Paula Simons: “Há jornalistas que se comportam como comentaristas”
Paula Simons: "Há jornalistas que se comportam como comentaristas"
paula simons

Hoje, trazemos para as nossas páginas uma mulher que já firmou o seu nome no jornalismo angolano. Falamos sobre Paula Simons, uma radialista com uma carreira que se estende há cerca de quatro décadas… Curiosamente, ela é filha de uma das grandes vozes da rádio em Angola, Francisco Simons, algo que ela diz ser “penalizador”.

Nesta entrevista, o leitor vai compreender a justificativa de Paula Simons sobre isto, assim como terá a oportunidade de conhecer um pouco da sua trajectória, as inspirações por trás do seu trabalho e as suas perspectivas sobre o estado actual da rádio, do jornalismo radiofónico e, de uma maneira geral, da comunicação social em Angola.

Como surgiu o seu interesse pela rádio?
Tenho muita dificuldade em dissociar o fenómeno da rádio da minha própria vida, porque… como se diz hoje, por inerência de funções. Ou seja, o meu pai nasceu na Índia, quando morreu só tinha a nacionalidade angolana, mas nasceu na Índia, de onde saiu já aos 18 anos, portanto, de Goa, e o primeiro emprego dele já foi na rádio. Começou a trabalhar muito cedo, muito jovem.
As famílias da Índia que vieram para Angola, não vieram muitas, a maior parte foram para Moçambique, e aí terá ficado o link a Angola. Os meus pais vieram para Angola, os meus tios, e o meu pai casou-se aqui. Ele fazia rádio na Rádio Católica, fez na Rádio Clube de Angola, na Lunda fez na Rádio Diamang também, porque casou-se na Lunda, a minha mãe é da Lunda-Norte, e eles casaram-se lá.
Os profissionais de comunicação, no geral, convivem muito entre si, quase que só convivem entre si. E eu acho que, naturalmente, a compreensão daquilo que era a rádio fez parte da minha vida desde sempre. Não sei sequer se foi uma decisão eu trabalhar para a rádio.
Quando comecei a pensar no que queria fazer em adulto, quando fosse grande, eu queria ser arqueóloga ou veterinária. Eram os sonhos da minha vida (risos).
E ainda pensei em ir fazer Oceanografia no Namibe. Não foi possível. Mas estive ainda um tempo no Huambo, no Instituto Médio Agrário, para ver se seguiria Veterinária.
Era uma altura conturbada, em que os sinais de violência, mesmo urbana, começaram a acontecer. Eu estava internada num lar no Huambo, quando começaram [a rebentar] as primeiras bombas no mercado e os meus pais não quiseram que eu continuasse lá sozinha. Sozinha… Tinha os amigos, os colegas do lar, mas não estava com os meus pais.
Voltei para Luanda e fiz o curso médio de Planificação e Gestão. Ou seja, a minha carreira académica começa com Agronomia e passa pela Economia e Gestão.
Do ponto de vista profissional, comecei a trabalhar muito cedo. Passei por uma biblioteca, porque eu achava que era um sítio onde poderia aproveitar os tempos vagos para ler, para estudar e, portanto, acho que foi um privilégio muito grande. Fiz isso até os meus 16 anos para aí, desde 1983.
Quando acabei o curso médio de Planificação – nós, na altura, escolhíamos os diferentes sítios para onde poderíamos ir – como conhecia muita gente na rádio, pedi para ir para a rádio. Então, eu entro para a rádio em 1983, para a área de Planificação e Gestão. Era o director da área Rui Amaro, se não me engano…

Como foi o início da sua carreira e que desafios enfrentou desde então?
A maior memória que tenho é da noção de disciplina profissional que nós tínhamos. Mesmo nos serviços administrativos – na altura havia livro de ponto e horário de entrada – quem chegasse 15 minutos atrasado já tinha meia falta, portanto, já tinha que justificar. Essa noção do rigor e da disciplina foi uma coisa que acompanhou toda a minha… Acho que é de uma época também, é de uma geração.
Depois, muito rapidamente, a rádio fez, ainda nesse ano, testes de locução e eu decidi que ia fazer testes de locução. Me apaixonei pela profissão, pela comunicação, ali! Quando experimentei, quando vi o que era aquilo que acontecia à minha volta, com os meus pais e com os colegas dos meus pais… E havia uma frase que eu ouvia dizer muito, que era “A rádio foi inventada para conversar”. E essa sensação de poder pensar quem era o outro com quem eu estaria a conversar, o que é que eu podia fazer para ajudar o outro com a minha conversa. Pode deixar mais bem disposto, pode deixar mais informado, pode deixar com instrumentos para a vida do dia-a-dia, ter a noção de que podia haver um outro que acordou mal disposto e tinha motivos para isso.
Eu costumo dizer que a comunicação, no geral, é um sacerdócio, porque é uma coisa que nós fazemos para o outro. Não é para nós, é para o outro que nós comunicamos. A rádio tem esse lado mágico do outro não nos ver e, portanto, nós temos que nos inventar para podermos saber que estamos a falar com muitos outros. Ou seja, o conceito, o ouvinte, não existe. O que existe são pessoas com quem nós vamos convivendo ao longo do dia. A senhora que encontramos à porta de casa, os miúdos que lavam o carro, a senhora a quem compramos o abacate, a senhora do supermercado, o senhor que está irritado que estava na bomba de gasolina. Portanto, quem tem que comunicar, quem tem que conversar com os outros, no fundo, tem que estar sempre muito atento a todos esses outros que fazem parte da nossa vida, porque depois, quando entramos para o estúdio, ou em televisão, será nos ecrãs, ou quando escrevemos, nós temos que pensar que estamos a direccionar-nos para muitos públicos. E pensarmos qual é o público-alvo do órgão para o qual trabalhamos e para quem é que nos dirigimos.
Eu acho isso fascinante, essa noção de compreender o outro, conhecer o outro, poder saber quem é, o que é que ele pode precisar e como é que eu posso ajudá-lo a estar mais informado, mais preparado, mais bem-disposto também. Acho que isso é a parte mais curiosa.

