
Os Estados Unidos da América manifestaram forte preocupação com o ressurgimento da violência no leste da República Democrática do Congo (RDC) e acusaram directamente o Ruanda de estar a apoiar, de forma activa e prolongada, o grupo armado M23, em violação dos compromissos assumidos nos recentes acordos de paz.
A posição foi expressa na última sexta-feira pelo embaixador Mike Waltz, representante permanente dos Estados Unidos nas Nações Unidas, durante uma intervenção no Conselho de Segurança, em Nova Iorque.
O diplomata norte-americano recordou que, a 4 de Dezembro, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reuniu em Washington os Presidentes da RDC, Félix Tshisekedi, e do Ruanda, Paul Kagame, para a assinatura dos Acordos de Washington e do Quadro de Integração Económica Regional, iniciativas apresentadas como um esforço genuíno em prol da paz.
No entanto, segundo Waltz, os compromissos assumidos não estão a ser respeitados. “Os Estados Unidos estão profundamente preocupados e extremamente desapontados com o ressurgimento da violência no leste da RDC”, afirmou, sublinhando que os processos de paz exigem o cumprimento efectivo das obrigações por todas as partes envolvidas.
De acordo com as informações partilhadas por Washington, desde o seu reaparecimento em 2021, o Ruanda tem exercido controlo estratégico sobre o M23 e sobre o seu braço político, a Aliança do Rio Congo (AFC), utilizando estes movimentos para alcançar objectivos geopolíticos no leste congolês.
O embaixador afirmou que Kigali tem estado “intimamente envolvida no planeamento e na execução da guerra”, fornecendo direcção militar e política ao M23 e à AFC ao longo de vários anos.
Os Estados Unidos acusam ainda as Forças de Defesa do Ruanda de prestarem apoio material, logístico e de treino ao M23, bem como de terem combatido directamente em território congolês ao lado do grupo armado.
Segundo Waltz, no início de Dezembro encontravam-se entre 5.000 e 7.000 militares ruandeses no leste da RDC, número que poderá ter aumentado com a mais recente ofensiva.
O diplomata norte-americano revelou também que, nos últimos meses, o Ruanda mobilizou mísseis terra-ar e outros armamentos pesados e sofisticados nas províncias do Kivu do Norte e do Sul, para apoiar o M23.
Acrescentou que forças ruandesas estiveram posicionadas ao longo das linhas da frente durante a recente ofensiva para tomar a cidade de Uvira.
Washington denunciou igualmente relatos credíveis de um aumento da utilização de drones suicidas e de artilharia, tanto pelo M23 como pelo Ruanda, incluindo ataques que terão atingido o Burundi, alertando que a região está a ser empurrada para uma escalada de instabilidade e conflito, em contraste com os esforços diplomáticos em curso.
Face a este cenário, os Estados Unidos declararam-se profundamente preocupados com a presença contínua das forças ruandesas em território congolês e advertiram que irão recorrer a “todas as ferramentas disponíveis” para responsabilizar os actores que sabotem a paz.
Waltz apelou ao Ruanda para que cumpra os compromissos assumidos e reconheça o direito soberano da RDC de defender o seu território, incluindo a possibilidade de convidar forças burundesas para apoiar a sua segurança.
No que respeita à Missão de Estabilização da ONU na RDC (MONUSCO), os Estados Unidos reafirmaram o seu apoio e defenderam que a missão deve dispor das capacidades necessárias para apoiar a implementação dos acordos de Doha e de Washington.
Contudo, alertaram que o sucesso da MONUSCO está comprometido pelas restrições impostas pelo M23, que há meses bloqueia a liberdade de movimentos da missão, particularmente na região de Goma.
Waltz classificou como “hipocrisia” o facto de forças de manutenção da paz da ONU estarem cercadas por forças apoiadas por um Estado-membro que também contribui com tropas para missões da ONU.
Denunciou ainda operações de interferência cibernética e de falsificação electrónica atribuídas ao Ruanda, que estariam a paralisar as operações aéreas da MONUSCO.
“Exigimos o fim imediato desta obstrução”, afirmou o embaixador, considerando que tais acções violam os compromissos assumidos pelo M23 e pelo Ruanda nos acordos internacionais.
Os Estados Unidos reiteraram, por fim, a convicção de que estes acordos representam uma oportunidade histórica para pôr termo a décadas de conflito e sofrimento no leste da República Democrática do Congo.