“Quem tombar na vigência do nosso mandato sai fora (…) não sou ‘kazukuteiro'” – Isaías Kalunga
"Quem tombar na vigência do nosso mandato sai fora (…) não sou 'kazukuteiro'" - Isaías Kalunga
Isaias Kalunga

Mais de 17 mil angolanos concluíram, nos últimos anos, o ensino superior com bolsas de estudo atribuídas pelo Conselho Nacional da Juventude (CNJ), segundo o presidente da instituição, Isaías Kalunga.

Em entrevista à Angop, Isaías Kalunga referiu que as bolsas de estudo, comparticipadas e a custo zero, foram cedidas no âmbito de memorandos que o CNJ tem com 23 instituições de ensino superior em Angola.

De acordo com o responsável, no quadro destes protocolos, mais de 93 mil jovens, em todo o país, foram encaminhados, no presente ano lectivo (2024/2025), em instituições de ensino (escolas públicas, colégios, institutos superiores e universidades) para continuarem a formação.

No sector da habitação, disse, mais de três mil e 500 jovens beneficiaram de casas em várias centralidades do país.

Já no campo da agricultura, disse que o CNJ tem acordos firmados com o Fundo de Apoio ao Desenvolvimento Agrário (FADA) e com o Banco Angolano de Investimentos (BAI) no valor de 10 mil milhões de kwanzas, a nível do país, projectos que têm permitido conceder créditos aos jovens para a prática agrícola. “São muitos os resultados dos nossos programas e estão bem visíveis”, salientou.

Eis a entrevista na íntegra:

Que contributo a juventude deu e tem dado para o alcance, preservação e manutenção da Independência Nacional e pelo desenvolvimento de Angola?
A juventude sempre foi o principal actor a nível do país nos mais variados contextos e segmentos, pois os jovens também lutaram para que se conseguisse a Independência e a paz, assim como têm dado um enorme contributo nos mais variados sectores do país, para que hoje tenhamos uma Angola em fase de crescimento económico, político e social.

Como caracteriza as políticas públicas do sector para o empoderamento da juventude?
Nós temos acompanhado o desdobramento do Ministério da Juventude e Desportos, (actualmente) liderado pelo ministro Rui Falcão, que tem levado ao Conselho de Ministros vários projectos de diplomas que visam empoderar o jovem angolano.
Acompanhamos recentemente a aprovação do Plano de Desenvolvimento da Juventude, que visa melhorar a vida dos jovens angolanos. Portanto, são políticas que têm sido debatidas e claramente vão empoderar a juventude.
Temos acompanhado que há uma preocupação do Presidente João Lourenço em ver a juventude cada vez melhor acomodada. Das várias vezes que tivemos a oportunidade de estar com o Presidente, sempre mostrou preocupação em ver a juventude respirar bons ares.

Que avaliação faz da qualidade do sistema de ensino superior em Angola?
Dou nota positiva da qualidade do ensino superior em Angola, apesar de que se deve fazer mais. Há uma entrega do Executivo angolano no sector do ensino superior e tem havido muito rigor.
Nós, como plataforma que congrega a juventude, vamos continuar a pressionar para que se melhore a qualidade no ensino superior, porque a juventude precisa de mais e melhores faculdades.
Para os próximos anos queremos poder ter o discurso de que temos universidades ou institutos superiores que ombreiam com os melhores a nível de países como Portugal, África do Sul, Inglaterra, entre outros, para que venham diminuir a ida de angolanos a esses lugares à procura de formação de qualidade.

Como avalia a participação da juventude no desenvolvimento do país?
Os jovens são a força de qualquer nação e temos o slogan de que “a juventude é a força motriz”. Portanto, eu avalio como positiva a participação dos jovens no desenvolvimento do país, pois esta franja tem demonstrado que quer ver Angola desenvolvida.
Todos os dias temos visto jovens a trabalhar para que Angola seja um país da actualidade nos mais variados segmentos e esse heroísmo e entrega é que nos faz ter essa avaliação favorável.
Temos visto muitos jovens com uma veia empreendedora, porque, para que Angola seja um país desenvolvido, é necessário que tenhamos jovens não só empreendedores, mas também outros a trabalhar em vários sectores do funcionalismo público e privado.
Diariamente, temos visto de manhã muita movimentação de jovens, uns a irem aos mercados, outros aos armazéns, à cidade e a outros lugares para darem o seu contributo no crescimento e desenvolvimento deste país.

