Proibição de vendedores ambulantes em Luanda mancha clima do jogo Angola-Argentina
Proibição de vendedores ambulantes em Luanda mancha clima do jogo Angola-Argentina
zunga e policia

A poucos dias do aguardado jogo amistoso entre as selecções de Angola e Argentina, marcado para 14 de Novembro, no Estádio 11 de Novembro, no âmbito das comemorações dos 50 anos da independência nacional, a capital vive um ambiente de entusiasmo misturado com indignação.

Centenas de vendedores ambulantes estão a ser impedidos, como constatou a equipa de reportagem do Imparcial Press, de exercer as suas actividades por ordens dos fiscais, que justificam a medida com “questões de segurança e organização” ligadas ao evento desportivo.

A proibição atinge, sobretudo, zungueiros e “mamãs” que vendem nas áreas que dão acesso ao Estádio 11 de Novembro e na zona do Calemba 2, consideradas de maior movimentação nos dias que antecedem o jogo.

“Eles dizem que só podemos vender depois do jogo. Mas nós vivemos disto. Se não vendermos, como é que vamos comer?”, questionou Central Mix, jovem vendedor ambulante que há anos sobrevive do comércio informal.

De acordo com testemunhos de vários comerciantes, os fiscais começaram ainda na semana passada, com apreensões de mercadorias e dispersão de zungueiras e mamãs que operavam nas praças e passeios.

Muitos afirmam que não trabalham sequer nas imediações directas do estádio, o que torna a medida ainda mais incompreensível.

“Estão a usar o jogo como desculpa. Desde a semana passada que combatem os vendedores, como se fôssemos criminosos. Queremos apenas trabalhar”, lamentou outra vendedora ambulante.

“As medidas são preventivas, para evitar confusão e garantir o sucesso do evento”, explicou uma fonte sob anonimato, sem precisar quando os vendedores poderão retomar as suas actividades.

Críticas ao gasto

Enquanto os pequenos comerciantes lutam pelo direito de trabalhar, organizações da sociedade civil criticam o que classificam como “excessos e insensibilidade social” na gestão dos recursos públicos associados ao evento.

As organizações não governamentais, Associação Luterana para o Desenvolvimento de Angola – ALDA Associação Omunga Organizada pelo Observatório para a Coesão Social e Justiça Associação UYELE Friends of Angola (FOA), através de uma carta aberta, expressam profunda indignação e séria preocupação com a forma como os recursos públicos estão a ser geridos em Angola.

Segundo o grupo, o Estado angolano terá gasto entre 10 e 12 milhões de dólares para assegurar a presença da selecção argentina em Luanda, além de 13,6 milhões de dólares destinados à segunda fase de reabilitação do Estádio Nacional 11 de Novembro.

O montante total – superior a 25 milhões de dólares – contrasta com a realidade de milhares de famílias que vivem da economia informal, muitas das quais agora impedidas de trabalhar por conta do mesmo evento que consome esses recursos.

Guerra nas redes sociais

Enquanto nas ruas reina a apreensão, as redes sociais tornaram-se palco de campanhas opostas. De um lado, multiplicam-se publicações que apelam à adesão em massa ao estádio, com vídeos, hashtags e grupos de fãs a promoverem o jogo como “a maior festa do futebol angolano”.

Do outro, cresce um movimento de protesto digital, com cidadãos a apelarem ao boicote e a convidarem a população a “não ir ao estádio” em sinal de descontentamento com os altos custos do evento.

Algumas publicações chegam a propor “apagões simbólicos” durante o jogo, como forma de protesto silencioso contra o que consideram “um desperdício de recursos públicos”.

Para organizações da sociedade civil, o contraste é gritante. Enquanto milhares de dólares são investidos num jogo de exibição, trabalhadores informais são expulsos dos seus locais de sustento, sem aviso nem alternativa.

“É revoltante. Há gente que mal tem o que comer e o Estado está a gastar milhões para trazer a Argentina. Isto mostra as prioridades invertidas do país”, comentou um activista ligado ao sector social, em declarações ao Imparcial Press.

O sentimento é partilhado entre os ambulantes: “Nós queríamos também festejar o jogo, mas não podemos, porque estamos a ser perseguidos”, lamenta uma vendedora, com os produtos recolhidos numa sacola plástica.

Fora das quatro linhas

O jogo Angola–Argentina, que promete encher o Estádio 11 de Novembro, transformou-se em muito mais do que um evento desportivo. Tornou-se um espelho das desigualdades e do descontentamento social que marcam o quotidiano de muitos angolanos.

Enquanto uns celebram a oportunidade de ver Lionel Messi e companhia em solo nacional, outros veem o evento como um símbolo da desconexão entre o poder e o povo.

Nas ruas vazias do Calemba e nas praças desertas do Camama, o entusiasmo deu lugar à incerteza, e a esperança de uma vitória dentro das quatro linhas não apaga, para muitos, a derrota social fora delas.

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