Ser filha de Francisco Simons influenciou a sua entrada para o jornalismo?
Essa coisa dos filhos de… é muito penalizadora, na minha opinião. E pelo menos na minha vida, ser filho de, nora de, mulher de, porque nós temos que dar, permanentemente, o dobro ou o triplo de nós para provar que merecemos estar ali.
Eu nunca mais me hei-de esquecer, quando pela primeira vez fui para o ar e ia escolher o nome profissional. Uma colega dos meus pais perguntou-me “Tu vais usar mesmo Paula Simons? Não queres usar Paula Marina?” E eu disse: “Sempre assinei Simons, sempre assinei assim”. Nem sequer problematizei essa questão.
Com o passar do tempo, apercebi-me da responsabilidade que isso significa, ou seja, “Ela é filha do Simons”, “Ela não pode chegar um minuto atrasada”, “Ela não pode dar o mau exemplo”. Hoje em dia, eu sei que as coisas são vistas ao contrário. Os filhos de… são beneficiados. Mas pelo menos na minha época, e nos casos dos filhos de quem eu conheço, nomeadamente os meus, coitados, permanentemente estamos a ser postos à prova, permanentemente, estamos a ser contabilizados, e eu acho que, se por um lado, tendo em conta o nosso contexto, é normal que as pessoas desconfiem, que as pessoas suspeitem, porque se construiu toda essa lógica do nepotismo e dos filhos de… também acho que é muito importante pensarmos que os filhos de… crescem, fazem carreiras, estudam, trabalham, trabalham muito, trabalham muitas horas, e que pode ser injusto tirar-lhes o mérito que eles realmente têm.

E a Paula, particularmente, sente esse reconhecimento?
Na minha vida, eu sinto muito o reconhecimento. Por exemplo, sinto-me realmente acarinhada quando as pessoas ainda se lembram do meu pai. É bonito isso, acho que é bonito sentir que o teu pai foi gostado pelas pessoas e que as pessoas gostavam dele profissionalmente, mas para mim e para a minha carreira profissional, foi permanentemente um ser posto à prova, um ter que estar… ter que ser mais perfeita, para não dizerem que por ser filha do Chico, não fazia isto ou fazia aquilo.

