
O repórter que sou andava no encalço de um falsário de euros e dólares. Para compor o lucro dava um jeito na prostituição e no tráfico de droga. Um magnata fora do sistema, mas tão rico como os que prosperam à custa de um qualquer conluio com o regime de democracia representativa e o sacrossanto capitalismo. O nababo era vizinho de uma velha senhora viúva, irmã do poeta Álvaro Novais.
Estava bem longe do Namibe, sua terra natal. Disse-lhe que não hei-de morrer sem primeiro publicar a poesia de seu irmão. Ela deu-me informações do milionário e ofereceu-me fotos do “Alvarito”, ainda jovem, com ar de galã do cinema.
Alguns anos depois pedi ao Humberto Jorge que me ajudasse a recuperar os programas culturais “Resistência”, do António Cardoso. Numa edição, levámos Álvaro Novais para um estúdio da Emissora Oficial (RNA) e ele declamou todos os seus poemas.
O poeta não escrevia em papel. Tinha as composições na memória. E cada vez que declamava, introduzia novidades. Esse programa foi mais uma tertúlia.
Gabriela Antunes declamou poemas de Agostinho Neto e António Jacinto. É irmã do Congo e do Xico Bamba, figuras emblemáticas do Huambo. (O Congo partia tijolos burros à cabeçada!)
A Gabi era boa menina mas sem querer ajudou a destruir o Jornalismo Angolano ao criar “cursos médios de jornalismo”. Vá lá que ninguém se lembrou de fazer cursos médios de medicina.
O voluntarismo quase sempre dá pra o torto. Tomem nota. Os Jornalistas são quadros superiores das empresas de comunicação social. Isso de cursos médios dá para promover roboteiros.
Humberto Jorge, com ar de quem ia para um funeral, disse-me que os programas “Resistência” foram desgravados. Com o coração nos pés pedi-lhe para juntar as bobines de todo o processo da transição, desde a entrevista que Francisco Simons fez a Jonas Savimbi, logo após o 25 de Abril 1974, para fazermos cópias.
Alguns dias depois as mesmas palavras malditas: Foi tudo desgravado. Cobertura da Cimeira de Mombaça desgravada. Cobertura da Cimeira do Alvor desgravada. Tomada de posse do Governo de Transição desgravada. Apelos de Johnny Eduardo Pinock e José Ndele para que os “povos” do norte e do sul, abandonassem de Luanda, desgravados. Tudo desgravado.
O meu projecto é publicar os poemas de Álvaro Novais e na contracapa do livro há uma bolsa que guarda um “CD” com a declamação dos seus poemas, no programa “Resistência”. Ao desgravarem a bobine, o livro morreu antes de existir.
Estava a lamentar-me com o Artur Neves sobre esta realidade e ele, que era o sonoplasta daquele espaço cultural na Emissora oficial de Angola (RNA), disse calmamente: “Eu tenho esse programa no meu arquivo!”
Filipe Zau, ministro da Cultura, disse na Rádio Nacional de Angola (RNA) que a emissora tem conteúdos culturais e históricos importantíssimos para as gerações futuras.
Palavras mal ditas ou malditas? Que eu saiba, se uma bobine é desmagnetizada isso significa a perda total e irremediável do conteúdo. Pode ser que graças ao Presidente João Lourenço já não seja assim. E como Angola só nasceu no dia em que tomou posse, é verdade: O arquivo da RNA tem tudo à disposição das gerações futuras.
O general Higino Carneiro, figura incontornável no processo de Paz, desde o primeiro cessar-fogo no Leste de Angola e que evoluiu para o Acordo de Bicesse, manifestou preocupação pela violência social e política que anda à solta.
É preciso cortar o mal pela raiz. Para tal, propôs “a elaboração e aprovação de uma Lei que criminalize exemplarmente a intolerância política, seja ela perpetrada por cidadãos em cargos públicos, partidários ou por aqueles que o fazem sob anonimato. É hora de dizer basta e erradicar essa prática de subjugação do outro em nome de interesses partidários ou de outros grupos.” Mais claro é impossível.
A UNITA anda em negociatas com uma organização terrorista que emitiu um comunicado em nome da “República de Cabinda” e assinado pelo “Comandante do Estado Maior General das Força Armadas de Cabinda”.
Não é preciso legislar sobre este crime. Já está no Código Penal. E na Lei n.º 23/10 de 03 de Dezembro, aprovada na Assembleia Nacional e publicada em Diário da República Iª Série n.º 229, de 3 de Dezembro de 2010.
Artigo 1.º da Lei n.º 23/10 (Alta traição): “Quem, com violência ou ameaça de violência, usurpação ou abuso de funções de soberania, intencionalmente, puser em perigo a independência de Angola ou a sua soberania sobre parte ou a totalidade do território nacional, é punido com pena de prisão de 10 a 20 anos”.
Os comunicados da UNITA e o “pacote legislativo” apresentado na Assembleia Nacional são mais do que suficiente para a Procuradoria-Geral da República abrir um processo contra a direcção do Galo Negro e seus cúmplices na província de Cabinda, por Alta Traição. A maka é que Pita Grós só se move quando há dez por cento de comissões na recuperação de activos. Negócio da Justiça!
O empresário Carlos São Vicente denunciou publicamente que é um prisioneiro de João Lourenço e está refém no cárcere privado do Presidente da República. Alguns dias depois, graças a um indulto presidencial, dezenas de reclusos foram libertados após cumprirem metade da pena, o que me fez confusão. Condenado que cumpre metade da pena tem direito à liberdade condicional. As palavras malditas chegam agora.
Irene Neto, esposa do empresário Carlos São Vicente, em declarações ao Novo Jornal informou que o marido estava na lista dos indultados, mas João Lourenço mandou riscar!
O deus do Antro da Cidade Alto já decide sobre a vida e a morte dos súbditos. Ele é que prende e liberta. Condena e absolve. Julga no tribunal ou na praça pública. As palavras malditas mas bem ditas, foram proferidas por uma alta dirigente do MPLA (Bureau Político).
Irene Neto nasceu e cresceu no MPLA. Foi educada por Agostinho Neto, líder do MPLA que conduziu a Luta Armada de Libertação Nacional até à Independência Nacional e depois fez de Angola Trincheira Firme da Revolução em África. Um dos libertadores do Zimbabwe, Namíbia, África do Sul e Nelson Mandela!
Se a denúncia de Irene Neto não fez soar todas as campainhas de alarme no MPLA e na sociedade angolana, então estamos mesmo em morte social.
Uma empresa diamantífera homenageou os jornalistas António Ferreira “Aleluia”, Amândio Clemente e João Carmo. A homenagem vem do lado errado da vida. Quem tem de distinguir estes profissionais excepcionais é a classe e a tutela, não uma empresa de diamantes.
No grupo foi incluído Ismael Mateus e aí está certo. Porque ele, muitos anos antes de morrer, trocou o Jornalismo pela comunicação e imagem, actividade totalmente incompatível com o Jornalismo. Empresa homenageia empresário. Está certo!
*Jornalista