou os estudos em diferentes escolas missionárias, onde concluiu com distinção a formação profissional, permitindo-lhe entrar com brilho e sem grandes dificuldades para a vida activa, evoluindo em diversas estruturas da Administração Pública e empresas privadas coloniais belgas.
Dombele estudara com detalhe a história dos Congos, seus hábitos e costumes, mas sabia que ia ter mais uns quantos anos de trabalho e luta.
Dombele dedicou-se, principalmente, a reportar assuntos sobre política, a luta dos povos africanos pela sua autonomia, independência e reconhecimento internacional.
A sua vida e trabalho nos Congos (RDC e Congo Brazzaville) ajudam-no a tonificar a concepção de que a causa da sua luta mergulhou numa única razão: construir uma Angola melhor para todos os angolanos.
Aproximação ao MPLA
Dombele Bernardo e Pascoal Luvualu foram os principais orientadores de ligação ao MPLA pela UNTA, União Nacional dos Trabalhadores Angolanos.
Durante a sua formação como sindicalistas na Alemanha, assumiram todas as responsabilidades inerentes à prossecução dos grandes objectivos da jovem UNTA, ainda na década de 60.
A partir do leste da Alemanha, Dombele e Luvualu estabeleceram contactos com o Comité Director do MPLA por via do seu Secretário-Geral, Viriato da Cruz, secundado por Lúcio Lara, Gentil Viana e Diandengue.
Desta aproximação, e terminado um intenso intercâmbio de correspondências e contactos permanentes, as partes concluíram ser a UNTA uma organização de massas, convergindo as suas posições políticas com as do MPLA, forçando assim as duas formações a estabelecerem uma aliança estratégica duradoura.
A aliança da UNTA ao MPLA serviu como um importante meio para a obtenção de vantagens políticas e sociais das duas organizações. As décadas de 60 e 70 foram decisivas.
O destaque das posições das duas organizações no cenário político internacional facilitou o desempenho da maior parte de nacionalistas angolanos na luta política até à proclamação da Independência Nacional em 11 de Novembro de 1975.
Todo o sacrifício consentido por Dombele Mbala Bernardo valeu-lhe dissabores durante muitos anos, mas também honra e glória. Dombele chegou a ser detido no Congo por razões políticas e passou a ser mais um homem forte de Angola a representar uma ameaça para os detratores da liberdade.
Por outro lado, privou com centenas de pessoas de todos os quadrantes em todo o mundo. Muitos líderes mundiais decidiram prestar-lhe homenagem em reconhecimento do seu papel na luta de libertação, na Independência, na conquista da paz e no relançamento da diplomacia africana.
O seu envolvimento na Luta de Libertação e na conquista da Independência Nacional foram reconhecidos, em etapas diferentes, pelos três presidentes de Angola: António Agostinho Neto, José Eduardo dos Santos e João Manuel Gonçalves Lourenço.
Desde os anos 1950, altura em que inicia o seu percurso político e vai ser exilado no Congo, à data presente, Dombele Bernardo mostra-se um homem da promoção da paz e defesa de causas sociais e humanitárias.
A nível internacional, manteve contacto pessoal-directo com Nelson Mandela, Yasser Arafat, Rainha Fabiola, da Bélgica, Jesse Jackson , tio do famoso cantor, compositor e dançarino Michael Jackson, que fora apelidado de “Rei do Pop” e um dos artistas mais influentes de todos os tempos e o maior da história da música.
No seu octogésimo quinto (85.º) aniversário, assinalado em 2 de Fevereiro de 2020, recebeu das mãos do Presidente da República de Angola e do MPLA, João Manuel Gonçalves Lourenço, o diploma de honra ao mérito pelo longo e exemplar percurso político e diplomático.
Decano dos embaixadores
A sua prestação como decano dos embaixadores no Gabão, mais tarde como embaixador na Côte D’Ivoire, o seu interesse em ser sempre o advogado do diálogo, cultor da paz e da democracia, também foram exaltados com direito a diplomas de mérito que lhe foram entregues por decanos de diferentes universidades africanas, pelo Papa João Paulo II, Omar Bongo (Gabão), Jacques Chirac (França), Laurant Bagbo (Côte D’Ivoire), Dennis Sassou Nguesso (Congo Brazzaville), tendo inclusivamente o Chefe de Estado congolês apelidado-o de Mister África, título que ostenta ainda hoje quando cruza o Palácio Presidencial em Brazzaville.
Mesmo não estando na diplomacia activa (mente), Dombele Bernardo tem ainda hoje acesso directo a palácios presidenciais ou residências privadas de muitos dos antigos e novos Chefes de Estado e de Governo dos países por onde trabalhou, como por exemplo do Gabão, Guiné Equatorial, Côte D’Ivoire, Senegal, Burkina Faso, Gambia e Togo.
A sua amizade com o Presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nguema, data de mais de 45 anos.
Aristóteles, um dos expoentes máximos da filosofia clássica grega, chegou a mencionar que “a honra não consiste em receber títulos, mas em merecê-los”.
Dombele Bernardo merece-os, os títulos, por ter atingido o reconhecimento público nacional e internacional do seu trabalho.
Nada é mais gratificante do que chegar aos 90 anos com saúde, felicidade e rodeado de bons e verdadeiros amigos.
PARABÉNS, MEU GRANDE PROFESSOR!
Por Luís Paulo