Recebeu algumas dicas directas do seu pai?
Isso é muito engraçado, porque eu era muito gaga. Aliás, eu sou gaga. E quando comecei a dizer que ia fazer rádio, que ia fazer locução – o meu pai era muito brincalhão – ele dizia “E tu va-is ler no-ti-ciá-rios ou va-is fa-zer re-la-tos?” (risos). E aquilo era assim um gozo lá em casa…
A geração do meu pai não era castigadora, era muito pedagógica. Só de os ver no corredor, lá da Rádio, o Rui Carvalho, o Chico Simons, o Manuel Berenguel… Lembro-me de uma vez o director Rui Carvalho dizer “Com que então a menina não sabe o que é o linkage, foi para o microfone dizer lenkage”. E nós ficávamos o dia inteiro envergonhados. Ou, quando estávamos na cabine, e diziam “Ah, o Mesquita Lemos está ao telefone, está a ligar ali na regência”… nós já íamos “meu Deus, o que é que eu fiz desta vez?”
Então, eu tive essa vivência, o meu pai tinha realmente a paixão da rádio. Acabei depois por fazer um percurso que me abriu mais para os processos de comunicação no geral, o meu pai tinha essa relação com a rádio, especificamente, mas eu acho que mais do que dicas directas do meu pai, eu tinha a vivência, e tinha esse sentimento de que tínhamos que ser, tínhamos que estar sempre à altura do nível de exigência que punham em cima de nós. E eram exigentes.
Luís Afonso era extremamente exigente, o Chico era extremamente exigente, o director Rui Carvalho era extremamente exigente, o Mesquita Lemos só de ouvir o nome dele nós já íamos, de sentido, atender. Portanto, não eram tantas dicas directas do meu pai, era a vivência, mas daquela geração foram muitas dicas directas, dadas a toda hora, ralhetes mesmo, bafos… Houve uma vez que eu disse “desconseguir” ao microfone (risos) naquele tempo dizer desconseguir ao microfone… ou dizer maka, hoje já se usa, já é um neologismo, mas naquele tempo ainda era…
Então, acho que eu tive o privilégio de conviver e de aprender com uma geração muito exigente, e que era implacável, não no sentido castigador, mas no sentido da chamada de atenção, e quando nos chamavam a atenção, nós baixávamos a cabecinha, envergonhados, íamos investigar tudo o que era possível em relação ao erro que tínhamos cometido.
Eu ainda hoje ligo muitas vezes para a directora Luísa Fançony quando tenho dúvidas sobre como é que se diz uma palavra. Nós tínhamos uma escola de rádio em que os nomes se deviam dizer na versão original, não se aportuguesavam os nomes estrangeiros, e nós chegávamos a ligar para as embaixadas para saber como é que se diziam bem os nomes.

Como era a relação com o seu pai Francisco Simons?
… Em relação ao Chico, ao meu pai… Eu acho que não terá… do meu pai e de casa, porque a minha mãe também fez rádio, foi professora primária e depois também fez rádio, eu tive a vivência, os amigos, o privilégio da convivência com uma determinada geração. Das dicas directas, do ensinamento directo, o rigor que essa geração punha no nosso acompanhamento.
Eu fui para o microfone, mas três meses antes estive a fazer gravações em estúdio, que eram ouvidas, e depois eu era corrigida.

O que faria diferente se pudesse retornar ao jornalismo?
Hoje, é tudo tão diferente! Acho que hoje vamos para o microfone cedo demais, que não aceitamos tão bem as chamadas de atenção que nos fazem, que interpretamos mal, que temos até um certo desdém pelo conhecimento. Quer dizer, não é só interpretarmos mal, ficamos mesmo zangados.
O que eu acho, sobretudo, é que quem tem como profissão servir o outro tem que ter uma humildade muito grande, tem que ter aquela famosa frase: “Nunca sabemos tudo, estamos sempre a aprender”.
Agora, então, que temos inteligência artificial, eu por tudo e por nada vou perguntar.
Perguntar, perguntar, não ter vergonha de perguntar, não ter medo de perguntar, aprender muito. Nós só podemos passar para os outros, se tivermos a certeza de que sabemos. Um erro que cometemos em casa é só para nós, um erro que cometemos ao microfone, ou no jornal, ou na televisão, ou agora nos novos medias (digitais), é um erro que engana milhões de pessoas.
Então, o conselho seria sobretudo este: aprender, aprender, aprender. Esta é uma coisa que eu tentei fazer. E acho que fiquei viciada em querer saber coisas, mas passo a vida a pesquisar (risos).

