Não há lista nenhuma que pode agradar a gregos e troianos – Nsambanzary Xirimbimbi
Não há lista nenhuma que pode agradar a gregos e troianos – Nsambanzary Xirimbimbi
JL rui monteiro

O ano de 2025 marca os 50 anos da independência de Angola, uma data simbólica que deveria ser celebrada com um sentimento colectivo de unidade, gratidão e reflexão sobre o percurso feito até aqui.

Porém, o anúncio da lista das personalidades condecoradas pelo Estado, como forma de reconhecimento pelo seu alegado contributo ao país, trouxe à tona não apenas críticas e controvérsias, mas também o retrato nu e cru de uma sociedade profundamente polarizada e mal resolvida com o seu passado.

Condecorações, polarização e a necessária reconciliação nacional

A reacção pública à lista de condecorados revela, mais uma vez, as feridas abertas da guerra e a ausência de uma reconciliação nacional genuína.

Em vez de nos unirmos em torno de um marco comum – a independência – assistimos ao aprofundamento das divisões, com cada lado a interpretar as escolhas feitas como uma tentativa de apagar, minimizar ou manipular a memória coletciva.

A guerra civil em Angola não foi apenas um conflito armado – foi uma tragédia que devastou famílias, desfez comunidades, travou o desenvolvimento e, pior, plantou no imaginário nacional a semente da desconfiança e do ressentimento.

O seu fardo é pesado, e os seus efeitos ainda são visíveis nas estruturas sociais, nas instituições e na maneira como os angolanos se relacionam uns com os outros.

O problema maior é que não fizemos um verdadeiro processo de reconciliação nacional. A paz assinada em 2002 pôs fim ao conflito armado, mas não ao conflito emocional, histórico e simbólico.

Não se curam feridas profundas apenas com decretos, datas comemorativas ou cerimónias protocolares. É preciso escuta, empatia, reparação e reconhecimento mútuo.

É irónico e preocupante que, passadas mais de duas décadas desde o fim da guerra, ainda haja quem instigue o ódio e o divisionismo, muitas vezes com discursos inflamados vindos de quem nem sequer viveu os horrores do conflito, mas que parece empenhado em reavivar os fantasmas do passado por interesse próprio ou para alimentar agendas políticas.

Heróis, reconhecimento e o vício dos privilégios

Outro elemento que esta polémica sobre as condecorações revelou é o descompasso entre o que entendemos por heroísmo e o que, na prática, tem sido premiado.

Muitos dos que hoje reclamam por medalhas, títulos e regalias parecem não ter lutado por justiça, igualdade ou direitos – mas sim por privilégios pessoais ou de grupo.

Quem luta por direitos, luta por todos. Quem luta por privilégios, luta por si. E é essa distinção que precisa ser sublinhada.

Quando se observa a ânsia com que alguns exigem reconhecimento oficial, não por aquilo que fizeram pelo povo, mas por aquilo que acham que merecem em termos de estatuto e benefício, compreende-se por que razão a cidadania em Angola continua frágil, instrumentalizada e utilitária.

Talvez a grande lição desta controvérsia seja esta: ou se condecoram todos, ou não se condecora ninguém. Porque nunca haverá uma lista consensual. Os critérios serão sempre questionados, as ausências sempre criticadas, e os nomes incluídos sempre polarizadores.

Unir em vez de dividir

As efemérides deviam servir para unir, refletir e projetar o futuro. O que temos visto é o oposto: celebrações convertidas em arenas de disputa e em reavaliações selectivas da história.

Não há futuro sem memória, mas também não há memória coletiva saudável quando ela é constantemente manipulada para servir interesses particulares.

Angola precisa de uma nova geração de líderes, de cidadãos e de intelectuais que saibam que a paz não é apenas a ausência de guerra, mas a presença de justiça, inclusão e verdade histórica.

Precisamos de menos heróis que exigem palmas, e mais cidadãos que lutem por reformas, que eduquem, que sirvam, que inspirem.

Condecorar alguém é sempre um acto político – não apenas no sentido partidário, mas no sentido simbólico: diz-se ao país quem se quer exaltar como modelo. Se esse modelo for controverso, exclusivista ou oportunista, as consequências serão inevitavelmente divisionistas.

Neste ano de celebração dos 50 anos da independência, e às vésperas de mais um Dia da Paz, o verdadeiro desafio não é premiar nomes, mas reconciliar consciências. O país precisa mais de reconciliação do que de medalhas.

E precisa mais de justiça social do que de monumentos a si próprio. Talvez quando entendermos isso, poderemos finalmente começar a construir uma Angola verdadeiramente unida, com todos dentro e ninguém deixado para trás.

*Docente

Compartilhar:

Facebook
WhatsApp
LinkedIn
Twitter
error: Conteúdo protegido