Uma desordem no comércio mundial – Adebayo Vunge
Uma desordem no comércio mundial - Adebayo Vunge
donald trump

Já todos sabíamos o quanto o actual inquilino da Casa Branca era uma personagem política mais do que disruptiva. Donald Trump é em certa medida um anarquista no sentido político do termo, mais do que um simples neoliberal.

Tudo isso fica mais do que confirmado com a trapalhada de Donald Trump na definição duma nova política comercial dos Estados Unidos da América que o leva a colocar em causa as tarifas aduaneiras nas trocas comerciais com todos os demais países do mundo.

Com isso, Donald Trump tem a proeza de ser o motor duma desfragmentação completa da ordem económica e política do mundo, adveniente do século XX, em que os Estados Unidos assumiram a condição de líder mundial e superpotência global.

Agora, face ao advento ou a posição que a China vem assumindo, Trump tenta por via errática inverter a ordem, num contexto em que se se desconhece o resultado.

Pelo menos, a maioria dos analistas tem dúvidas que consiga atingir os resultados que preconiza, dessa forma, ou seja, tornar a América grande novamente.

Por outro lado, destacamos igualmente o facto da problemática política do Presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, de agravar as tarifas sobre a importação de bens de outros países procura reduzir os déficits comerciais e promover a produção doméstica, a chamada reindustrialização, fenómeno que suscita muitas dúvidas uma vez que o paradigma económico e industrial do mundo há cem anos era completamente diferente do que é hoje.

Por exemplo, as matérias primas dominantes do processo de industrialização têm novos componentes derivados da tabela periódica de Mendeliev, de que se destaca o lítio e as terras raras.

Ora, a salgada é também tão grande que existem fortes suspeitas sobre outros motivos inconfessos da administração Trump, mas a verdade é que os resultados têm sido catastróficos.

Há cerca de uma semana, os índices da principais bolsas mundiais estão em queda, gerando prejuízos aos tais “magnatas” de Sillicon Valey, Wall Street, de tal sorte que o Presidente americano foi obrigado a suspender por 90 dias todas essas medidas da sua embrulhada e salgada política comercial.

Essas políticas têm gerado preocupações no seio das principais organizações de regulação do comércio internacional devido aos possíveis aumentos nos preços ao consumidor e impactos negativos no comércio global.

O Fundo Monetário Internacional alertou que tais tarifas podem desencadear uma recessão global, afetando desproporcionalmente inclusive os Estados Unidos da América, num contexto de crescimento cada vez mais lento.

No próximo dia 21 de Abril, em Washington, as instituições de Bretton Woods, no quadro das reuniões de primavera, anunciam ou actualizam as projecções do PIB global, regional e de cada um dos países membros, muito pressionados agora por uma “variável proxy” que é o avanço ou não dessa política trapaceira de Trump.

Mas é claro também que ninguém poderá estar indiferente às consequências dessa política. Chamo por isso, particular atenção aos países africanos que deveriam encarar essa como sendo uma medida de estímulo à promoção do comercio interafricano, por meio de plataformas como a Zona de Livre Comércio e não só.

Quer do ponto de vista dessa política comercial como de outros aspectos relevantes, é cada vez mais necessário que os países estejam em condições de ter maior auto-suficiência ou competir no mercado internacional tirando maior proveito das suas capacidades internas.

Miguel Panzo é um economista angolano e num artigo publicado a semana passada no jornal Expansão assume um impacto indirecto entre 0,25% e 0,30% do PIB, fruto de uma redução de 200 milhões de dólares nas nossas exportações e uma perda na arrecadação de receitas entre 100 e 120 milhões de dólares, fruto das quedas que se assistem no preço do crude.

É claro que o nível de exposição de Angola aos EUA é hoje substancialmente menor do que era há uns anos passados. Longe do que se passa com outros países que, paradoxalmente, tendo tirado maior proveito das oportunidades do AGOA estão agora a correr sérios riscos, assinalando-se aqui o caso do Lesotho que é um dos maiores abastecedores de tecidos para inúmeras fabricas ainda nos EUA.

Essas acções de Donald Trump reflectem uma escalada nas tensões comerciais globais, com possíveis implicações significativas para a economia mundial nos próximos meses.

No simples afã proteccionista procurando com isso proteger a sua indústria, ou seja, com o objectivo claro de tornar os produtos importados mais caros e estimular os consumidores e empresas americanas a comprarem produtos fabricados made in USA, o que a administração americana está a conseguir é alimentar um conflito comercial com a China e, globalmente, criar mais tensões comerciais e instabilidade nos mercados financeiros.

*Jornalista

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