
Doze obras que exploram identidades fragmentadas, rituais de passagem e a relação entre vida, morte e regeneração estão patentes ao público, desde quarta-feira, no Instituto Camões – Centro Cultural Português, em Luanda, no âmbito da exposição “Unearthed – Travessias Fragmentárias”, da artista angolana Anita Sambanje, com curadoria de Luamba Muinga.
A mostra, que permanecerá aberta até 9 de Janeiro de 2026, reúne um total de 12 trabalhos, entre nove fotografias produzidas com técnicas mistas — digitais e de estúdio —, uma escultura, uma obra de vídeo-arte e uma performance, propondo uma reflexão profunda sobre as cosmologias africanas e os ciclos da existência humana.
Anita Sambanje explica que a exposição se inspira nas tradições orais africanas, com destaque para a cultura yoruba, grupo etnolinguístico predominante na Nigéria.
Segundo a artista, o projecto aborda o ciclo da vida nas cosmologias africanas, com o objectivo de estimular uma reflexão sobre as raízes da espiritualidade africana e a reconexão com a ancestralidade.
“Acredito que ainda temos muito por desenvolver em relação à ancestralidade africana. É preciso voltar às nossas raízes, porque ainda existem muitas mentes colonizadas. O colono fez-nos acreditar que a nossa ancestralidade era pecado”, afirmou.
Por sua vez, o curador Luamba Muinga esclareceu que a exposição estabelece um diálogo entre a obra de Anita Sambanje e a filosofia espiritual yoruba, em particular o fenómeno “abiku”, que se refere a seres que vivem entre mundos, geralmente crianças consideradas “nascidas para morrer”.
De acordo com essa tradição, explicou, essas crianças nascem, morrem e tendem a regressar à mesma família, criando ciclos prolongados de dor até que sejam realizados rituais específicos para interromper a maldição.
Para o curador, esta concepção oferece um ponto de convergência com o trabalho da artista, que investiga os ciclos da vida humana e as relações entre o corpo material e o imaterial.
“Essa tradição, profundamente enraizada na cultura yoruba, cria um terreno comum entre a arte contemporânea e a ancestralidade, permitindo uma reflexão sobre identidade, espiritualidade e existência”, sublinhou.
Luamba Muinga destacou ainda que “Unearthed – Travessias Fragmentárias” incorpora uma dimensão ritualística, traduzida pela artista em performance. Esses rituais, concebidos para quebrar o ciclo de nascimento e morte, revelam simultaneamente a dor das famílias e a fragmentação identitária do ser que retorna.
“Ao articular arte, espiritualidade e reflexão filosófica, a mostra investiga as múltiplas travessias que constituem a existência humana”, concluiu.
Anita Sambanje é uma artista multimédia que vive e trabalha em Angola, explorando a relação entre seres, corpos e espíritos, bem como o limiar entre a vida, a morte e o que existe para além delas.
O seu percurso inclui exposições e residências artísticas em Angola, África do Sul e Namíbia, com participações em projectos como Unearthed Traces (2023), Through the Lens Collective Portrait Show (Joanesburgo, 2023) e Bakers Bay Artist Retreat Exhibitions (Windhoek e Oranjemund, 2023).