O orgulho e a bajulação como formas de subsistência e progressão social: uma reflexão sobre a realidade angolana – Garcia Bige
O orgulho e a bajulação como formas de subsistência e progressão social: uma reflexão sobre a realidade angolana – Garcia Bige
Garcia Bige

O orgulho e a bajulação tornaram-se práticas profundamente arraigadas na sociedade, ultrapassando o âmbito meramente político-governativo, como muitos defendem. Estas práticas atingem todos os setores da sociedade: famílias, igrejas, associações, instituições e organizações. Sob esta ótica, é evidente que se trata de um problema coletivo que deve ser enfrentado por todos os cidadãos e classes sociais angolanas.

Não se trata de procurar culpados, mas de agir em unidade, por meio de ações práticas e concretas para erradicar este mal – possivelmente o maior desafio do nosso tempo, mais pernicioso do que a guerra, que, com a ajuda de Deus, conseguimos superar.

Se formos capazes de vencer a guerra, também podemos superar este flagelo que a corrupção nos impõe, aprisionando-nos numa pobreza que começa no moral, contamina a mentalidade e culmina na material.

O problema central identificado é a influência corrosiva do orgulho e da bajulação na sociedade angolana, e globalmente. Essas práticas consolidaram-se como ferramentas de subsistência e progressão social em praticamente todos os âmbitos: social, político, empresarial, organizacional e religioso.

Tal dinâmica tende a perpetuar desigualdades, aprofundar injustiças sociais, acentuar a divisão entre ricos e pobres e enfraquecer os esforços para a paz social e o bem-estar da população. O objetivo é claro: combater essas práticas, substituindo-as por valores de mérito, honestidade e cooperação genuína, como forma de promover uma sociedade mais justa, ou pelo menos, razoável.

A erradicação ou, ao menos, a minimização do orgulho e da bajulação é um passo essencial para redefinir o acesso às oportunidades, garantindo que estas não sejam moldadas por dinâmicas de manipulação emocional ou reconhecimento falso, mas por transparência e ética.

A hipótese conclusiva deste artigo sugere que, ao fomentar uma cultura de integridade e transparência, será possível inspirar angolanos e outras sociedades a adotar práticas mais justas.

Assim como Angola superou as adversidades da guerra, é urgente mobilizar esforços para transformar suas estruturas sociais, abandonando o orgulho e a bajulação como instrumentos de poder e abraçando princípios que combatam a fome e a pobreza ainda predominantes no país.

Orgulho e bajulação: dinâmicas de poder e sociedade em Angola

O orgulho e a bajulação apresentam-se como práticas profundamente arraigadas na política, religião, sociedade civil e outras esferas sociais, moldando as relações humanas e minando a coesão social. Em Angola, estas dinâmicas têm impactos particularmente significativos.

Para Mandeville (2017, p. 54): “No homem, o mais perfeito dos animais, o orgulho é tão inseparável de sua essência que, sem ele, o composto do qual é feito ficaria sem um dos seus principais ingredientes.”

Este orgulho, sendo inato, torna-se especialmente suscetível à manipulação através da bajulação, que desponta como uma ferramenta estratégica, sobretudo em contextos políticos e religiosos.

Segundo o autor: “Observando que ninguém é tão selvagem a ponto de não se encantar com um elogio, nem tão baixo a ponto de pacientemente suportar o desprezo, concluíram acertadamente que a lisonja deve ser o mais poderoso argumento a ser usado com as criaturas humanas” (2017, p. 52).

No contexto contemporâneo angolano, a bajulação consolidou-se como um meio eficaz para ascensão, enquanto a verdade encontra certa resistência. Esta realidade exacerba a disparidade entre ricos e pobres, um fenómeno que tem vindo a intensificar-se nas últimas décadas.

A polarização social, assim agravada, enfraquece a classe média, criando um cenário de desigualdade estrutural. Um exemplo gritante é a diferença entre o salário mínimo e o custo da cesta básica, uma equação que impede muitas famílias de garantirem sequer três refeições diárias.

Tal panorama ilustra um sistema em que orgulho e bajulação contribuem para perpetuar desigualdades. Nem mesmo os mais instruídos estão imunes aos encantos da bajulação. Como alerta Mandeville (2017, p. 59): “Não há homem, por mais capaz ou inteligente que seja, completamente à prova do encantamento da bajulação se esta é engenhosamente realizada e ajustada às suas habilidades. Ou seja, o que você diz em louvor a uma cidade inteira é recebido com prazer por todos os habitantes. Fale em homenagem às letras em geral, e todo homem culto se sentirá particularmente obsequioso em relação a você.”

Assim, no pós-guerra, o maior inimigo a ser combatido por todos é a ‘bajulação’. Este fenómeno faz vítimas inocentes diariamente, num ambiente onde as relações não são genuínas, mas moldadas por interesses, marcadas pela amizade interesseira com titulares de cargos políticos e pelas benesses temporárias que certos cargos político-administrativos garantem enquanto durar essa ‘amizade amarela’ – amizade falsa, desprovida de sinceridade e valores éticos.

Hume (1999, p. 158) apresenta uma crítica perspicaz ao orgulho humano, sublinhando a sua superficialidade e a incapacidade de gerar um prazer interior genuíno: “E bem seria se ao menos esse orgulho tivesse a possibilidade de sustentar-se a si mesmo, produzindo um verdadeiro prazer interior, embora melancólico e severo. Mas, este impotente orgulho não é capaz de fazer mais do que regular o exterior, para, com infinito sofrimento e atenção, compor a linguagem e as atitudes de maneira a dar aparência de dignidade filosófica, a fim de iludir o vulgo ignorante.”

Portanto, o orgulho, assim como a bajulação, apresenta-se como uma ferramenta eficaz na manipulação das dinâmicas sociais e políticas, favorecendo um restrito grupo privilegiado, ao passo que a maioria permanece relegada à margem, submetida a desigualdades que, de forma insidiosa, se aprofundam com o tempo.

Um chamado à mudança

Conforme Mandeville (2017, p. 61-62): “A busca por reconhecimento, pela qual muitos sacrificam a paz e até mesmo a saúde, representa uma forma de recompensa intangível baseada no amor próprio e na expectativa de elogios. Sem a propensão natural do homem à lisonja, provavelmente, os políticos teriam dificuldade em alcançar seus objetivos, evidenciando, assim, a relevância dos vícios na sociedade, muitas vezes camuflados”.

Superar o orgulho e a bajulação como formas de subsistência e progressão social é um desafio crucial para Angola e o mundo. Assim como o país superou a guerra armada, pode agora transformar suas dinâmicas sociais, substituindo esses vícios por valores como mérito, honestidade e oportunidades reais para todos.

Que esta reflexão inspire cada angolano a rejeitar práticas que perpetuam injustiças e a trabalhar pela construção de um futuro mais justo, solidário e próspero. Que a transformação comece hoje, guiada pela integridade e pelo compromisso com o bem coletivo.

*Docente universitário, especialista em Comunicação Política, Diplomacia, Políticas Públicas e Cooperação Internacional

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