
Normalmente, autarcas ou presidentes de câmaras de grandes cidades em democracias ocidentais são “presidenciáveis”. Cá entre nós, são mais critérios de partidos “comunistas” que determinam estas escolhas.
Também porque não temos muita experiência democrática enquanto país. Só a partir de 2012, José Eduardo dos Santos (JES) foi um “agente administrativo de facto e de direito”. É muita “carona” legal!
Antes de 2008, JES era apenas “agente administrativo de facto”, sem nunca ter sido validamente investido no cargo. Primeiro, porque o sistema de partido único o permitia até 1991, quando o “Popular” caiu pelas exigências de Jonas Savimbi. Nascia a “República de Angola”, um Estado de Direito democrático e multipartidário.
Mas, em pouco menos de dois anos, esse embrionário projecto de país mostrou-se um “nado-morto”, com o reacender da guerra, agora pós-eleitoral, em 1992.
Sem a segunda volta das eleições presidenciais, JES começa a exercer funções administrativas públicas em “estado de necessidade”, mas aceite pelo povo, em função da guerra que assolava o país.
Fazemos, em Novembro, 50 anos com apenas três Presidentes de um único partido. O primeiro tragicamente malfadado pela morte prematura; o segundo “ele mesmo, o próprio”, e o terceiro já a gritar “o próximo, faz favor” para o quarto.
Voltando aos presidenciáveis que devem continuar com a “grande obra”, o actual ministro do Interior, cogitado pela “criatividade digital urbana”, tem duas grandes vantagens que configuram hoje tendências globais em democracias ocidentais, comparado com o outro.
A primeira: quem um dia geriu, de forma convincente, grandes cidades tem este factor como vantagem.
Na Turquia, por exemplo, diz-se que quem governa Istambul pode governar o país. Foi assim com Recep Tayyip Erdoğan, que virou Presidente depois de anos como primeiro-ministro e anda por lá como chefe de um sistema político antes semi-presidencial, hoje presidencial.
Em Portugal, foi António Costa, presidente da Câmara de Lisboa, que chegou a primeiro-ministro. No Madagáscar, foi Ravalomanana, então presidente da câmara da capital, Antananarivo, que chegou a Presidente da República. E, por aí, seguem muitos outros casos.
Neste aspecto, Manuel Homem leva vantagem sobre Adão de Almeida, que nunca governou uma única povoação que fosse, nem no Catete natal dos seus ascendentes.
Manuel Homem passou, e julgo bem, por Luanda, de onde foi “arrancado” inesperadamente para ser ministro do Interior.
A segunda vantagem de Manuel Homem é exactamente esta: ser ministro do Interior, cuja instituição controla o país securitário. Aqui, também foi assim com António Costa que, depois de deixar a Câmara de Lisboa, foi ministro da Administração Interna, que, em Portugal, organiza as eleições.
Neste “quesito”, parece haver um empate virtual entre Manuel Homem e Adão de Almeida. O jurista dirigiu o Ministério da Administração do Território que, em Angola, prepara, do ponto de vista institucional, o processo eleitoral, cujos actos são, em fase posterior, praticados pela Comissão Nacional Eleitoral, órgão da administração independente.
Se a disputa interna entre eles for formalizada, o MPLA “não estraga nada”.
*Jornalista