
Há gestos que dizem mais do que mil palavras, e há medalhas que pesam menos do que uma folha de papel. A condecoração de Justino Capapinha, primeiro secretário nacional da JMPLA, com a Medalha da Paz e Desenvolvimento, é um desses gestos simbólicos que escancaram uma verdade desconfortável, que em Angola, o mérito já não é critério, é encenação.
As cerimónias que deveriam celebrar meio século de independência tornou-se um desfile de fidelidades políticas. Sob o pretexto de homenagear “figuras que contribuíram para o desenvolvimento nacional”, o Estado decidiu agraciar um dirigente juvenil cuja própria legitimidade é contestada, e cujas credenciais públicas de liderança são, no mínimo, questionáveis. A medalha brilha, mas o sentido apaga-se.
Capapinha, que chegou à liderança da JMPLA em meio a denúncias de fraude eleitoral, foi erguido ao pedestal da paz e do progresso como se a sua curta e opaca trajetória política tivesse transformado a vida de milhões de jovens.
É irónico – e trágico – que o mesmo jovem que deveria representar a esperança da nova geração simbolize hoje a crise moral e institucional da juventude partidária.
O último congresso da JMPLA, recorde-se, foi manchado por discrepâncias grotescas. Mais votos do que delegados, substituições sem formalização, credenciais falsas. Tudo isso foi denunciado, documentado e depois convenientemente esquecido.
Agora, com a medalha ao peito, Justino Capapinha parece premiado não pela sua liderança, mas pela sua utilidade. O mérito foi substituído pela obediência.
Há algo profundamente simbólico neste gesto. A juventude do MPLA, que deveria ser força crítica, criativa e transformadora, é transformada em vitrine de conformismo.
Pois, a condecoração de Capapinha não é apenas um acto de reconhecimento, é um recado. Diz aos jovens que a lealdade ao poder compensa mais do que a coragem de questioná-lo. Que o brilho da medalha é mais valioso do que a integridade do percurso.
Mas o que realmente se celebra aqui? A paz que não se traduz em oportunidades? O desenvolvimento que não chega às periferias? Ou o silêncio disciplinado de uma geração ensinada a aplaudir sem perguntar?
As medalhas, como as palavras, têm história. No tempo de outra senhora, eram símbolos de bravura, de sacrifício, de serviço à pátria. Hoje, parecem carimbos de validação política, distribuídos como prémios de presença num teatro onde o enredo já foi escrito.
Quando tudo se condecora, nada se distingue. E quando o mérito se confunde com a conveniência, o reconhecimento torna-se caricatura.
Justino Capapinha disse dedicar a medalha “a todos os jovens angolanos”. A frase soa bonita, mas o eco é oco. Porque os jovens que trabalham nos mercados informais, estudam em condições que ferem a dignidade humana, lutam todos santos dias para não morrer de desespero por falta de oportunidade e sobrevivem todos os dias nos contentores de lixo, esses não precisam de medalhas simbólicas.
Precisam de oportunidades, voz e dignidade. Precisam que alguém os represente com verdade, não com discursos moldados para agradar o chefe.
Pois, a juventude real – a que enfrenta desemprego, exclusão social e desilusão política – dificilmente reconhecerá nesse gesto. Falar em nome de todos sem ouvir ninguém é a essência da desconexão que corrói a JMPLA.
Essa vergonhosa condecoração é o retrato claro de um país que troca substância por espetáculo. Que confunde promoção partidária com patriotismo. E que, ao tentar fabricar heróis de ocasião, esquece os verdadeiros, os anónimos, os que constroem o país sem câmeras nem aplausos.
Portanto, as medalhas continuarão a brilhar nas lapelas dos mesmos rostos. Mas o país real, o que se vive nas ruas de milhares de bairros pobres angolanas sem saneamento básico, nas escolas sem carteiras, e nos hospitais públicos sem medicamentos e humanidade no atendimento aos pacientes, há muito deixou de acreditar nesse brilho artificial.
A história, que é implacável, saberá distinguir quem serviu a pátria de quem apenas se serviu dela. Os não condecorados hoje, que somos nós, serão reconhecidos no novo amanhã que não tardará a chegar.