Sendo a juventude a maior parte da população do país, como caracteriza esta franja da sociedade angolana hoje, em comparação aos jovens de antigamente?
Na verdade, não gosto de fazer comparações, porque as épocas são diferentes. Antes da proclamação da Independência, os jovens tinham um foco, que era ver Angola livre do jugo colonial. Depois da Independência, os jovens estavam a ser mobilizados para a manutenção da paz, pois, estávamos a matarmo-nos por causa da guerra civil.
Os contextos são diferentes. Neste momento, a nossa geração é que desfruta dos adventos da paz. Eu só vivi um pouco do tempo da guerra e, neste momento, no âmbito da unidade, da paz e da reconciliação nacional, temos uma juventude muito focada no patriotismo, uma juventude que pega no histórico do período antes da Independência e durante o conflito armado para que sirva de elemento de motivação para sermos um país no qual o patriotismo no seio da juventude seja muito acentuado.

Enquanto líder desta plataforma, qual é a sua visão de curto, médio e longo prazo para essa franja da sociedade?
Enquanto líder da plataforma que congrega a juventude angolana, a visão é ter os jovens mais e melhor formados a curto, médio e longo prazo e que os projectos gizados pelo Conselho Nacional da Juventude tenham um efeito positivo.
Nós temos vários projectos a nível de formação técnico-profissional, de inserção de jovens no sistema de ensino tanto médio como o superior, fomento ao empreendedorismo, apoio com crédito bancário, entre outros.
Queremos que os jovens tenham, cada vez mais, condições de habitabilidade, porque deve ser sempre responsabilidade do Governo criar disposições de habitabilidade para a sua juventude, construindo centralidades e urbanizações com casas condignas e terrenos infra-estruturados para a autoconstrução dirigida.
Queremos que os jovens tenham formação em instituições de qualidade, para que possamos equiparar o ensino de Angola ao da Inglaterra ou outro país, nos próximos 20 anos, mas só se a força dos jovens de hoje for implementada de facto, os jovens forem ouvidos e lhes serem dadas oportunidades.

O desemprego e a habitação ainda continuam a ser das principais preocupações da juventude. Como avalia as políticas públicas voltadas para estes dois sectores?
A nível do desemprego, claramente temos ainda um índice elevado, apesar dos esforços que têm sido feitos. Por isso é que estamos a ver que todos os dias os jovens estão a enveredar pelo empreendedorismo. É necessário que se faça mais para minimizar estes níveis com elementos de auto-emprego para reduzir a procura de emprego.
A nível da habitação, muitos jovens querem casa mas não têm emprego. É necessário que a empregabilidade seja acompanhada com o auto-emprego para que consigam ter uma renda mensal que, de facto, permita ter acesso a uma renda resolúvel em uma centralidade do país.
Neste quesito, o Governo central tem estado bem, mas tem que fazer mais ainda, apesar do contraste em que muitos cidadãos não acompanham a dinâmica do Executivo, não valorizam os empregos e não pagam as casas e isso prejudica o Estado em continuar a investir nestes dois segmentos.

Que pronunciamento tem a fazer sobre a situação desses jovens beneficiários de residências em algumas centralidades da capital do país e noutras províncias que estão ameaçados de perder os imóveis por incumprimento no pagamento das rendas?
Nós temos realizado campanhas de sensibilização no sentido de persuadir os proponentes a pagarem as suas casas, ou seja, a cumprirem as questões contratuais acordadas junto das instituições públicas.
Vamos apelando para que o Governo central aceite a nossa proposta para que os jovens sem condições de pagar, desde que o comprovem, possam alterar o contrato de renda resolúvel para renda urbana a fim de que não percam as casas.
Eu acho que o posicionamento do Governo é legitimo, é normal que, nas condições em que se verificam cidadãos que não pagam as casas, o último recurso é o tribunal orientar que os cidadãos sejam despejados. Agora, o Estado é uma pessoa de bem e tem várias ferramentas para não permitir que os cidadãos sejam despejados ou levados a tribunal.
Existem muitas formas de negociação, o grande problema é que as pessoas não querem dirigir-se a quem de direito para saber quais são as formas de negociação. Os relatos que recebemos são de que muitos não estão a pagar e não apresentam motivos concretos e legais para o efeito.
Mas acredito que, além dessas possibilidades que estamos a falar, o Estado tem outras formas de proteger as famílias, mas é necessário que haja vontade do cidadão de dizer ao Estado que quer pagar a casa.

A caminho de cinco anos desde a sua eleição, que balanço faz da sua liderança no CNJ?
O mandato finda em Novembro de 2026. No decurso do nosso mandato temos cumprido o que prometemos, que é estar no centro da juventude com políticas de apoio aos jovens. Não estamos a fazer um CNJ que apenas pede ou reclama do Estado sobre os direitos do jovens. Nos posicionamo-nos como um parceiro que apoia o Governo e isso permite-nos fazer uma avaliação positiva deste mandato, pois os resultados são visíveis e divulgados frequentemente na imprensa.
Vamos continuar a ser a voz dos jovens para que estes continuem a beneficiar das nossas politicas de habitação, crédito, inserção no sistema de ensino, formação, entre outras, e quando terminarmos o nosso mandato vamos poder dizer que trabalhamos com honra e vamos entregar uma instituição saudável.

