Quando o pai viola a própria filha – Guida Osvalda
Quando o pai viola a própria filha - Guida Osvalda
mulher viola

Tinha se apercebido que a filha mostrava algumas alterações no comportamento: nalguns dias estava repentinamente agressiva, retraída e envergonhada.

Como pôde ser tão distraída? Tão desleixada com a sua menina? Lembrou-se que o seu sexto sentido “disparou” quando, nos últimos meses, viu que a filha entrava em pânico sempre que o pai se dirigia a ela.

Roberta olhou estupefacta para a filha, de 13 anos de idade, e soltou um grito:

O quê? Como? Repete o que dissestes! – A adolescente, com corpo de moça, timidamente repetiu: – O papá costuma me tocar…

Te tocar como? – A mente de Roberta procurava entender o sentido da palavra tocar. Isabela queria insinuar o quê? Só podia ser uma invenção da filha. E tentou justificar: – É teu pai e ele pode te tocar

Ele me… me toca na chucha e noutras parte. – A voz da adolescente saiu mais firme desta vez.

A mulher sentiu as pernas bambas e a sua mão direita procurou, às cegas, uma cadeira para sentar-se, com receio de desabar até ao chão. Conhecia a sua filha Isabela e não era de inventar este tipo de história.

Explica bem, eu não consigo entender… O papá tem te tocado como? E aonde? – Perguntou com o coração apertado.

Quando a mamã está a dormir, ele entra no meu quarto e faz. Foram muitas vezes. – A menina desta vez tinha a voz quase inaudível e trêmula.

Faz? Faz o quê? – O coração de Roberta acelerou. Não era possível o que estava a ouvir. O marido tinha muitos defeitos, mas não podia ter chegado a tal ponto.

Diga agora o que o teu pai fez…

Ele me dormiu… – A menina, que estava com os olhos pregados no chão, começou a soluçar. – Ele disse que a mamã não vai acreditar se eu contar a verdade.

A cabeça de Roberta “girou” tão rápido que receou desabar para o chão. A tontura foi como uma pancada forte. Para recuperar o fôlego teve de inspirar várias vezes, encher os pulmões de ar para não perder os sentidos.

Estranhamente sentiu-se como se estivesse a ser comprimida pelas paredes da vasta sala onde estava com a filha. Sentiu náuseas e correu para a casa de banho onde vomitou, atordoada.

Apesar da idade, a filha tinha maturidade suficiente para saber que existem calúnias que não podem ser sustentadas. Não tinha por que inventar uma história desta só para manchar a imagem do pai.

Domingos é o pai, não era padrasto ou alguém distante. Como pode ele ter feito uma coisa destas? Como encará-lo enquanto companheiro e amante? Quem em sua sã consciência e sanidade pratica um acto deste tipo, abusando da própria filha? Teria enlouquecido?

O marido de Roberta é bem apessoado, agradável à vista e empresário de sucesso. Qual seria a sua motivação? PhD em Matemática, frequenta a igreja e é muito respeitado pela sociedade.

Nunca tinha mostrado indício de desvio comportamental. Será que o marido também “tocou” nas outras duas meninas? Estava furiosa e precisava falar com urgência com ele para acabar com as dúvidas.

A mente de Roberta regressou para alguns meses e lembrou-se, sim, havia sinais que ela ignorou. Na altura atribuiu os sinais de mudança que notou na filha a uma passagem da infância para a adolescência.

Tinha se apercebido que a menina mostrava algumas alterações no comportamento: nalguns dias estava repentinamente agressiva, retraída e envergonhada.

Como pôde ser tão distraída? Tão desleixada com a sua menina? Lembrou-se que o seu sexto sentido “disparou” quando, nos últimos meses, viu que a filha entrava em pânico sempre que o pai se dirigia a ela.

A filha ao longo de vários meses foi pedindo socorro e ela, a mãe, ocupada com os seus afazeres do dia-a-dia, não se apercebeu. Roberta queria morrer!

A filha, aos 12 anos de idade, tinha voltado a fazer xixi na cama. A criança tinha tentado alertá-la sim para o perigo em que se encontrava, não de forma verbal, mas foi deixando sinais, pedidos de socorro.

Recordou-se que a direcção do colégio onde a filha estudava tinha avisado que alguma coisa não estava bem porque o rendimento escolar dela havia baixado estrondosamente, causado por repentina dificuldade de concentração e aprendizagem assim como fraca participação em actividades extra-escolares e distanciamento das amigas.