Para si, o que torna a rádio um dos meios mais influentes, apesar de toda a tecnologia actual?
Uma coisa que nós temos que ter, comunicadores no geral, é a noção do país onde estamos, da nossa realidade, termos os pés bem assentes no chão. Quando nós dizemos “com esta tecnologia toda”, e é verdade que os índices de penetração são imensos, temos que nos perguntar: “Quem é que tem acesso? Quem é que realmente tem acesso à nova tecnologia? Quem é que, tendo a nova tecnologia, ouve a rádio tradicional na nova tecnologia?”
O último estudo que eu vi foi já de 2023/2024, que dizia que 49 por cento dos luandenses ouviam o rádio no telemóvel. Eu pensei que fosse online. Não… Eles usam o telemóvel como rádio, como antigamente os nossos avós usavam. E temos que ter em conta os níveis de penetração da internet pelo país inteiro. Angola não é Luanda. Embora Luanda tenha 9 milhões de habitantes, a iliteracia digital ainda é muito grande. E consumir dados é mais caro do que ouvir rádio, do que ter um rádio.
Temos é que ter a consciência de que há múltiplos públicos. A rádio continuará a ter sempre o seu público-alvo, mesmo que seja através dos computadores. Por exemplo, sendo uma pessoa que tem acesso à informação via internet, eu hoje posso ouvir as rádios de todo o mundo e ter uma informação muito mais plural no sentido da diversidade. No que diz respeito ao nosso país, especificamente, tem a ver com as mensagens que têm que chegar a pessoas que não têm mais nenhum canal… E tenho que perceber que, se calhar, não têm os mesmos interesses, nem as mesmas necessidades que eu. É preciso pensar muito bem em que rádio estou a falar, qual é o público daquela rádio, e que mensagens é que são fundamentais, lá está, para aquele outro que me estará a ouvir. A rádio continua a ter esse nível de penetração.
Na América do Sul, muito… em África, ainda muito… justamente, porque nós temos processos de info-exclusão ainda grandes. Estamos nos países periféricos. E, nos países periféricos, as grandes cidades têm mais acesso. A tendência de crescimento é muito grande. Mas ainda há muita gente que não tem. E, portanto, a rádio continua a ser o que chega… o que deve chegar a essas pessoas.
Outra coisa importante é a questão da soberania. Ou seja, na fronteira do Cunene, ou na fronteira do Moxico, se não chegar internet, se não chegar televisão, se não chegar rádio, se não chegar nenhum jornal nosso, que ligação é que a população daquela fronteira terá aquilo que é o seu país? Portanto, os meios de comunicação social, no geral, são um instrumento de soberania. E, normalmente, pelo menos no meu tempo, ligava-se muito isso à rádio, porque a rádio era quem chegava mais longe. Havendo sinal, a rádio era quem chegava mais longe, e tinha um maior número de população.
Os esforços são muito grandes. Do ponto de vista de infra-estrutura, são mesmo os Estados que, normalmente, investem nessas infra-estruturas para fazer chegar à rádio o sinal digital. Mas a rádio, em países como o nosso, alguns países da América do Sul… a Ásia eu conheço menos… mas também tem os índices de pobreza e, provavelmente, índices de desigualdade de acesso muito grandes. A rádio ainda é um dos meios mais baratos de fazer chegar a informação à população toda.

Quem são os pioneiros da rádio angolana de que ainda se lembra?
Além do Mesquita Lemos, pioneiros da rádio… Álvaro da Fonseca, Fernando Alves, David Borges, Leston Bandeira, Horácio Reis, que está no Lubango, Nuno Fernandes, que, entretanto, depois fez um percurso pela comunicação institucional, Aldemiro da Conceição, do tempo da minha mãe ainda, João Miranda, José Patrício, íamos muito longe…
Depois tem uma geração que me começa a ser mais próxima. Reginaldo Silva, Andeiro João, Manuel Luciano, que ainda está na rádio, o Pedro Neto (actual PCA da RNA) que é capaz de ser mais ou menos contemporâneo, Ismael Mateus, Marina Andreia, Sónia Afonso, uma geração que já é, mais ou menos, a minha.
E depois vem a Carla Castro, o João Carlos Van-Dúnem, Jana Laca, a Horvanda Andrade, a Cristina Miranda, o Carlos Gonçalves… É sempre difícil quando temos que recordar nomes. E é uma grande injustiça… porque dá a impressão de que o tempo passou tão rápido, que as coisas foram tão rápidas. Mas, realmente, das primeiras memórias, Luísa Fançony, Conchinha de Mascarenhas, eu ainda me lembro da Conchinha de Mascarenhas na rádio…
… O Rodrigues Vaz, que eu sei que está em Portugal, o Carlos Pereira, o meu pai dizia sempre que aprendeu a relatar com o Carlos Pereira, que era do Huambo. Há quem diga que foi ele quem criou a famosa frase “Huambo, Cidade de Vida”. O Carlos Pereira era impressionante, porque ele era uma pessoa pequenininha, magrinha, que tinha um vozeirão de todo tamanho.
Portanto, são 50 anos de uma rádio que se construiu angolana depois da Independência, mas que já havia! Eu tenho memórias, talvez justamente por isso, por ter nascido um pouco nesse meio, tenho memórias muito antigas. E tenho memórias também de todos aqueles que eu acho que acabam por ser um pouco injustiçados, que é o que nós chamamos os técnicos. Ver um Zé Gabriel a trabalhar, a juntar os sons, a escolher os efeitos sonoros… Há também todo este outro lado da rádio, que é a magia do som, porque na rádio nós só temos o som.