Quando da sua eleição, em 2020, o presidente garantiu um mandato de união, usando a frase “A nossa liderança é de paz, unidade e reconciliação”. Como estamos neste quesito?
Um mandato de paz não significa que a sua gestão não seja com rigor e quem fere os procedimentos não seja penalizado. Agostinho Neto disse que na construção da Angola Independente, ainda que os primeiros a tombar na primeira esquina sejam nossos camaradas, a luta continua.
Quem tomba na vigência do nosso mandato sai fora, pois enquanto jovens estamos numa escola e é necessário que o líder não seja visto como “kazukuteiro” para que possa manter a ordem, a paz e o rigor para haver funcionalidade.

Pode descrever os resultados das acções que tem desenvolvido?
São muitos os resultados dos nossos programas e são bem visíveis. Só a nível da formação, nós temos encaminhados mais de 93 mil jovens em todo país, quer seja em escolas públicas, como colégios, institutos superiores e universidades. Temos mais de 17 mil jovens licenciados com bolsas de estudo comparticipadas e a custo zero nas 23 instituições de ensino superior com que temos memorando.
Nestas instituições temos recebido uma quota anual de mil bolsas nos mais variados cursos, com realce para o Instituto Superior de Administração e Finanças (ISAF), que ainda atribui até 80 mil kwanzas mensais aos estudantes.
Na habitação, nós temos mais de três mil e 500 jovens que tiveram acesso à primeira casa nas mais variadas centralidades do país.
Na agricultura, temos acordos firmados com o Fundo de Apoio ao Desenvolvimento Agrário (FADA) e com o Banco Angolano de Investimento (BAI) de 10 mil milhões de kwanzas, a nível do país, que têm permitido conceder crédito aos jovens que estão a dedicar-se à prática agrícola.

Circularam recentemente informações na imprensa dando conta de denúncias de desvios de património do CNJ por parte de alguns dos seus antigos responsáveis. Como está este caso?
É normal que se diga isso, agora as pessoas têm que provar que isso aconteceu. Já se falou muito sobre isso e ainda vai falar-se. Sou jovem e estamos no processo de maturação e de crescimento e, à medida que vamos crescendo, vai falar-se sobre nós. As pessoas são livres de falar mas têm que provar que houve desvio. Devem abrir uma queixa aos órgãos competentes e, não provando, incorrem no crime de calúnia e difamação.
Mas também a estes já demos um tratamento adequado, pois já estão identificadas as quatro pessoas que difundiram essas informações infundadas. É assim que convocamos um encontro com as organizações juvenis membros do CNJ e explicamos a situação.
Destes quatro jovens, um vendeu uma viatura da instituição que lhe foi atribuída, outro estava a fazer caça furtiva, tendo publicado nas redes sociais a fazer disparos e a sua organização pediu o seu afastamento.
Um outro desviou um milhão e 970 mil kwanzas da instituição e o quarto falsificou a assinatura do presidente do CNJ para um músico viajar, tendo este sido retido no aeroporto.
Uma dessas pessoas é meu primo-irmão, mas aqui estamos a dirigir a juventude e não na base do nepotismo. Familiarismo é em casa. Aqui há rigor e agora se juntaram e começaram a publicar fake news sobre mim e o CNJ.

Qual é a mensagem que deixa à juventude angolana neste ano que Angola completa 23 anos de paz e 50 anos de Independência Nacional?
A mensagem que gostava de passar é de que nos orgulhemos, os jovens não devem perder de vista a conquista alcançada ao longo da nossa Independência.
Os nossos antepassados deram o máximo de si para temos o que temos hoje. Por isso, devemos preservar esses dois legados para que venhamos perspectivar um futuro risonho com jovens patriotas, destemidos e trabalhadores para uma Angola mais forte, crescente e desenvolvida.
Isso só será possível se os jovens se entregarem ao trabalho e à formação, com humildade, lealdade, honestidade e respeito, para que todos esses pressupostos básicos de valores venham superar todo e qualquer pressuposto profissional.
Vamos como jovens continuar a acreditar na governação do Presidente João Lourenço, que tem no seu elenco jovens nos mais variados departamentos ministeriais e governos provinciais, mas também vamos continuar a exigir que tenhamos mais escolas, professores, hospitais humanizados, comida na nossa mesa e outros bens.

in Angop

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