
O Governo angolano foi apanhado de surpresa com a reunião inesperada entre os Presidentes da República Democrática do Congo (RDC), Félix Tshisekedi, e do Rwanda, Paul Kagame, que aconteceu na terça-feira, em Doha, Qatar, à margem dos esforços africanos de mediação para a paz na RDC.
A revelação foi feita esta quinta-feira, em Luanda, pelo ministro das Relações Exteriores, Téte António, que não escondeu o espanto do Executivo angolano.
“Este encontro ocorreu exactamente no dia em que a República Democrática do Congo enviou uma delegação a Luanda para negociações com o M23”, apontou o ministro, sugerindo um possível desvio da rota diplomática africana.
O encontro mediado pelo Emir do Qatar surge num momento delicado do conflito no leste da RDC, onde os rebeldes do M23 têm ampliado o seu domínio. Kinshasa acusa Kigali de armar e apoiar os rebeldes, enquanto o Rwanda justifica as suas ações como legítima defesa.
A reunião de Doha marca o primeiro contacto directo entre os dois líderes desde a escalada da ofensiva do M23, em Janeiro, e resultou no compromisso mútuo de um cessar-fogo imediato e na promessa de continuar as negociações.
Contudo, fontes próximas ao processo de mediação africano afirmam que o encontro “paralelo” poderá enfraquecer os esforços liderados por Angola, país que detém a presidência da União Africana e tem sido peça-chave nas tentativas de pacificação do conflito.
O ministro Téte António sublinhou que Angola continuará comprometida com a busca de soluções africanas para os problemas africanos.
“Enquanto presidente da União Africana, Angola não irá abandonar os seus membros e continuará a trabalhar para a paz no continente”, garantiu.
As declarações foram feitas no Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro, em Luanda, à margem do acto de despedida do presidente da Comissão da União Africana, que cumpriu uma visita de trabalho ao país.
A inesperada movimentação diplomática entre a RDC e o Rwanda levanta questões sobre os bastidores da política regional e a influência de atores externos no conflito.
Para muitos analistas, o envolvimento do Qatar pode indicar um novo tabuleiro de interesses geopolíticos no coração de África.