Brigadeiro Kaimy: o eterno estratega logístico da UNITA
Brigadeiro Kaimy: o eterno estratega logístico da UNITA
kaimy

Faleceu no passado dia 23 de Abril, em Luanda, vítima de uma doença prolongada — carcinoma epidermoide da laringe — o Brigadeiro reformado Lucas Kanangui Soares, mais conhecido pelo seu nome de guerra “Kaimy”, aos 71 anos, que desempenhou funções estratégicas como responsável logístico da UNITA entre 1981 e 2002, durante o período da guerra civil em Angola.

Lucas Kanangui Soares, mais conhecido pelo nome de guerra “Kaimy”, nasceu a 27 de Novembro de 1953, na aldeia de Lucuco (onde foi igualmente enterrado), município do Andulo, província do Bié.

Filho de Bartolomeu Ndumbo Chundumula e de Maria Nekandi Soares, iniciou os estudos na sua terra natal, prosseguindo-os na Escola Primária nº 48, Andrade Corvo, no Andulo, antes de ingressar na Escola Preparatória Justino Mendes de Almeida, em 1974.

Com espírito empreendedor, mudou-se para Luanda em busca de melhores oportunidades, tendo iniciado a sua actividade profissional como vendedor de jornais. Por incentivo do seu primo Salomão Katombela, matriculou-se na Escola Técnica de Enfermagem de Luanda.

O seu percurso político-militar começou com a adesão à UNITA, entre Agosto e Setembro de 1974, após o 25 de Abril. Já antes, estava ligado à luta política, integrando uma célula clandestina coordenada por Jacob Hossi Inácio e Eliseu Sapitango Chimbili.

De Luanda partiu para a Base Central da UNITA, em Massivi (Moxico), onde recebeu treino militar sob orientação do General Antonino Chiyulo. Posteriormente, foi transferido para Samussengue, onde trabalhou com o então comandante-chefe das Forças Armadas de Libertação de Angola (FALA), general José Samuel Chiwale.

Em 1976, assumiu funções como Comissário Político em várias bases, entre as quais Kasapa, Volonguelo, Kwete, Lunhonde, Kuemba e Munhango. Passou ainda por Malengue, Muandondji e Matala. Em 1979, foi convocado para a Região Militar 17, no Cuando Cubango, sendo depois seleccionado para a Academia Real Marroquina, onde se especializou em Inter-Armas e Comando Paraquedista.

Após regressar à Jamba em 1981, foi nomeado pelo líder-fundador da UNITA, Jonas Malheiro Savimbi, para chefias logísticas nas regiões militares 29 e 41, exercendo depois funções na Frente Estratégica “Estamos a Voltar” e na Direcção Geral de Logística (DGLOG), em diferentes frentes do conflito.

Em 1995, após o VIII Congresso Ordinário da UNITA, foi nomeado Comandante de Logística da Frente Sul do Caminho-de-Ferro de Benguela (CFB), sendo posteriormente chamado a integrar o núcleo de logística para a guerra convencional.

Em 1999, após a queda do Andulo, foi incumbido de liderar a retirada da base do Kwame Nkrumah para a zona do Chanji. Estabeleceu-se depois em Mulundu, coordenando o acolhimento e orientação de populações deslocadas. Em 2000, foi promovido a Brigadeiro, com a missão de conduzir o primeiro grupo de idosos à República da Zâmbia.

Com o fim do conflito armado, fixou residência em Luanda, onde foi reformado com a patente de Brigadeiro. Continuou a dedicar-se à UNITA, sendo membro do comité municipal de Viana e coordenador das regiões de Cacuaco e Viana no processo eleitoral de 2008. Integrou a Comissão Política do partido entre 2007 e 2011.

Vida pessoal

Casado desde 1978 com Belmira Rita Chitumba Soares, com quem teve nove filhos, dos quais oito sobreviveram, Lucas Soares era um pai presente, dedicado à formação académica e moral dos seus filhos — valores que incutiu com firmeza e carinho.

No plano político, manteve-se um militante ativo da UNITA. Em Luanda, foi membro do comité municipal de Viana, coordenando as regiões de Cacuaco e Viana durante a preparação das eleições de 2008. Entre 2007 e 2011, integrou a Comissão Política do partido.

Em 2010, passou a dedicar-se à agricultura na província do Cuanza Sul, liderando um projecto agropecuário promissor até o agravamento do seu estado de saúde.

Vida religiosa

Nascido num lar cristão, Lucas Soares professava a fé protestante e foi membro activo da Igreja Congregacional. Em 2014, celebrou matrimónio religioso com a esposa na congregação Derbe, pastoreada por Emaús.

Participou na Sociedade de Homens e nas actividades da Igreja local. A sua vida foi um testemunho da fé cristã, pautada pela esperança, serviço e compromisso com a comunidade.

Informação clínica

Em Setembro de 2023, após o falecimento de um neto e de um irmão (Samuel Dias Sandulu), começou a manifestar sintomas de saúde preocupantes. Após vários exames e internamentos, foi diagnosticado com um carcinoma da laringe.

Submetido a tratamento oncológico, não registou melhoras significativas. Recebeu alta hospitalar com indicação de estado clínico estável, mas a sua condição agravou-se nos dias seguintes. Faleceu no Hospital Municipal de Viana, às 15h00 do dia 23 de Abril de 2025.

Legado

Durante 47 anos de vida em comum, foi um esposo dedicado, pai exemplar, conselheiro e amigo. Os seus filhos destacam-no como um educador severo mas justo, cuja disciplina foi essencial para a sua formação. Deixa um legado de responsabilidade, dedicação e fé — valores reconhecidos por todos quantos com ele conviveram.

Era um homem de projectos, alguns concretizados, outros interrompidos pela sua partida. Estava profundamente comprometido com a causa que abraçou, granjeando o respeito de camaradas de armas e das comunidades onde trabalhou. As manifestações de pesar e homenagem continuam a chegar de várias partes do país.

Lucas Kanangui Soares “Kaimy” deixa viúva, 11 filhos, 16 netos e 1 bisneto.

Paz à sua alma.

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