Não há mal nenhum em aprender com os outros — Adebayo Vunge
Não há mal nenhum em aprender com os outros — Adebayo Vunge
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No rescaldo das eleições legislativas da semana passada em Portugal, é bastante interessante, agora, perceber definitivamente por que razão a política portuguesa suscita tanto interesse no nosso país: será apenas um saudosismo neo-colonial?

Será a lógica do monopólio e do imperialismo mediático que, por trás, se apoia no soft power do que é propagado pela mídia (portuguesa), neste caso — goste-se ou não — ainda muito consumida em Angola?

Será simplesmente fruto dos laços históricos e culturais, que são inegáveis, embora se deva analisar com cautela, sob pena de não cairmos em atitudes inaceitáveis de luso-tropicalismo?

Seja como for, a verdade é que os resultados das últimas eleições legislativas em Portugal geraram debates acalorados, principalmente pelos seus impactos e pelas identidades ou afinidades ideológicas que ainda permanecem ou sobrevivem.

Foi nesta lógica que se enquadrou a preocupação de alguns círculos relativamente ao crescimento do partido ultranacionalista Chega, de André Ventura (curiosamente, também entre os emigrantes portugueses radicados em Angola), para além da queda do Partido Socialista.

Se é verdade que as eleições em Angola também despertam muitos debates em Portugal — não só pelo grande número de angolanos que vivem por lá, mas também por fenómenos identificados no preâmbulo deste texto e, de forma inversa, por muitos portugueses que se mostram mais próximos ora do MPLA, ora mesmo da UNITA.

E não há aí nenhuma intenção de ingerência, nem essa atitude deve ser vista como tal, como alguns círculos irresponsáveis tentam fazer crer sempre que o assunto escapa de certos interesses.

A beleza das eleições na França, na África do Sul, nos Estados Unidos, como também em Portugal, está na atenção que os debates suscitam, nas questões do quotidiano que são levantadas, nos casos e escândalos que agitam as águas — tudo numa lógica de interesse nacional.

Por isso, acredito que não podemos escapar aos debates pré-eleitorais entre os candidatos das principais forças políticas em 2027. Podemos, entretanto, discutir o figurino.

É por isso que as novas gerações de políticos precisam estar preparadas e abertas a esse tipo de exercício, pois, na sua ausência, os eleitores não têm oportunidade de perceber claramente o projecto eleitoral dos vários partidos, na voz dos seus principais protagonistas, para além dos comícios e pequenas manifestações de rua.

É também por isso que muitas vezes os políticos se afastam dos compromissos e responsabilidades que os seus discursos deveriam reflectir. E é por isso que escasseiam bons entrevistadores na nossa mídia angolana, sobrando apenas algumas excepções de espaços de destaque, como o Café da Manhã, do José Rodrigues, na LAC, ou o Alves Fernandes, na MFM.

É também por isso que os spin-doctors ainda não assumiram um protagonismo mais efectivo na construção das narrativas e no combate político verdadeiro — dentro de um padrão normal de outras geografias, embora esse espaço também vá ganhando importância no nosso meio.

Por isso, é fundamental um trabalho mais sério e profissional por parte dos médias na nossa sociedade, no sentido de dar espaço e voz a todos os protagonistas, promovendo um verdadeiro pluralismo noticioso nos seus espaços, com uma postura rigorosa, objectiva e isenta.

Com profissionalismo e uma gestão informativa competente, certamente os órgãos de comunicação tradicionais ganham mais credibilidade junto da opinião pública, ajudando também a reduzir o impacto das fake news nas redes sociais.

Imagino, nesta altura, que muitos eleitores vão chamar a atenção ao facto de Angola não ser Portugal. Obviamente, só posso concordar. Mas, parafraseando o meu título, não há problema algum em aprendermos com os outros.

São boas práticas que o mundo aprecia — não apenas nos manuais, mas sobretudo na prática de países que se assumem democráticos. E, por isso, vale lembrar a velha máxima de que, para a mulher de César, não basta ser, é preciso parecer.

Termino com uma questão que considero extremamente pertinente: estamos realmente preparados para ter um partido nacionalista, xenófobo, conservador, ao estilo do partido de Julius Malema?

E faço esta reflexão porque noto com preocupação que, no fundo, não somos assim tão diferentes, e que um partido com essa matriz poderia surgir facilmente.

A vaga de partidos como o Chega revela uma realidade que ainda subalterniza classes sociais, grupos étnicos e raciais. Quem não conhece o efeito da segregação por castas na Índia? Ou a percepção dos negros na China e na Rússia? Para não falar das suas posições na Argentina e no Brasil.

O efeito Trump, ou mesmo o do Chega agora, deveria servir para nos alertar para o trabalho que temos de fazer no nosso próprio território.

A roda está inventada, só precisamos de aprender com os outros. Há uma frase curiosa do jornalista Alfred Zakaria da CNN, no seu livro “A Era das Revoluções”, que sintetiza bem o que estamos a viver: “Se antes a política era moldada, em grande parte, pela economia, hoje a política está a ser moldada por questões de identidade”, conclui.

*Jornalista

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