
É deveras sofrível lidar com as repartições públicas em Angola. Quem já teve que tratar de um simples documento, sabe bem o que significa perder horas (ou mesmo dias) numa maratona de má vontade, negligência, desorganização e falta de respeito.
O problema vai muito além da burocracia: trata-se de uma profunda crise de profissionalismo que corrói o funcionamento da nossa administração pública e bloqueia o desenvolvimento do país.
A função pública é, ou deveria ser, o motor silencioso mas poderoso de qualquer nação. São os funcionários públicos que processam os documentos, que asseguram os serviços sociais, que executam políticas e que fazem chegar à população as decisões tomadas ao mais alto nível.
Mas em Angola, este motor está engasgado. E a culpa não é apenas da alegada “falta de vontade política”. Há sinais — sim, há sinais — de que a liderança do país quer ver progresso. Mas como avançar, se os parafusos da engrenagem estão soltos e muitas peças, simplesmente, não funcionam?
Temos tendência de culpar sempre os políticos, e há, claro, razões legítimas para tal. Mas esquecemo-nos de olhar para dentro da própria máquina pública, onde reina um mal tão grave e talvez pior que a corrupção: a FALTA DE VONTADE TÉCNICA.
Refiro-me à incompetência mascarada de rotina, ao despreparo resultante de formações fracas e ao pessoal mal qualificado que a escola angolana produz.
A nossa estagnação não é apenas o produto de más decisões políticas, mas também de uma função pública que desaprendeu a servir. Não basta mudar ministros ou aprovar reformas em gabinete.
É preciso profissionalizar, formar, responsabilizar. É preciso restaurar a ética do serviço público, onde trabalhar para o Estado signifique, acima de tudo, servir o cidadão com competência e integridade.
O académico britânico Michael Barber, no seu livro How to Run a Government: So That Citizens Benefit and Taxpayers Don’t Go Crazy — ou, na tradução que propomos, Como Governar um País: Para Beneficiar os Cidadãos sem Enlouquecer os Contribuintes — oferece uma poderosa reflexão sobre este desafio. Ele mostra que não bastam boas ideias ou políticas bem escritas. A diferença entre um Estado falhado e um Estado funcional está na execução.
Barber foi conselheiro do primeiro-ministro britânico Tony Blair e liderou o “Delivery Unit” do governo do Reino Unido. A sua missão era simples, mas poderosa: garantir que as promessas fossem cumpridas. E ele o fez com um modelo centrado no desempenho, no foco e na responsabilização.
O que aprendemos com ele? Que “delivery matters”. Que governos precisam funcionar como organizações com metas claras, prazos definidos, avaliação contínua e orientação para resultados. Que não se pode permitir que a burocracia sufoque a ação. Que a confiança do cidadão se constrói — ou se destrói — na experiência concreta que ele tem com os serviços públicos.
Se quisermos mudar Angola, precisamos começar por dentro. A reforma da administração pública não é um luxo: é uma urgência. Precisamos de funcionários públicos motivados, bem formados, avaliados pelo mérito e comprometidos com resultados. Precisamos de chefias que saibam liderar com propósito. E precisamos de sistemas que não apenas planeiem, mas executem.
O povo não exige milagres. Ele exige respeito, eficiência, dignidade. Não se trata de reinventar a roda, mas de aceitar que uma máquina estatal que não funciona — ou que apenas finge funcionar — sabota qualquer política pública, por mais nobre que seja.
Hoje, Angola está à beira de um novo ciclo. Mas esse ciclo não pode florescer se a base continuar a mesma: frágil, mal preparada e sem visão. Que a nossa revolução comece nos gabinetes, nos balcões, nas secretarias — com servidores públicos que saibam que servir o Estado é, acima de tudo, servir o povo.
Porque só assim o país deixará de ser um gigante adormecido — e se tornará, finalmente, o que tem potencial para ser: uma nação funcional, próspera e justa.
*Docente