Angola: Legalização da poligamia em jogo
Angola: Legalização da poligamia em jogo
poligamia

O jornalista e mestre em sociologia Augusto Pedro Makuta Nkondo aconselha o Estado angolano para legalizar a poligamia em Angola, para se evitar fuga à paternidade a fim de proteger os filhos de relações extra-conjugais, que muitas vezes não são reconhecidos pelos seus progenitores.

Em entrevista ao Pungo a Ndongo, Makuta Nkondo justifica que não faz sentido que os progenitores recusem a assumpção dos seus filhos feitos com amantes, como tem acontecido no nosso país, cujo gráfico de casos aumenta, socorrendo-se de relatos que vêm à tona, através da mídia e do Tribunal de Família.

Entende que uma relação poligâmica deve ter o mesmo tratamento que uma monogâmica, para se evitar ciúmes e conflitos entre as esposas e os filhos, para se construir uma única família forte e sã, como acontecia no passado, diferente do que acontece hoje.

Para o sociólogo, o povo bantu é polígamo, desde a sua existência, pelo que insiste que o Estado deva institucionalizar a poligamia na Constituição e no Código de Família, como acontece noutros países do mundo, particularmente em África, independentemente da matriz religiosa.

Segundo Makuta Nkondo, “a poligamia existe desde os nossos antepassados, não é proibido pratica-la. É só saber administrar as mulheres, dar-lhes um tratamento igual, não colocar uma acima da outra, para se evitar conflitos”, aconselha.

O nosso entrevistado, que se assume como polígamo, diz que não encontra justificação de, até agora, o Estado não legalizar a poligamia, tendo em conta o número crescente de homens que têm amantes. “Não fazer isto é uma hipocrisia”, declara.

Diz que se a poligamia for reconhecida pelas autoridades, dar-se-á um grande avanço na proteção da mulher e dos filhos que vivem escondidos, porque o homem nunca os apre sentou à sua primeira esposa e aos outros fi lhos, por razões que considera inconfessas.

“Sou polígamo, as minhas mulheres são amigas, frequentam-se, os meus filhos também são todos unidos. Isto é o mais importante para um polígamo. O feio é esconder esta realidade, mas que anda à vista de todos”.

Para o sociólogo, por mais que se esconda ou se finja que a poligamia é reduzida, ela está em crescimento em Angola, e a melhor forma de cuidar dela é oficializa-la, sem tabu, “por que é uma relação normal”.

“Hoje temos homens que recusam que os filhos lhes chamem de papá, para evitar que a esposa casada saiba. O melhor mesmo é assumir esta relação e faz muito bem”, reforça, para quem, este gesto é um anti-social e desrespeitoso ao filho e a progenitora.

No seu entendimento, todos os filhos e todas mulheres numa relação poligâmica “têm os meus direitos, deveres, obrigações e nenhum tem tratamento especial”, declara, avançando que a poligamia deve ser encarada com realidade.

A poligamia é uma defesa colectiva

Já o antropólogo Tunga Alberto, numa entrevista que concedera ao autor deste texto, faz tempo, defendeu a necessidade de a sociedade angolana assumir abertamente as relações afectivas poligâmicas, considerando-as de instituições familiares que formam uma defesa colectiva, mas que nos últimos tempos estão a cair em desuso.

Tunga Alberto definiu a poligamia como sendo “um alicerce seguro de identidade familiar, fonte de sustentabilidade”, que protege os interesses de uma linhagem, desde os tempos mais remotos da existência da humanidade.

Segundo a fonte, a poligamia sempre existiu, e, geralmente, foi praticada por descendências, que, para além de constituir defesa colectiva no seio das famílias, também serve para exibir o “poderio político, militar, económico social e cultural” das gerações.

No dias que correm, segundo a fonte, a poligamia está a perder a sua identidade cultural, em Angola, alegando que os polígamos deixaram de exercer o seu verdadeiro papel de “pai e esposo”, deixando a família à sua sorte.

No entender da fonte, hoje, as relações poligâmicas estão perdendo paulatinamente a sua matriz tradicional, havendo homens que se assumem como polígamos, mas que não cumprem o papel de um chefe de família “porque a maioria furta-se e esconde-se para não ser vista pelas famílias”, desabafou.

Afirmou ser necessário que os polígamos em Angola, sejam elas da classe baixa ou média, assumam em plenitude as suas várias relações, referindo que “os filhos e as mulheres desta mesma relação devem ter os mesmos direitos que os das relações monogâmicas”.

Partilha do pouco

Albertina Mayamba, 72 anos, diz que tudo começou a ser deturpado com o abandono da cultura africana para a europeia, ao ponto de ganhar outro significado, quando se passou a chamar a companheira com quem temos o mesmo marido de rival, sinónimo de antagonista, competidora ou até adversária.

“Não se trata de nenhuma adversária e muito menos inimiga, pois tanto eu como ela somos esposas do mesmo marido e como tal companheiras que partilham tudo do nosso senhor”, defendeu Mayamba, hoje na condição de viúva beneficiando do apoio não só dos seus filhos, como também do seu falecido marido.

“É uma inversão de valores”, reconhece a ancião que lamenta o facto de termos abandonado muitas coisas boas que a nossa terra tinha antes dos colonos ocuparem a nossa terra.

“Se toda a mulher quer ter marido e estes são poucos, então onde vão sair os homens que vão casar as restantes”, questiona, reprovando a ideia de alguns homens irem buscar mulheres de outras terras, que é o caso do seu neto que foi estudar longe e veio com uma branca que “nem consegue buscar água aqui próximo”, deixando a tarefa para o marido.

Entende que no meio rural ainda há um certo respeito pelas coisas boas dos nossos ante passados, mas lamenta que é exactamente no meio urbano, onde há mais mentiras por parte de muitos homens que dizem que estão de viagem, quando na verdade estão na outra, tudo porque não conseguem assumir publicamente a outra relação, em muitos casos já com filhos.

Por sua vez, Nsimba Maria resume apenas que sempre nasceram mais mulheres do que homens. Parteira conceituada, já na condição de reformada, depois de 40 anos de trabalho, Nsimba diz que o segredo desta realidade está no facto de em cada turno de trabalho, quando estava no activo verificou que o maior número de nacimentos era de mulheres.

Em face disso, se um homem pode ou não ficar com mais de uma mulher, Nsimba diz ser algo muito pessoal. “A verdade é que todas as mulheres, com a excepção das madres, querem ter um companheiro e a decisão de serem duas ou mais para um mesmo companheiro também é muito pessoal”, sublinha a anciã que não condena o homem que parte para mais uma relação.

Estática da ONU

Um relatório do primeiro trimestre de 2019 da Organização das Nações (ONU) indica que há 7,8 mil milhões de pessoas no mundo, das quais 5,9 mil milhões correspondem a mulheres e 2,2 mil milhões são homens.

“Há 7,8 mil milhões de pessoas no mundo. Mulheres: 5,9 mil milhões. Homens: 2,2 mil milhões. De 2,2 mil milhões de homens, mil milhões já são casados, 130 milhões estão na prisão, 70 milhões sofrem de doenças mentais. Isto significa que apenas existem cerca de mil milhões de homens disponíveis para casar e dentro desse número 50% estão desempregados, 3% são gays, 5% são padres católicos, 10% são os seus familiares e 32% têm mais de 66 anos”, refere o documento de Julho do ano em causa.

O relatório deixa no final um alerta às mulheres nestes termos: “Pensem duas vezes antes de tratarem os homens como lixo, pois podem passar o resto da vida à espera de um cavalheiro”.

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