
O jornalista e jurista Jaime Azulay lançou no sábado, no Museu Nacional de Arqueologia, na cidade de Benguela, a sua primeira obra literária intitulada Benguela a Ferro e Fogo: Memórias das Guerras de 1992/93.
Editado pela chancela Shalom, o livro conta com 268 páginas e teve uma tiragem inicial de 1.500 exemplares. O prefácio foi assinado pelo também jornalista angolano Luís Costa, residente há cerca de 30 anos nos Estados Unidos da América.
A obra inclui anexos fotográficos da autoria do próprio Jaime Azulay, que documentam visualmente um dos períodos mais conturbados da história recente de Angola, com especial enfoque na província de Benguela.
Durante o lançamento, o livro foi comercializado a um preço promocional de dez mil kwanzas, estando prevista a sua distribuição em livrarias a 15 mil kwanzas nos próximos dias.
Na apresentação da obra, o jornalista Rui Vasco destacou que o livro retrata o período da guerra civil que se seguiu às primeiras eleições gerais em Angola, em 1992, marcadas pelo confronto entre forças governamentais e a UNITA.
A narrativa aborda ainda acontecimentos relacionados com a Batalha do Cuito Cuanavale, o fim da Guerra Fria, as dinâmicas dos movimentos de libertação nacional, bem como o perfil e o carácter de figuras marcantes da política angolana. O autor explora também o simbolismo da amizade e outros temas de valor histórico e humano.
Ao usar da palavra, Jaime Azulay confessou que refletiu longamente sobre a pertinência da publicação. “Vivi um verdadeiro dilema ético. Sendo benguelense, conheço profundamente a sensibilidade das pessoas”, explicou.
O autor referiu ter enfrentado críticas que o acusavam de parcialidade, por ter estado ligado a um dos lados do conflito. “Preferi esperar, amadurecer a ideia e ouvir conselhos de professores e sacerdotes amigos”, revelou.
Azulay reconheceu que não queria “mexer em feridas ainda abertas” numa sociedade onde muitos conhecem pessoalmente as vítimas do conflito. “Aqui, as pessoas sabem quem matou o pai, o primo, o cunhado… seria muito doloroso contribuir para reacender essas mágoas naquela altura”, considerou.
Contudo, explicou que também enfrentava o receio de ver a memória colectiva desaparecer. “Esperar que os mais velhos morram e levem estas memórias para os túmulos, em vez de as transmitirem às novas gerações?”, questionou.
Disse, por fim, que só agora decidiu publicar o livro, por acreditar que o tempo permitiu uma cicatrização suficiente das feridas e que o testemunho pode servir de lição para o futuro. “Que se aprenda com os erros do passado, para que nunca se repitam.”
O governador da província de Benguela, Manuel Nunes Júnior, presente como convidado de honra, elogiou o lançamento da obra e manifestou satisfação por testemunhar, num curto espaço de tempo, o surgimento de três livros de autores locais.
“É a terceira obra lançada em menos de 30 dias, após as publicações da professora Amélia Cazalma e do nacionalista Hendrik Vall Neto”, destacou, considerando o momento como “um verdadeiro reencontro intelectual entre benguelenses”.
O governador incentivou Jaime Azulay a continuar a escrever. “O povo de Benguela e de Angola precisa das suas obras para enriquecer o conhecimento da nossa história.”
Entre os vários testemunhos do público presente, destaque para o professor Norberto Baptista, que sugeriu ao autor escrever também sobre a guerra no Huambo, onde esteve presente, e para o empresário Adérito Areias, que propôs a compilação das crónicas de Azulay num novo livro, oferecendo-se para custear a edição.
Sobre o autor
Jaime Victorino Azulay é jornalista e advogado. Nasceu no Sumbe a 29 de maio de 1961, mas reside há mais de cinquenta anos em Benguela. Cumpriu serviço militar e iniciou a carreira jornalística na Agência Angola Press (ANGOP), tendo passado posteriormente pelas Edições Novembro.
Foi repórter de guerra durante o conflito armado e autor de diversas reportagens para meios nacionais e internacionais. Recebeu vários prémios e distinções, entre as quais a Medalha do 50.º Aniversário da Independência Nacional, atribuída pelo Presidente da República, João Manuel Gonçalves Lourenço.
Benguela a Ferro e Fogo: Memórias das Guerras de 1992/93 é a sua primeira obra publicada.