
A presença do general Francisco Higino Lopes Carneiro no acto central das comemorações do 69.º aniversário do MPLA, realizado no último sábado, na centralidade do Kilamba, nas imediações do futuro Hospital dos Queimados, em Luanda, terá causado desconforto no círculo próximo do presidente do partido e da República, João Lourenço.
Segundo informações apuradas, no dia seguinte à celebração, o Procurador-Geral da República, general Hélder Pitta Gróz, foi chamado com carácter de urgência a um encontro com o ministro de Estado e Chefe da Casa Militar do Presidente da República, general Francisco Pereira Furtado, e com o director-geral do Serviço de Inteligência e Segurança de Estado (SINSE), general Fernando Garcia Miala.
Na agenda da reunião constaram os processos-crime n.º 46/19 e n.º 48/20, que têm como arguido o antigo governador das províncias do Cuando Cubango (já extinto) e de Luanda, actualmente sob instrução na Direcção Nacional de Investigação e Acção Penal (DNIAP).
De acordo com fontes do Imparcial Press, o encontro, realizado nas imediações do Mausoléu António Agostinho Neto, terá servido para pressionar a Procuradoria-Geral da República a acelerar a tramitação dos referidos processos e a remetê-los ao Tribunal Supremo, com vista à marcação de julgamento logo após o período das férias judiciais, que decorrem entre 22 de Dezembro e o final de Fevereiro de 2026.
Como noticiado anteriormente por este jornal, o ministro de Estado e Director do Gabinete do Presidente da República, Edeltrudes Maurício Fernandes Gaspar da Costa, terá igualmente orientado a reactivação de processos-crime contra o general Higino Carneiro que se encontravam paralisados há vários anos.
Fontes próximas do processo interpretam este movimento como uma tentativa de fragilização política do general, na sequência do anúncio público da sua intenção de concorrer à presidência do MPLA no congresso ordinário previsto para Dezembro de 2026.
A leitura dominante é a de que o recurso à via judicial surge num contexto de crescente tensão interna no partido no poder, em torno do debate sobre a abertura ou não do processo sucessório.
Apesar das declarações duras e pouco conciliatórias proferidas por João Lourenço durante o seu discurso no acto comemorativo, dirigidas aos militantes que defendem um congresso com múltiplas candidaturas, Higino Carneiro optou por uma postura de contenção pública.
Numa publicação na sua página oficial do Facebook, o general sublinhou que esteve no Kilamba “para celebrar o nosso glorioso MPLA”, classificando o evento como “um dia de afirmação da nossa história, dos nossos valores e do compromisso permanente com a paz, a unidade nacional e o desenvolvimento de Angola”.
Na mesma mensagem, destacou que “a força do MPLA reside no povo – nos seus militantes, simpatizantes e amigos – na sua capacidade de resistir, manter-se coeso, trabalhar com dedicação e acreditar, sempre, num futuro melhor para todos”.
Higino Carneiro concluiu reafirmando o seu alinhamento com os princípios partidários, garantindo que continuará “firme, com disciplina, patriotismo e elevado sentido de missão, respeitando o Estatuto e honrando os princípios que fazem do MPLA a grande força política de Angola”.
O general reformado foi ouvido nos dias 9 e 10 de Dezembro, e a PGR afirma que os processos seguem o curso normal da investigação, no âmbito das acções de combate à corrupção e à criminalidade económico-financeira.