
Luanda amanheceu em suspenso. O calor do asfalto deu lugar ao calor das ruas. Vidros de viaturas quebrados, pneus queimados, contentores tombados, lixo espalhado, gritos soltos e, no meio de tudo isso, o olhar inquieto de uma cidade sem rumo, perplexa, dividida entre o medo e a esperança, entre a angústia legítima e a fúria desordenada.
Não foi uma paragem geral, é verdade. Há zonas da capital onde tudo correu com normalidade. Mas em muitos bairros, o caos tomou a dianteira. O mais triste, no entanto, não foi a fumaça que cobriu os céus ou os contentores que bloqueavam estradas.
Foi o retrato cru e desolador entre os protagonistas: miúdos entre os 13 e os 18 anos, esfarrapados, desorientados, sem rosto, sem causa clara. Gritavam, queimavam, corriam, mas não sabiam exatamente porquê. A imagem era mais de abandono do que de revolução.
E então, perguntamos: por que Luanda parou?
A resposta, embora envolta em muitas camadas, tem uma origem incontornável: a insatisfação popular, agravada por tempos difíceis, marcada pela pobreza persistente e pelo desencanto crescente. Mas o que se viu hoje não foi manifestação política nem exercício de cidadania. Foi vandalismo. Foi pilhagem. E por mais romântico que possa parecer para alguns, o que virá a seguir é o regresso brutal à realidade: os pobres continuarão pobres.
Os que vivem do dia-a-dia, do improviso, da venda ambulante e do biscato, esses sim sentirão o verdadeiro impacto da paralisação. Não terão como comer, nem onde vender.
Enquanto isso, os instigadores do caos, os haters que alimentam o povo com “sangue podre” e slogans inflamados, continuarão nos seus condomínios, com reservas logísticas que os mantêm confortáveis durante semanas, talvez meses.
Há uma narrativa corrosiva a tomar conta da opinião pública: a de que todos os males de Angola têm um único culpado: o Presidente da República. Mas a história é sempre mais complexa.
As falhas do sistema não nascem num só gabinete. São o resultado de décadas de omissões, erros acumulados e estruturas viciadas. O chefe, sim, carrega o passivo. E como líder, deve responder com inteligência, sensibilidade e responsabilidade. Mas não será com simplificações grosseiras que encontraremos soluções. A crítica cega é tão nociva quanto a defesa incondicional.
O que aconteceu hoje em Luanda deve servir como um espelho — duro, incômodo, necessário. Um espelho onde todos devemos olhar: governantes e governados.
O povo tem direito de aspirar a uma vida melhor. E o Estado tem a obrigação de o servir com dignidade. Mas a insatisfação sem liderança, sem direção, sem objetivos claros, degenera quase sempre em caos. E o caos não constrói. O caos destrói. O caos não emancipa. Escraviza.
Não se viu hoje um grito de Ipiranga. Não havia uma pauta, uma estratégia, um plano de ação. Havia raiva. Havia desespero. Havia desordem. Mas nenhuma dessas coisas, isoladamente, constrói o amanhã que todos desejamos. A mudança só virá com organização, com proposta, com diálogo — nunca com anarquia.
É neste momento que as forças vivas da nação precisam se levantar. Não para tomar partido, mas para unir. Precisamos ultrapassar essa lógica estreita e destrutiva do “nós contra eles”: governo contra oposição, MPLA contra UNITA, elite contra povo. O país é um só. E é do nosso interesse comum que Angola funcione.
Que Angola dê certo. Que o Estado cumpra o seu papel com justiça e eficácia. Que a oposição fiscalize e proponha com responsabilidade. Que a sociedade civil seja ativa, crítica e propositiva. E que a juventude, sobretudo, reencontre um projeto de futuro.
A boa notícia é que há sinais de que isso é possível. Há menos de uma semana, os partidos políticos deram uma lição de maturidade ao aprovar, com surpreendente consenso, o novo pacote eleitoral. Onde se esperava confronto, houve convergência. Onde se temia tensão, houve racionalidade.
Mostraram que o diálogo é possível. Que a construção coletiva é viável. E que a democracia não precisa ser um campo de batalha, pode ser um espaço de entendimento.
Por isso, neste dia em que a cidade parou para gritar, o que devemos fazer é escutar. Mas escutar com lucidez. Com serenidade. Com empatia. O país precisa de reformas, sim. Precisa de verdade. Precisa de justiça social. Mas precisa, antes de tudo, de juízo. De bom senso. De unidade. De fé no futuro.
Este país tem que dar certo.
E vai dar certo.
Porque Deus é angolano.
Mas nós, angolanos, temos de fazer a nossa parte.
*Docente universitário