Como fica a economia africana na guerra comercial entre os EUA e a China? — Osvaldo Mboco
Como fica a economia africana na guerra comercial entre os EUA e a China? — Osvaldo Mboco
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O regresso do Presidente Donald Trump à Casa Branca prenuncia uma intensificação da disputa económica entre as duas maiores potências mundiais. Tal cenário não surpreende: era expectável que Trump revisitasse a estratégia económica que iniciara durante o seu primeiro mandato — uma estratégia que, tudo indica, ficou inacabada devido à sua não reeleição em 2020.

As reivindicações da administração Trump centram-se na acusação de que a China recorre a práticas comerciais desleais, como o desequilíbrio nas trocas comerciais entre os dois países, visível no elevado défice comercial dos EUA face à China.

Acresce a isso a denúncia de violações da propriedade intelectual. Em 2019, por exemplo, os EUA proibiram a Huawei de adquirir componentes e tecnologia de empresas americanas sem autorização governamental — entre outros mecanismos utilizados para justificar a posição americana.

O Governo Chinês, por sua vez, considera que não haverá vencedores nesta guerra comercial e alerta para os impactos nefastos que a mesma poderá ter na economia mundial.

Um elemento novo, comparativamente ao primeiro mandato de Trump, é que os principais alvos já não se limitam à China e à União Europeia: agora, todos os países parecem estar na mira da fúria económica do efeito “trumpismo”, que promete ser avassalador. Ninguém será poupado: todos terão de pagar ou negociar tarifas. Este é, aparentemente, o pensamento dominante de Trump.

Voltando à questão central deste artigo — como fica a economia africana na guerra comercial entre os EUA e a China? — para melhor compreender os possíveis impactos, importa revisitar alguns dados estruturantes da economia africana.

Segundo o portal Statistics Times, estima-se que o Produto Interno Bruto (PIB) nominal de África, em 2025, será de aproximadamente 2,8 biliões de dólares, representando cerca de 2,46 por cento do PIB global, estimado em 113,8 biliões de dólares.

No domínio das exportações, em 2023, África registou exportações no valor de 600,7 mil milhões de dólares, enquanto as exportações mundiais atingiram os 23,267 biliões de dólares. Ou seja, a participação africana nas exportações globais correspondeu a apenas 2,58 por cento, de acordo com os dados da World’s Top Exports.

É importante ter em conta que as economias de muitos Estados africanos assentam num modelo monoprodutor e monoexportador de matérias-primas, muitas vezes não transformadas em África. Esta característica torna o continente particularmente vulnerável a choques externos provenientes do comércio internacional.

A imposição de tarifas por parte dos EUA, por exemplo, tem contribuído para a queda dos preços de matérias-primas como o petróleo, com efeitos directos nas receitas de diversos países africanos.

Há quem defenda que a China poderá intensificar a presença dos seus produtos em África, procurando compensar o espaço perdido no mercado americano. Ainda que tal hipótese tenha algum fundamento, parece pouco provável que África consiga substituir os Estados Unidos enquanto mercado de destino.

O elemento a ter em conta é o poder de compra. O consumo interno americano é incomparavelmente superior ao africano, não apenas pelo número absoluto de consumidores, mas sobretudo pelo rendimento disponível e a capacidade de absorção do mercado.

Além disso, esta guerra comercial poderá conduzir à redução da procura de matérias-primas africanas, como o petróleo, o cobre e minerais raros. A médio prazo, poderá ainda resultar numa diminuição dos financiamentos e projectos de infra-estruturas promovidos pela China no continente africano. Se tais cenários se confirmarem, a economia africana sofrerá impactos consideráveis e negativos.

Ainda que África não esteja directamente envolvida na guerra comercial entre Washington e Pequim, os efeitos colaterais já se fazem sentir — e poderão agravar-se. O continente, com uma frágil inserção na economia global, será inevitavelmente afectado pelos ventos desta disputa entre gigantes.

Por todas estas externalidades económicas, via de regra, têm impacto na economia africana, o que é normal, pelo facto da interdependência e da conectividade das economias no sistema económico mundial.

O que não é normal é observar que os africanos não têm uma estratégia continental para mitigar o impacto desta guerra comercial. Não existe um pronunciamento oficial das instituições financeiras africanas sobre como as economias dos Estados africanos devem lidar com este cenário tenebroso, a guerra das tarifas.

O continente africano, se de facto quiser mitigar choques externos, deve adoptar uma série de medidas, que não são novas, mas que parece que os líderes africanos preferem ignorar, como escreveram Daron Acemoglu e James Robinson na obra “Porque Falham as Nações”.

Medidas estas como: fortalecimento do comércio intra-africano; desenvolvimento de infra-estruturas e sistemas financeiros regionais; diversificação da economia e industrialização do continente; reformas das instituições financeiras continentais e apoios a pequenas e micro-empresas, bem como a melhoria do ambiente de negócios. Estes não são desafios novos; nasceram com a independência dos Estados.

Enquanto África não agir numa perspectiva de bloco e de concertação de pontos de interesses comuns, continuará a ser o parente pobre do sistema internacional, sempre com as mãos estendidas à espera da ajuda que vem dos outros continentes.

Isto nos leva a uma pergunta muito comum entre nós: “Para Onde Vai África?” ou “Para Quando África?”, conforme escreveu Joseph Ki-Zerbo.

Se o gigante asiático aumentar as trocas comerciais com os africanos, é talvez o momento dos africanos tentarem obter mais investimentos do que financiamentos, mais produção local e, de forma gradual, reduzir as exportações da China para os Estados africanos de produtos que as empresas chinesas podem produzir nos países africanos.

Para que África possa mitigar os impactos da guerra comercial entre os EUA e a China e, simultaneamente, aproveitar as oportunidades emergentes, é essencial criar um ambiente de negócios favorável, com estabilidade jurídica e económica.

Tal ambiente permitirá que empresas chinesas operem e invistam no continente, que promoverá o desenvolvimento local.

Além disso, África tem o potencial de se tornar um fornecedor estratégico de produtos agrícolas para a China, especialmente se consideramos as tarifas impostas aos produtos americanos.

Com investimentos adequados e políticas de incentivo, os produtores africanos podem substituir parte das importações chinesas provenientes dos EUA.

Embora a guerra comercial apresente desafios, África pode transformá-los em oportunidades, desde que adopta estratégias eficazes para atrair investimentos, fortalecer a produção local e diversificar as suas exportações.

*Professor de Relações Internacionais e mestre em Gestão e Governação Pública na especialidade de Políticas

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