Para si, o que há de diferente no jornalismo radiofónico actual?
O jornalismo radiofónico era muito mais formal, era muito mais, acho eu, distanciado. Esta mudança eu ainda apanhei. Até por força de questões técnicas, a locução era mais pausada, para termos a certeza de que o som chegava com qualidade aos ouvintes. Se repararmos em locutores mais antigos, a Luísa Fançony está aí, é um excelente exemplo, repararão que a locução da directora Luísa é uma locução bem pausada, que vem de uma determinada escola. Nós pudemos apanhar, acho que felizmente, uma locução mais conversada e até mais informal…
Aos poucos, o “Maka” foi entrando, o “Desconseguir” foi entrando, portanto, nesse sentido, houve mudanças grandes. Uma mudança que eu noto agora… era proibido falarmos de nós próprios, como eu, e ao microfone eu nunca era “eu”, era o locutor Paula Simons, ao microfone, o “eu” não se destacava e nunca se tratava o entrevistado por “tu”.
Esta é uma diferença que eu noto profundamente, porque é mundial, hoje toda a gente trata por tu. Talvez tenha mudado também a relação entre os jornalistas e as fontes, os jornalistas e os comentaristas, o próprio jornalismo se alterou. Mas é curioso como essas pequenas coisas, ainda hoje… quando eu ouço alguém dizer “eu” em rádio, para mim faz ruído. Quando eu ouço um jornalista tratar um entrevistado por “tu”, para mim ainda me faz algum ruído.
O outro que estava connosco devia ser familiar, friendly, mas não era da nossa intimidade, era um outro. E isto, acho que se alterou, que a proximidade e a criação de intimidade se construiu. Não sei qual será o argumento técnico para isso, mas seguramente haverá. Hoje em dia, há jornalistas que se comportam como comentaristas, há comentaristas que já são jornalistas. Houve uma evolução muito grande. E como eu vejo que não é só em Angola, não é só uma coisa que acontece entre nós, entendo que seja uma transformação, não necessariamente um erro. As mudanças não são necessariamente erros. Embora às vezes ainda me faça um bocado de confusão…
Eu entrevistei o meu pai e não o tratei por “tu” nenhuma vez ao longo de toda a entrevista. Aconteceu-me algumas vezes com pessoas próximas fazer este exercício.

Que papel a rádio desempenha na construção da identidade cultural de Angola?
Eu acho que é fundamental. Há pouco disse que rádio é soberania, quer dizer, comunicação é soberania. É importante chegar às pessoas e chegar com uma língua… E é importante chegar e consolidar uma identidade dentro da diversidade que nós somos. Ou seja, nós podemos ter raízes culturais diferentes e construir um Estado-Nação. Olhemos para o Brasil, que não conheço que tenha outras línguas que não o português, mas tem culturas profundamente diferentes. Também eles são um continente.
Nós podemos manter as nossas características culturais, podemos manter as nossas línguas, mas temos necessariamente que nos consolidar como Estado-Nação. Buscar aquilo que nos une dentro desta diversidade que somos. E isso é fundamental para aquele sentimento que faz de nós angolanos, que não nos deixa dúvida nenhuma em relação ao que nós somos.
Eu acho que nas novas gerações urbanas essa dúvida já não existe. O reconhecimento da bandeira, o hino… Acho que agora uns já não sabem cantar (risos).
Acho que os angolanos já se identificam, naturalmente, como angolanos, mas há que reforçar essa identidade no sentido positivo das coisas. Eu acho que o angolano fala muito mal de si próprio. Nós falamos muito mal de nós próprios. Parece que nós não temos coisas boas. E nós temos coisas muito boas.
Eu acho que a rádio pode contribuir muito para nos mostrar que nós temos esse valor, que nós temos essa força, que nós temos valores comuns e que nós podemos fazer uma corrente, uma corrente unida que constrói, que não está sempre a destruir…
A vida tem coisas muito más e tem coisas muito boas. É importante que nós consigamos ver os dois lados e que consigamos, com o lado bom, construir coisas melhores no lado mau.

O que nos impede de enxergar esse lado bom?
Eu acho que, também, é um bocado do ser humano… E a nossa vida não tem sido fácil também… Mas vejo outros povos que passam por momentos difíceis, incluindo de violência, e que nunca põem em causa a sua noção de pátria, a sua defesa de pátria, pelo mundo inteiro.
Às vezes, nós, angolanos, temos um bocado dessa… (risos) As novas gerações já não se põem… No princípio, talvez houvesse… Se sou mesmo angolano, se não sou… Não queria nascer neste país… Devia ter nascido em outro país… É uma diferença muito grande. E depois é assim… É o sermos educados para sermos angolanos. Eu não tenho dúvida nenhuma que sou angolana.
Gosto muito de alguns brasileiros e de alguns sítios no Brasil. Gosto muito de São Tomé e Príncipe. Gosto pela calma que aquilo me transmite. Gosto muito de Cabo Verde. Acho que tem também uma cultura diversificada. É uma maneira de existir interessante.
Acho que os moçambicanos são mais diferentes de nós, talvez pela proximidade mais àquela cultura britânica com a África do Sul. Acho que eles são menos… Talvez menos efusivos…
Mas nós somos educados, eu, pelo menos, fui educada para ser angolana. Para ser uma boa angolana. Para defender o meu país. Para defender os valores do meu país. Para defender os meus compatriotas e a minha pátria. Isso não me impediria nunca de ter a cabeça aberta ao mundo e de gostar de outras coisas, e de querer conhecer outras coisas. Mas aquilo que eu sou, intrinsecamente, é angolana.
O que nos falta é essa educação ser dada desde criança, desde pequeno. Não sei se hoje ainda faz sentido educar-se para isso. Nós já temos 50 anos. Historicamente, não é nada. Do ponto de vista dos historiadores 50 anos não é muito tempo. Mas acho que nisso já não há dúvidas. Quem nasce angolano sabe que é angolano, já não se questiona se é angolano, ou se é brasileiro, ou se é japonês, ou se é português. Os angolanos já sabem que são angolanos.
Mas os angolanos têm muita tendência a falar mal do seu próprio país. Parece que não tem aqui nada de bom. E se alguém fala bem, ainda dizem que está a elogiar, a bajular. Não, nós temos coisas muito boas e muito bonitas.