Roberta saiu da casa de banho e encontrou a filha cabisbaixa, com olhar distante. Abraçou-a fortemente.

Desculpa, filha. Nunca imaginei que isso fosse possível. – Mentalmente a mulher tentava descobrir onde tinha errado naquele casamento, e viu sinais de auto mutilação nos braços da adolescente. O que viu reforçou a possibilidade de a filha ter sido abusada sim pelo pai.

Roberta sentia-se culpada, pois a filha tinha pedido socorro e ela tinha negligenciado a filha e não prestou atenção aos sinais que eram indiciadores do abuso sexual que ela estava a passar: sono alterado, sem apetite, desconfiança, medo, auto-mutilação. Tudo estava ali patente, mas ela não desconfiou.

Por ser mãe de três filhas, Roberta sempre teve cuidado ao falar com as filhas sobre os cuidados a ter com estranhos para evitar situações do género. Nunca disse para as filhas que estes cuidados também incluíam o marido, pai das filhas.

Usando jogos e brincadeiras, sempre disse para as filhas que não deviam deixar estranhos, primos ou amigos tocarem-lhes em certas partes do corpo, as chamadas zonas privadas, como os seios e partes íntimas.

Ensinou as filhas a distinguir os toques afectuosos de toques ofensivos, as relações e gestos abusivos, saber agir diante de ameaças, pedir ajuda, quais os segredos devem ser guardados e os que não devem ser guardados, conhecer os perigos do abuso sexual através da internet e a reconhecer os sinais que o corpo emite quando está em situação de perigo.

Todos os cuidados foram tidos, só que nunca, nos seus piores pesadelos, pensou que o marido fosse o predador das suas filhas. Que o maior perigo estava dentro de casa.

Era necessário tomar algumas medidas. Ligou para o marido, mas o telefone estava indisponível. Era muito ocupado. Provavelmente estava em alguma reunião, das muitas que tem ao longo do dia.

Roberta passou o dia como um robô, fez os seus afazeres automaticamente sem se dar conta do que de facto fazia.

Quando finalmente o marido chegou por volta das 20 horas, Roberta estava abatida, de rastos e sentia-se traída. A maior traição por que uma mulher pode passar.

Tanta mulher na rua que ele podia ter namorado, ter pago”, pensou. “No entanto foi exactamente tocar no ser que ele devia proteger e cuidar enquanto pai, progenitor e porto seguro”.

Confrontado, Domingos jurou de pés juntos, mas sem grande convicção na voz, que nunca “tocou” na filha, que era tudo mentira. Que a filha tem estado muito tempo nas redes sociais e inventava histórias para chamar atenção.

A adolescente desatou aos gritos, histérica, enquanto acusava o pai, afirmando que várias noites ele tinha se infiltrado no quarto dela para a usar e abusar enquanto a mãe dormia tranquila no seu quarto.

Era necessário colocar um ponto final naquela situação. Verdade ou não, era urgente tomar medidas para acabar com as suas dúvidas. Roberta agiu rapidamente enviando uma mensagem de pedido de ajuda para o número 15015 do INAC.

Não acreditava que a filha, que sempre foi amiga do pai, pudesse inventar uma história deste tipo. Acreditava na filha, pois, agora, via os indícios que indicavam os sinais de agressão sexual na vida dela.

Tinha passado uma hora quando o carro do SIC, acompanhado por especialistas do INAC, chegou em sua casa. O marido foi detido e elas, devido a hora, puderam prestar declarações mesmo em casa.

Na manhã seguinte, Roberta, acompanhada pela filha, dirigiu-se ao laboratório de criminalística e constatou-se que a menina tinha sido estuprada várias vezes e que estava grávida de algumas semanas.

Depois de horas de “aperto” Domingos admitiu que tem “tocado” a filha.

Sim, durante mais de um ano entrei no quarto da menina e usei a miúda – confessou, revelando que também ameaçou-a caso contasse à mãe, a família seria abandonada e ela seria detestada pela mãe por destruir o casamento deles.

A dor de Roberta era indescritível! Uma filha grávida do pai. Seria avó e madrasta ao mesmo tempo.

O Governo devia aprovar a mutilação mecânica para estupradores como Domingo, o marido, pensou Roberta.

*Cronista

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