
Não é que seja uma novidade, mas serviu como uma pedra no charco, a recente intervenção do ministro do ensino superior, professor doutor Albano Ferreira sobre a proliferação de cursos de humanidades, comparativamente aos de engenharias.
Existem muitas contribuições à volta do tema, mas é pertinente aditarmos a nossa frustração pois essa questão do ensino superior leva-nos a ficar agastados no quanto precisamos de ser mais incisivos visto que a educação tem sido a grande decepção ao longo de décadas porque se mostra em degradação, quando olhamos aos resultados, considerada como o parente pobre e, muitas vezes, quando ouvimos isso agarramo-nos apenas ao orçamento e às metas internacionais sobre o quanto os governos devem idealmente gastar/investir com a educação.
Mas eu diria que a educação e aqui incluo mesmo o ensino superior, é um parente pobre também em termos de ideias e propósitos; ninguém sabe hoje, ou desconhecemos qual é o nosso plano de educação do ensino de base, havia uma reforma, mas o ponto central do sistema tornou-se um mistério.
Hoje, por exemplo, não sabemos quem são os professores e quais são os requisitos mínimos exigidos para se ser professor, profissão que era vista com sacerdócio, admiração pública e hoje é motivo de chacota.
Assim, será que apenas as pessoas com curso superior podem dar aulas? Como estão configuradas as coisas nessa matéria? Há uma nebulosa muito grande para temas de interesse nacional e nisso responsabilizo todos – principalmente os partidos na oposição porque continuam meramente agarrados aos discursos de poder ignorando as questões reais do quotidiano das pessoas e não se lhes conhecendo propostas que não sejam para a composição da CNE… Há mais país do que isso, e país que importa mesmo, meus senhores!
Só ouvimos falar de coisas menos relevantes em todo o sistema como é a construção de escolas e ausência delas levando ao amontoado vexatório de crianças fora do ensino. Raramente nos atemos ao perfil dos professores, seja no ensino superior seja no ensino de base.
O ensino de todas as línguas necessárias a construção do homo angelensis é nulo e, portanto, nós hoje mal falamos português, as nossas línguas tradicionais e pior as línguas estrangeiras.
Alguma vez nos preocupamos com a questão do analfabetismo e do analfabetismo funcional que é ainda mais trágico porque comprova o quanto não conseguimos capitalizar o que é bem feito, nesse caso a própria alfabetização?
E alguém fala dos nossos níveis de iliteracia em termos tecnológicos, financeiros e até do ponto de vista da cidadania?
Sim, porque aqueles jovens que atiram pedras ao comboio que circula do Bungo à Malanje ou ao novo aeroporto são um produto da falha do sistema de ensino. Suponho que até sejam letrados ou alfabetizados minimamente, mas falta-lhes uma consciência cívica.
Os falhanços em termos de literacia financeira são resultantes das falhas do ensino, principalmente do ensino da matemática que é vista no nosso seio como um “bicho de sete cabeças”.
E a questão tecnológica? Não podemos mais construir escolas sem computadores, sem laboratórios, sem mapas, sem microscópios, por mais rudimentares que sejam. Ou, pelo menos, tirarmos um melhor proveito do telemóvel enquanto ferramenta.
E aqui pergunto me sobre o grau de preparação que o nosso país terá para lidar com os meios de combate modernos como são os drones que vemos a provocarem inúmeros estragos nas guerras no hemisfério norte.
E como conseguir autonomia alimentar e melhorar os níveis de produção agrícolas se não temos gente especializada em genética para acelerarmos a melhoria das sementes, mudas e espécies do nosso gado que, como se vê, são pouco rentáveis?
Então, eu só posso encarar o discurso do Ministro do Ensino superior numa lógica de quem tem a obrigação, nos próximos tempos, de apresentar medidas muito concretas para melhorar o estado da arte, como sói dizer-se.
Académico, mas agora nas vestes de político, não se poderá ficar pelos lugares-comuns. O ministro fica com a obrigação pública de introduzir melhorias para que tenhamos um ensino superior adequado às exigências do mercado e do desenvolvimento económico e tecnológico do nosso país, criando assim as bases para uma alteração do paradigma.
Obviamente, é um anacronismo manso, em que dizemos as mesmas coisas, mas salta à vista o facto de estarmos a falar de sectores verdadeiramente estratégicos, mas que continuam completamente amorfos dentro da agenda política, dos espaços da média e do debate público.
Queremos desenvolver Angola, mas não prestamos a devida atenção à educação. É um contra-senso. O debate sobre a educação só surge quando é para falarmos de greves dos professores.
Como diria o meu amigo Raimundo Salvador, isso é um “absurdistão” inaceitável – mais de vinte cursos de relações internacionais para três ou quatro de medicina? Urge virar a página.
Urge mobilizar o país à volta do que é essencial, vital e fundamental. Isto é, a educação merece um outro olhar de todos nós. Ou deveria!
*Jornalista