Para si, quais são as qualidades que um profissional de rádio deve ter?
Nós estamos a falar sobretudo da rádio. Eu às vezes esqueço, porque o meu percurso levou, realmente, a que eu visse os processos comunicacionais e a comunicação como um todo. Hoje, sinto-me muito mais desafiada em definir uma estratégia para um órgão para atingir o público-alvo, ou seja, em trabalhar estratégia de comunicação, do que necessariamente em fazer rádio.
Um profissional de rádio tem que ter muito conhecimento, muita informação, tem que ter domínio da língua. A nossa língua está a mudar, já está a mudar. Nós um dia, vamos ter um angolano, assim como o Brasil tem um brasileiro. Mas a nossa língua oficial ainda é o português. Então, nós temos que falar bem o português. Temos que aprender a dominar a nossa língua. As palavras têm um significado, as palavras têm um sabor. Ser preguiçoso não é a mesma coisa que ser dolente. Estar irritado não é a mesma coisa que ser assertivo. Ser assertivo não é ter a mania que é bom.
Acho que um profissional de rádio tem que gostar das palavras. Tem que saber exactamente o que é que elas querem dizer. Um profissional de rádio tem que ter a noção que está a falar para o outro. Se eu ligo o microfone às quatro da manhã, eu tenho que pensar… Há uma senhora que a esta hora pode estar a sair de casa e esqueceu-se de desligar o gás. “Minha senhora, cuidado, vai sair, já sabemos, vai apanhar o trânsito, não se esqueça de desligar o gás”… Ou tem que pensar que pode haver um camponês no leste onde até há uma hora de diferença horária, embora não haja oficialmente, mas, onde o sol nasce uma hora mais cedo, é uma hora mais cedo, que pode estar a ouvir e pode crer que eu me lembre que ali está frio. Eu não posso ligar o microfone numa rádio nacional e dizer, pois está a chover. Está a chover? Aonde é que está a chover? Ou seja, isso encanta a mim mesmo. Essa noção de que estamos a falar para muitas pessoas, para muitas pessoas diferentes e que em cada momento temos que ter essa consciência… Que mesmo quando queremos mandar uma indirecta para a pessoa sentir que estamos a falar para ela… “Ah, com quem estão?”, “O senhor está aí no Huambo? E como está o Huambo, onde era a antiga estufa”, “Pensa que todos nós também podemos andar com essa calma? Não temos trânsito?”. Aquela pessoa sentiu que eu pensei nela. Sentiu…
E eu não faço ideia de quem seja. Lá está, são os ouvintes. E eu não deixei de comunicar com todos os outros que estão no Huambo e que não estão na estufa e que estarão a fazer outras coisas. Então, essa capacidade de nos colocarmos para os outros, não é nós para os outros, é nós pelos outros. Falando para os outros, eu acho que o profissional da rádio tem que ter isso.
E tem que ter, e isto é sagrado, a consciência de que um erro que se cometa em rádio, uma informação mal passada em rádio, é deseducar toda uma população que esteja a ouvir rádio.
Já não estamos no meu tempo em que só se ouvia a Rádio Nacional de Angola e toda a gente ouvia a Rádio Nacional de Angola às 13 horas. Mas, pelo menos as rádios de grande audiência têm que ter a consciência que um erro que cometam, uma informação mal passada, o nome de um país mal dado, uma informação errada, o replicar à toa o que ouvimos nas redes sociais sem irmos confirmar jornalisticamente, estamos a induzir em erro pessoas perante quem nós temos responsabilidades. É uma responsabilidade; eu não estou ali a trabalhar para mim, para a minha vaidade, para o meu nome, para os meus amigos, não; eu estou ali a passar informações para as pessoas que podem mudar o seu comportamento e não ter cólera, por exemplo, ou não ter paludismo, porque eu fui capaz de dar a mensagem certa no momento certo.
Então, esta capacidade dos comunicadores se colocarem ao serviço de… por isso é que é um serviço público, não é só serviço público porque é do Estado, é um serviço público, porque serve o cidadão no geral. Agora fiquei muito séria. (Risos).

