Comboio “Mana Madó” alvo de esquemas na bilheteira do Caminho-de-Ferro de Benguela
Comboio "Mana Madó" alvo de esquemas na bilheteira do Caminho-de-Ferro de Benguela
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Apelidado na gíria popular por “Mana Madó”, o comboio Cama-couve, afecto ao Caminho-de-Ferro de Benguela (CFB), tem sido, na óptica dos passageiros, objecto de esquema fraudulento de venda de bilhetes para enriquecimento de supostos funcionários desta companhia.

Implementado há cerca de dois anos no ramal do Corredor do Lobito, este comboio, com frequência diária, tinha como o único propósito transportar mercadorias, principalmente os produtos de campo para a cidade.

O termo “Mana Madó” surgiu da ideia de “vai com tudo”, ou seja, a superlotação dos vagões, quer da segunda como da terceira classes, tem propiciado os supostos actos de corrupção, com a facturação dos funcionários em serviço no interior da locomotiva.

Por inexistência de alternativa, sobretudo de estradas para  facilitar a circulação de viaturas no traçado Luena/Bié e vice-versa, o Mana Madó tem sido a preferência de vários passageiros, sobretudo de comerciantes que operam no Leste do país.

Os utilizadores frequentes deste meio do CFB transportam quase todo o tipo de mercadorias, de uma só vez, desde animais, electrodomésticos e produtos agrícolas, em toda a extensão do ramal ferroviário, que se estende por mil 886 quilómetros, desde o Lobito ao Luau, no Moxico.

Na verdade, por não haver fiscalização, as pessoas viajam por cima das suas mercadorias, uns para controlar melhor a bagagem, porque numa mera distracção os produtos podem desaparecer” em velocidade de cruzeiro”, e outros por insuficiência de assentos.

O cenário começa a tornar-se constrangedor e sofredor logo ao subir na locomotiva, onde sem qualquer orientação, os passageiros lutam para embarcar a seu bel prazer, desrespeitando todo o protocolo, alguns optando pela vandalização dos vidros das portas e janelas das carruagens, para ter acesso.

A Angop constatou que a desorganização começa no processo de comercialização dos bilhetes de passagem, que ultrapassam o número de assentos disponíveis.

Num certo dia, por exemplo, o cenário foi assustador, tendo-se verificado a presença de vários passageiros que, quatro horas antes do início da viagem, acederam à locomotiva que partiu da estação do Cuito para o Luena.

Estes cidadãos, na sua maioria comerciantes, entraram para as carruagens horas antes da abertura regulamentada para o público.

Um passageiro denunciou que os casos são recorrentes, em que os passageiros deixam de adquirir bilhetes de passagem na bilheteria para os comprar em canais impróprios dentro das locomotivas, longe dos preços oficiais.

Um bilhete da primeira classe, por exemplo, custa sete mil 350 kwanzas, mas nos “canais”, pode custar cinco mil  kwanzas.

Na realidade, os valores arrecadados por esta via são incalculáveis, sendo que em muitos casos não são canalizados para a Conta Única do Tesouro (CUT), provocando inúmeros prejuízos ao Estado.

Como consequência, muitos passageiros que adquirem bilhetes em canais oficiais seguem viagem de pé ou sentados sobre suas bagagens, o que origina a superlotação nos comboios.

O comboio da solidariedade

Apesar do clima pesado que se vive ao longo das viagens, face às altas temperaturas que invadem o interior das carruagens, destaca-se o ambiente de solidariedade que reina entre as pessoas, sobretudo com crianças, que giram de carruagem a carruagem para solicitar ajuda (esmolas).

Num cenário marcadamente atípico, esses petizes viajam de uma província à outra com este propósito, num trajecto de aproximadamente 400 quilómetros, percorrido em 10 horas.

Abordado pela ANGOP, António Mateus (nome fictício), aparentemente de 11 anos, disse ser morador de rua e prefere viajar de comboio em detrimento de permanecer nas ruas, para se proteger do frio que se faz sentir nesta época.

O menor, que reside na cidade do Cuito, capital da província do Bié, alegou que fugiu de casa por causa dos maus-tratos dos familiares.

Além deste caso, verifica-se também os de outros jovens, adolescentes ou crianças  que encontraram oportunidade de empreender, dentro do comboio, e se dedicam à venda de refrigerantes, água, bolacha, sacos plásticos e outros bens.

Por exemplo, o jovem Carvalho João, de 21 anos, disse que está na actividade, há três anos, vendendo água, gasosa e bolachas no interior do comboio. Para ele, este trajecto é rentável e menos cansativo na comercialização dos bens alimentares.

Disse que uma das vantagens de comercializar, no interior da carruagem, tem a ver com a segurança, pois o vendedor pode deixar o produto com o consumidor e recuperar o dinheiro momentos depois.

Abordado, um professor do município do Cuemba, na província do Bié, que usa constantemente o comboio do CFB, alertou sob anonimato que aquelas crianças praticamente vivem dentro das locomotivas.

Já Inês Cayovo, também comerciante, disse que conta com o auxílio de dois filhos na venda de carne frita, bombó e ginguba de carruagem à carruagem.

Todos em idade escolar, a senhora que vive na comuna do Cunje, no município do Cuito, disse que os enquadrou neste negócio por não conseguir vagas no ano lectivo passado. “Para não os deixar sozinhos, em casa, resolvi andar com eles nas viagens”, disse

Vandalização das carruagens

Em consequência das enchentes e das lutas para o acesso aos vagões do comboio, o índice de vandalização é maior já que o mesmo transporta pessoas e mercadorias no mesmo espaço.

Por exemplo, do Cuito ao Cuemba, o comboio efectua quatro paragens obrigatórias nas estações de Chipeta-Catabola-Camacupa-Cuanza, para permitir que outros passageiros tenham acesso ao meio, ocasião em que começam os arrastões com algumas pessoas a tentar entrar até pela janela.

Apesar da presença dos efectivos da Polícia Nacional (PN), até mesmo no exterior do comboio, as pessoas, com receio de perder a viagem, “despem-se” do medo, empurrando-se, que muitas vezes acabam por quebrar os vidros das portas e janelas das carruagens.

Apesar dessas peripécias, a retomada da circulação do comboio do CFB constitui um dos maiores ganhos da população da região do Centro e Leste do país, no sector dos transportes, com a movimentação de toneladas de mercadorias.

in Angop

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