A “greve” da vergonha! – Augusto Cuteta
A "greve" da vergonha! - Augusto Cuteta
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Antes de tudo, é preciso lamentar. Lamentar profundamente a perda de vidas humanas durante os acontecimentos desse dia 28 de Julho, em Luanda. Algumas dessas vidas eram de cidadãos inocentes, apanhados no meio do caos, da violência gratuita, da falta de controlo.

Pessoas que saíram para trabalhar, circular ou simplesmente viver. E que nunca mais voltaram para casa. A esses, e às suas famílias, vai o meu mais sincero respeito e solidariedade.

Lamento também, e com a mesma intensidade, os prejuízos sofridos pelos lojistas, comerciantes, pequenos e grandes empresários que viram os seus estabelecimentos saqueados e destruídos.

Muitos vivem do crédito, do esforço diário, e da sobrevivência honesta. Ver o seu suor reduzido a escombros em nome de uma alegada “greve” é não só injusto como cruel.

O que aconteceu em Luanda, e em algumas outras localidades do país, não foi uma greve no sentido democrático do termo. Não foi uma reivindicação organizada nem uma manifestação ordeira. Foi, na verdade, uma sucessão de actos de vandalismo, pilhagem e desrespeito à ordem pública.

Jovens, homens e mulheres, colocaram barricadas nas ruas, incendiaram pneus e viaturas, destruíram património público e privado, invadiram lojas e supermercados e chegaram mesmo a enfrentar agentes da Ordem com níveis de violência inaceitáveis. E a Polícia foi muito pacífica, se termos em conta as reacções que teriam se fosse no passado. Foram, igual aos jornalistas, bem comportados!

A Constituição da República de Angola consagra o direito à manifestação. Mas esse direito não é absoluto, nem se sobrepõe aos direitos dos outros cidadãos à segurança, à livre circulação e ao trabalho.

O que se viu em Luanda foi uma inversão total dos valores: usou-se a bandeira do protesto para justificar o crime.

Se a reivindicação era contra o funcionamento do serviço de táxis, os chamados “azuis e brancos”, por que foram atacados veículos particulares, autocarros públicos e estabelecimentos comerciais? Que lógica há em destruir o que é de todos e, em alguns casos, o que é de quem não tem quase nada?

Não menos preocupante foi a resposta tardia das forças da Ordem, que, em alguns momentos, pareceram ausentes ou inoperantes diante da gravidade dos factos. A protecção da vida e do património dos cidadãos é uma das funções primordiais do Estado. Quando ela falha, o sentimento de insegurança instala-se, e a confiança pública sofre.

Os responsáveis por convocar ou incentivar a chamada “greve” devem prestar contas. Porque é demasiado cómodo acender o rastilho e depois fingir surpresa com a explosão. Quem mobiliza massas deve ter consciência das consequências. E deve também ter a capacidade e a coragem de as conter. Se não conseguem garantir responsabilidade e civismo, não devem convocar mobilizações.

Infelizmente, parte da comunicação social também falhou nesse momento crítico. Enquanto a cidade ardia, alguns meios optaram por alimentar a polémica, ao invés de informar com rigor.

Em vez de ajudar o cidadão a entender o que se passava, preferiram o espectáculo e o sensacionalismo. A imprensa tem um papel essencial nos momentos de crise. E falhar nesse papel é contribuir, ainda que indirectamente, para a desordem.

Felizmente, há registos, muitos, nas redes sociais e plataformas digitais. Vídeos com rostos, acções e detalhes que permitem identificar com clareza os responsáveis pelos actos de vandalismo.

Que as autoridades usem esses materiais para responsabilizar exemplarmente os prevaricadores. Não pode haver impunidade para crimes praticados sob o disfarce de manifestação popular.

Por fim, é preciso também dirigir uma palavra aos que, à distância, celebraram os actos desta segunda-feira como uma espécie de “resistência popular”.

Esses analistas de sofá, que fazem revoluções de dados móveis e memes, devem entender que não há nada de revolucionário em saquear uma loja de bairro. Não há bravura em atacar inocentes. E não há qualquer vitória em transformar Luanda num cenário de destruição.

O país precisa, sim, de reformas, de mais diálogo, de escutar o povo. Mas, o que aconteceu neste dia 28 de Julho não foi grito de mudança. Foi um insulto ao próprio povo.

Se aquilo foi greve, então foi uma greve contra o bom senso. E, pior ainda, uma greve contra o futuro de todos nós. Na verdade, foi uma greve da vergonha!

*Jornalista

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