O que pensa da ascensão de comunicadores sem formação profissional?
Eu acho que nós não podemos negar os tempos, eu não sou nada, os dinossauros é que eram bons e vamos ser como os dinossauros. Os influencers existem e as pessoas gostam. Agora, porque é que se chama media? Porque é que nos chamam, a nós, os media? Porque nós temos que fazer a mediação entre aquilo que acontece e um público mais alargado. Ora, eu posso ter um influencer muito bom e que me passe mensagens muito úteis, como posso ter um idiota como influencer… Há um pensador, Humberto Eco, que falava das redes sociais e dizia que o problema das redes sociais é que antigamente havia um idiota num café que depois de beber um copo de vinho começava a dizer disparates e nós o mandávamos calar a boca; agora o idiota vai para as redes sociais e ninguém o manda calar, e, pelo contrário, as pessoas gostam dele e seguem-no. Quem é que tem que separar o trigo do joio? É o profissional. Por isso é que nós somos profissionais. Os influencers, as pessoas que escrevem nas redes sociais, não são jornalistas. Não é profissão deles, não têm obrigações para com o público. Os profissionais de comunicação têm obrigações para com o público.
E acho que também é moda, toda a gente gosta de uma boa fofoca, anima a conversa nos programas juvenis, mas calma… quer dizer, tem que haver uma certa elegância no nível de… porque este andou com aquele que trocou com aquela que fez… quer dizer, o que o público tem a ver com isso? E o que a população tem a ver com quem é que namorou e com quem é que casou com quem? Faz-se um pequenino espaço de notícias, porque as pessoas gostam desses espaços de fofoca, não quero ser a radical, mas a nossa vida não é isso, porque depois criamos uma bolha de pessoas despreocupadas com as coisas realmente importantes que acontecem. E por isso é que às vezes as pessoas não vêem o lado bom.
Por exemplo, o crescimento que o nosso país teve em termos artísticos nos últimos anos. A quantidade de grupos musicais que nós temos, com extrema qualidade. Com extrema qualidade. Com tanta diversidade. Nós produzimos cinema, que é das artes mais caras do mundo. Nós temos ganhado festivais internacionais de cinema. Nós temos feito, realmente, coisas absolutamente fantásticas.
Outra coisa que temos que ter em conta é que há muitas pessoas que não recebem mais nada, não foram à escola, ainda temos indícios de analfabetismo grandes, e que, portanto, só recebem aquilo que lhes é dado pelos meios de comunicação. Ou só recebem os influencers. Se ninguém faz um contrapeso, essas pessoas só vão ter essa bolha de desinformação e de desconhecimento.
Eu não sei… eu sei que os profissionais de hoje em dia têm também essa consciência, mas essa lucidez de perceber o quão grave é eu passar uma informação errada, ou eu só passar um tipo de informação que não tem utilidade, absolutamente nenhuma, o que é que isso representa de dano para a sociedade e que poderia estar a representar um ganho?…
Quando eu própria depois vou para casa falar mal dessa sociedade, o que ainda é o mais espetacular: é que vamos para a rádio, para a televisão, falamos, falamos, fazemos um monte de coisas, dizemos, dizemos, chegamos a casa falamos mal, falamos mal, falamos mal de coisas que nós próprios não fizemos. Nós próprios não ajudamos a construir, não é? Não posso generalizar, mas acontece muito…

Quais são, para si, os profissionais do radialismo que actualmente se destacam?
Eu agora ouço muito pouco rádio. Ouço mesmo muito pouco rádio. Lá está… Agora tenho a internet logo de manhã. Eu gosto muito de ouvir a Carla [Castro]. Acho que a Carla é uma excelente comunicadora.
Gosto muito de ouvir a Mara [D’Dalva]. Acho que a Mara nasceu para comunicar. Outra pessoa que nasceu para comunicar é a Patrícia [Pacheco], que está na Zap. A Patrícia é uma comunicadora nata. Gosto muito de ouvir o Estanislau Garcia, a Vânia Varela, já num campo de informação… A Felisbela Wejie, a Sani Fuxi… A voz do [Mateus] Fula é incontornável… Até parece que ele construiu aquela voz. Não! É a voz dele. Ele fala assim. Ele é… Aliás, essa é outra coisa importante em relação à rádio. É que na rádio, e noutros meios de comunicação, há técnicas para se comunicar. Nós, hoje, frequentemente ouvimos dizer “dos”, “ses”. Não é necessariamente porque a pessoa não sabe dizer. É porque a pessoa não foi treinada para fazer locução. A locução tem regras. Tem treinos. Houve uma época, que eu defendo, em que se decidiu que os comunicadores são comunicadores. Não têm necessariamente, que ter vozes perfeitas. Mas não podem deixar de ter a técnica de locução. A técnica de locução é fundamental. Tem regras e aprende-se. Senão, ninguém percebe nada do que nós dizemos. E acho que isso também é importante.
Eu não ouço também muito a rádio neste momento. Francamente, é quando vou de manhã no carro. Eu sou, sobretudo, uma pessoa de notícias. Então, de manhã, quando eu acordo, às cinco, até às cinco e meia, já tenho que ter as notícias todas buriladas, vistas, qual é a agenda do dia no país… a internacional. E, portanto, cada vez ouço menos rádio. Pois ouço aquele bocadinho, como era antigamente, drive time is prime time. O prime time da rádio é o tempo em que estamos no carro. Mas ouço pouco rádio.

