UNITA e a gestão dos seus recursos – Artur Cussendala
UNITA e a gestão dos seus recursos - Artur Cussendala
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A UNITA, principal força da oposição em Angola, enfrenta um crescente escrutínio interno e público sobre a forma como gere os recursos financeiros que recebe.

Segundo a legislação angolana, os partidos com representação parlamentar têm direito a financiamento do Estado, e, nesse âmbito, a UNITA recebe anualmente verbas consideráveis dos cofres públicos (OGE).

Além dessa fonte, o partido obtém receitas provenientes das contribuições dos seus 90 deputados e centenas de outros distribuídos em instituições de Estado como por exemplo na CNE. E ainda cobram quotas dos militantes como previsto nos seus estatutos.

Contudo, essa base de financiamento contrasta com as declarações de alguns dirigentes, que afirmam publicamente que “na UNITA não se pagam salários nem subsídios”.

Ao mesmo tempo, multiplicam-se as vozes dentro do próprio partido que denunciam a falta de condições nas suas estruturas locais e de base.

Militantes relatam a existência de comités degradados, alguns sem telhado, portas ou mobiliário básico, e outros com rendas em atraso ou sem equipamentos de trabalho, como secretarias, cadeiras e computadores.

Estas contradições levantam uma questão central: como são aplicados os recursos que entram nos cofres da UNITA? Prestam contas a quem os fornece?

A ausência de informação pública sobre a gestão financeira do partido tem alimentado especulações. Alguns observadores e militantes do próprio partido, sugerem que parte das verbas poderá estar a ser canalizada para fins pessoais da elite que cerca o Presidente ou para investimentos no exterior com realce para compra de imóveis em Portugal, embora tais alegações careçam de provas concretas.

O que parece claro é que há uma perceção crescente de desorganização e falta de transparência.

Do ponto de vista político, esta situação coloca a UNITA diante de um desafio estratégico. O partido construiu grande parte do seu capital político com base num discurso de ética, moralização da vida pública e combate à corrupção, valores apresentados como contraponto ao modelo de governação do MPLA.

No entanto, se não conseguir demonstrar que aplica de forma responsável e transparente os recursos que administra, arrisca-se a perder credibilidade junto do eleitorado e a fragilizar o seu posicionamento como alternativa política.

A gestão interna de um partido reflete a sua coerência com os princípios que defende para o país. Nesse sentido, a UNITA tem diante de si uma oportunidade de tornar pública a sua contabilidade, reforçar a transparência e modernizar as suas estruturas.

Caso contrário, corre o risco de ver o seu discurso de mudança comprometido pela prática interna e uma contradição que pode ter impacto profundo no cenário político angolano.

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