A captura do Estado e a descontinuidade governativa: Mudam os rostos e mantém-se o esquema — Waydombinda Cikale
A captura do Estado e a descontinuidade governativa: Mudam os rostos e mantém-se o esquema — Waydombinda Cikale
Jlo23

Em Angola, a cada nova nomeação política, ressuscita-se um novo grupo empresarial. O Estado parece refém de interesses particulares, e o povo, prisioneiro da descontinuidade.

A relação entre gestores públicos e empresários tornou-se, há décadas, o coração de um sistema que prioriza lealdades políticas em detrimento da estabilidade institucional e do desenvolvimento sustentável.

Na era de José Eduardo dos Santos, a teia de negócios privados ligados ao poder político consolidou um modelo de gestão pública onde o mérito era frequentemente substituído por afinidades partidárias ou pessoais.

Com a ascensão de João Lourenço, muitos angolanos esperavam uma ruptura com este modelo. No entanto, o que se observa é uma reconfiguração das elites económicas e empresariais, com a substituição de grupos, mas não do sistema que os sustenta.

A cada nova nomeação para um ministério, governo provincial ou administração municipal, assiste-se à anulação de contratos, abandono de projectos iniciados e introdução de novos fornecedores, quase sempre próximos do novo titular.

O padrão repete-se como ritual: destruir o que o anterior construiu, independentemente do mérito ou do impacto social. Esta prática gera instabilidade, prejudica a continuidade das políticas públicas e alimenta um ciclo vicioso de desperdício de recursos públicos.

O impacto é visível: obras inacabadas, programas abandonados, empresários sérios marginalizados por não se submeterem a jogos políticos. A economia angolana torna-se assim cada vez mais frágil, dependente da boa vontade de quem assume cargos e é menos orientada por planos estratégicos nacionais.

A previsibilidade necessária ao investimento produtivo desaparece, substituída pela incerteza de uma economia gerida a partir de interesses privados que orbitam o poder político.

O fenómeno é ainda mais grave nos níveis locais. Governadores e administradores chegam às suas funções com o seu “clube de empresários de confiança”, desmantelando acordos existentes e criando novas teias de favorecimento.

Esta lógica clientelista bloqueia a meritocracia, sufoca a iniciativa empresarial independente e destrói qualquer esforço de construção de um Estado moderno, orientado para resultados e políticas públicas de longo prazo.

Apesar das promessas de moralização da vida pública, a realidade impõe outra leitura: o problema não está apenas nos rostos que se alternam no poder, mas na lógica do sistema em si.

A substituição de elites não é sinónimo de transformação estrutural. Quando os mecanismos que sustentam o favoritismo político-empresarial não são desmontados, o ciclo de corrupção e desgoverno apenas ganha novas cores, mantendo a mesma essência.

O que Angola precisa é de uma verdadeira institucionalização do Estado: Regras claras de transição entre mandatos governativos; Auditorias obrigatórias para garantir continuidade dos bons projectos; Fortalecimento dos órgãos de fiscalização e da sociedade civil; Promoção de um sector empresarial independente, inovador e competitivo.

O desenvolvimento nacional exige estabilidade, previsibilidade, e uma cultura de continuidade governativa baseada em evidências, não em conveniências pessoais.

O país não pode continuar a ser um laboratório de experiências privadas travestidas de políticas públicas. É tempo de romper com o velho ciclo e refundar o Estado sob bases éticas, técnicas e verdadeiramente públicas.

Enquanto cada novo gestor destruir o que o outro começou, Angola continuará a girar em círculos, com o povo sempre no ponto de partida.

*Activista

Compartilhar:

Facebook
WhatsApp
LinkedIn
Twitter
error: Conteúdo protegido