O legado político de Fernando da Piedade Dias dos Santos “Nandó”
O legado político de Fernando da Piedade Dias dos Santos "Nandó"
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Fernando da Piedade Dias dos Santos, amplamente conhecido por “Nandó”, foi uma das figuras políticas mais marcantes da história recente de Angola. A sua carreira abrangeu os principais órgãos de poder do Estado, desde a segurança interna até ao Parlamento e à vice-presidência da República.

Com a sua morte, a 18 de Dezembro de 2025, aos 75 anos, a política angolana perde um dos seus grandes protagonistas das últimas décadas.

“Nandó” foi uma das figuras mais influentes e duradouras do aparelho de Estado angolano no período pós-independência. Nascido em Luanda, a 5 de Março de 1950, filho de imigrantes de São Tomé e Príncipe, construiu uma carreira que atravessou a segurança interna, o poder executivo e o legislativo, sempre no centro do regime liderado pelo MPLA.

Era primo do inditoso ex-Presidente José Eduardo dos Santos e da actual Primeira-Dama da República, Ana Afonso Dias Lourenço.

Ingressou no MPLA em 1971 e integrou as Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA), tendo, após a independência, iniciado o seu percurso no aparelho de segurança do Estado.

Em 1978, já ocupava cargos de chefia na então Polícia Popular de Angola, tornando-se Comandante-Geral da Polícia Nacional entre 1982 e 1985, um período marcado pela consolidação do Estado de partido único e pela repressão de dissidências políticas e sociais.

Durante a guerra civil, o comissário Nandó destacou-se como um quadro central da segurança interna. Foi vice-ministro do Interior e chefe dos Serviços de Informação (SINFO), estruturas frequentemente apontadas por organizações de direitos humanos e sectores da oposição, nomeadamente a UNITA, como instrumentos de perseguição política, detenções arbitrárias e controlo apertado da actividade partidária fora do MPLA.

Embora nunca tenha sido judicialmente responsabilizado, o seu nome permanece associado, no discurso crítico da oposição, a uma era de forte repressão política e limitação das liberdades civis, sobretudo nos anos mais intensos do conflito armado.

Entre 1999 e 2002, exerceu o cargo de ministro do Interior, acumulando poderes relevantes sobre a polícia, a segurança interna e os serviços de informação.

Foi neste período que se consolidou a sua imagem de homem de autoridade, disciplinador e implacável, admirado dentro do regime pela eficácia, mas duramente criticado por activistas e adversários políticos pelo estilo considerado musculado e pouco tolerante à oposição.

Com o fim formal da guerra, em 2002, foi nomeado Primeiro-Ministro, função que desempenhou até 2008, preenchendo um vazio constitucional num contexto de reconstrução nacional. Em 2009, licenciou-se em Direito pela Universidade Agostinho Neto, aos 59 anos, formação que complementou uma carreira essencialmente política e administrativa.

Com a entrada em vigor da Constituição de 2010, que extinguiu o cargo de Primeiro-Ministro, assumiu a vice-presidência da República até 2012. Posteriormente, foi eleito Presidente da Assembleia Nacional, cargo que exerceu durante uma década (2012–2022), tornando-se uma das figuras mais duradouras no topo do poder legislativo.

A sua presidência ficou marcada por críticas recorrentes da oposição, que o acusava de conduzir os trabalhos parlamentares de forma favorável ao MPLA e de limitar o debate político plural.

Pese embora, há uma ala da oposição, inclusive da UNITA, que o considerava um líder capaz de escutar e unir as bancadas parlamentares para alcançar consensos.

Paralelamente ao seu percurso institucional, Nandó sempre foi visto como um homem de bastidores, prudente e estratega. Evitava a exposição mediática, raramente concedia entrevistas e geria cuidadosamente o silêncio político, consciente do peso simbólico do seu trajecto.

No seu partido (MPLA), reconheciam-lhe uma vasta rede de lealdades, sobretudo nos sectores da segurança e da administração pública, onde muitos quadros fizeram carreira sob a sua tutela.

Ao longo dos anos, também surgiram denúncias públicas – nunca formalizadas judicialmente – sobre alegada protecção a familiares (nomeadamente filhos) envolvidos em comportamentos abusivos ou situações de privilégio, críticas comuns dirigidas a figuras históricas do regime.

Esses episódios, amplamente comentados em círculos políticos e na sociedade civil, alimentaram a percepção de impunidade associada às elites do poder, embora não tenham resultado em processos judiciais conhecidos contra o antigo dirigente.

Em 2022, após as eleições gerais, suspendeu o seu mandato parlamentar, passando a beneficiar do estatuto legal de ex-Vice-Presidente da República.

Em Novembro de 2025, foi condecorado pelo Presidente João Lourenço com a Medalha da Classe Independência, no âmbito das comemorações dos 50 anos da Independência Nacional, gesto que reforçou a leitura de que continuava a ser uma figura respeitada no seio do regime.

Nos bastidores, Fernando da Piedade Dias dos Santos era apontado como potencial candidato à liderança do MPLA, ambição que confidenciou a círculos restritos. Caso tivesse avançado, poderia ter conquistado o único cargo máximo que ainda não ocupou: o de Presidente da República.

Aliados descrevem-no como um dirigente experiente e humanista – tendo, por exemplo, salvo da morte vários dirigentes da UNITA na ressaca das eleições de 1992 – com uma “folha de serviço” extensa, enquanto críticos alertam que o seu legado está indissociavelmente ligado a um período de autoritarismo, guerra e restrição de liberdades.

Entre a imagem de homem de Estado e o peso das controvérsias históricas, Nandó permanece uma das figuras mais complexas e polarizadoras da política angolana contemporânea.

Faleceu esta quinta-feira, em Luanda, aos 75 anos, vítima de um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Segundo informações médicas da Clínica Girassol, Fernando da Piedade Dias dos Santos foi encontrado desacordado na área da sauna da sua residência.

A equipa de emergência foi accionada para o local, onde o paciente já se encontrava sem sinais vitais. Apesar das manobras de reanimação realizadas durante cerca de 40 minutos, não foi possível reverter o quadro, tendo o óbito sido declarado às 12h47.

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