Como vê a rádio nos próximos 10 anos?
Não faço a mínima ideia. Nós estamos sentados numa revolução tecnológica. O mundo nunca mais foi o mesmo depois de se inventar a lâmpada. Ou depois de se inventar o telégrafo. Depois de se inventar o carro. Depois da revolução industrial. Depois de se inventar o telefone. Depois de se inventar a rádio. Depois de se inventar a televisão. E agora, depois do digital.
Só que no digital, nós estamos em cima do assunto. As coisas estão a acontecer todos os dias, em todos os momentos e a todas as horas. É difícil fazer uma previsão a dez anos. Eu acho que uma das coisas que mais se altera na revolução digital é a noção de tempo. Nós queremos tudo mais rápido, mais urgente, pelo menos nós que temos acesso.
Agora, olhando para o nosso contexto específico, para o contexto africano, para o contexto angolano, para o nível de investimento que é necessário para conseguir massificar, que é uma expressão que nós usamos muito, o acesso ao digital, é importante que esse esforço seja feito, mas é importante que não nos esqueçamos nunca que pode haver quem ainda não tenha esse acesso.
E quem ainda não tem esse acesso tem que continuar a ter alguma coisa, porque senão não tem a língua perto, não tem a tal identidade perto, não tem nada, não está a ouvir nada. E eu acho que em países como o nosso, assim como na América do Sul, a rádio ainda tem pelo menos dez anos de existência. Pode ser que mais pulverizada. O que é que eu quero dizer com pulverizada?
Nós tínhamos a Rádio Nacional de Angola e as rádios provinciais, com o sinal que chegava a todos os cidadãos. Talvez possa haver as rádios comunitárias, ou seja, talvez a rádio possa ir ganhando outros públicos mais pequenos, mas acho que em contextos como o nosso, a rádio ainda tem mais dez anos de existência, seguramente, e de importância, e cada vez mais importância se houver essa pulverização, porque essa pulverização também não pode significar criar micro-sistemas, ou seja, que haja uma população que está a ouvir coisas que não têm nada a ver com o todo. Tem que haver o particular, sim, mas tem que haver também noção de que fazem parte de um todo.
Portanto, daqui a dez anos, eu acho que nós ainda vamos ter rádio. Em Angola, seria importante que tivéssemos. O que talvez aconteça é que ela seja mais direccionada para públicos-alvos específicos. Como hoje, aliás, já vamos tendo. Em Luanda, a Rádio Cazenga, a Rádio Viana. O que pode acontecer é que esses nichos de mercado, como se chamam, aconteçam mais.
É uma responsabilidade do Estado fazer chegar as novas tecnologias e dar acesso às novas tecnologias, mas é uma responsabilidade também fazer com que, enquanto não cheguem, [as populações[ não deixem de ter alguma coisa que lhes leve a mensagem daquilo que somos enquanto país. As boas notícias e as más notícias.

O que representa a rádio para si?
Eu vou dizer uma coisa que vos vai chocar um bocado. Eu não me sinto, necessariamente, uma radialista (risos). Ou seja, eu gosto muito da rádio. Eu acho que a rádio é dos mais bonitos desafios para um profissional. Justamente por isso. Só temos a voz, a mensagem. Acho que o mais belo dos desafios comunicacionais é a rádio. Para mim, continua a ser a rádio. Tem esse fascínio de não ver o outro e ter que o compreender. Mas eu sinto-me uma pessoa da comunicação, no geral. Pensar a comunicação como estratégia geral.

O que representa, para si, o 5 de Outubro?
Nós temos uma geração que já não se lembra do que era não ser independente. E, talvez, por isso nem sequer valorizem tanto isso. O 5 de Outubro vai ser sempre, para mim, o dia em que a Rádio também ficou, de vez, nossa. É uma maneira poética de dizer. Mas, por exemplo, eu, quando me falam do Dia da Rádio, para mim é o 5 de Outubro. Não me esqueço que houve um primeiro dia de emissão, mas o Dia da Rádio, para mim, é o 5 de Outubro. Eu já tinha 10 anos quando foi a Independência. Para mim, a Rádio [RNA] já é uma rádio pós-Independente. Ah, era Emissora Oficial. Sim, temos ainda pessoas que trabalharam na Emissora Oficial. Mas essa é a nossa primeira rádio. E o meu Dia da Rádio é sempre o 5 de Outubro.

in Jornal de Angola

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