
A apresentação pública de dois cidadãos apontados pelo Serviço de Investigação Criminal (SIC) como autores da agressão sexual contra a menor conhecida por “Belma” está a provocar uma forte onda de contestação e incredulidade entre a população, que duvida que os indivíduos exibidos pelas autoridades sejam, de facto, os mesmos que aparecem no vídeo chocante de mais de 11 minutos que circula nas redes sociais.
Os suspeitos, Henriques Coangana Essoco Herdeiro “Eguinho”, de 23 anos, e Fábio Gomes Gaspar, de 20 anos, foram apresentados terça-feira, na sede do SIC, em Cacuaco, como implicados nos crimes de abuso sexual, em concurso com ofensas à integridade física, praticados contra adolescente de 15 anos, no Luanda Sul, município de Viana.
No entanto, logo após a conferência de imprensa, multiplicaram-se nas redes sociais comentários de internautas que apontam diferenças físicas entre os indivíduos apresentados e os rostos visíveis no vídeo que abalou a sociedade angolana. Para muitos cidadãos, “as aparências não coincidem” e o caso está longe de convencer a opinião pública.
Em resposta às dúvidas, o porta-voz do SIC-Geral, superintendente-chefe Manuel Halaiwa, garantiu que se trata dos mesmos autores, afirmando que os suspeitos terão recorrido a ferramentas de Inteligência Artificial para alterar a aparência facial, numa tentativa de despistar as autoridades e a opinião pública.
O ambiente de desconfiança adensou-se quando jornalistas foram impedidos de entrevistar os suspeitos durante o acto de apresentação pública.
O Imparcial Press, presente no local, constatou que o SIC não autorizou qualquer contacto directo entre os alegados agressores e a imprensa, aumentando as suspeitas em torno do processo.
Entretanto, circulam informações segundo as quais os dois detidos poderão ser julgados sumariamente na próxima quarta-feira, 7 de Janeiro de 2026, em Luanda, um cenário que também levanta questionamentos, uma vez que crimes públicos desta gravidade obedecem, regra geral, a trâmites processuais mais longos e complexos.
O SIC reiterou, por outro lado, que nenhum dos implicados pertence às Forças Armadas Angolanas (FAA) ou a qualquer órgão de Defesa e Segurança, refutando rumores amplamente difundidos nas redes sociais.
Segundo Manuel Halaiwa, o crime ocorreu no dia 21 de Dezembro, na rua Horizonte, zona do Luanda Sul, embora o vídeo só tenha sido divulgado entre os dias 27 e 29.
O responsável esclareceu ainda que o sangue visível no corpo da vítima resultou do arremesso de uma garrafa de vidro, descartando o uso de arma de fogo.
Acrescentou que a menor não denunciou imediatamente o crime por receio de represálias, tendo as autoridades actuado assim que tomaram conhecimento do caso.
Henriques Coangana Essoco Herdeiro foi detido no Luanda Sul, com apoio de familiares, enquanto Fábio Gomes Gaspar, que se encontrava foragido, foi capturado no Zango, província do Icolo e Bengo.
Quanto às alegações de que a família da vítima estaria a ser afastada do processo, o SIC garante manter contacto permanente com os familiares, assegurando que não existe qualquer impedimento ao acompanhamento do caso.
Marcha de repúdio
Apesar dos esclarecimentos oficiais, a comoção gerada pelo caso levou organizações da sociedade civil a convocarem, para o próximo dia 3 de Janeiro de 2026, uma Marcha Nacional de Repúdio contra a violência sexual e física, em solidariedade à menor Belma e a outras vítimas registadas ao longo do ano, preste a findar.
A mobilização pretende chamar a atenção das autoridades para a necessidade de respostas mais eficazes, bem como exigir punições exemplares aos autores destes crimes.
Segundo activistas, nas últimas semanas multiplicaram-se relatos de mulheres indefesas vítimas de abusos sexuais, agressões físicas e exposição da intimidade nas redes sociais pelos próprios agressores.
Apesar de o Serviço de Investigação Criminal anunciar detenções, a percepção pública é de que muitos processos acabam por cair no esquecimento, sem acompanhamento transparente nem esclarecimento sobre as condenações aplicadas, alimentando um sentimento de impunidade.
Neste contexto, a sociedade civil acusa as autoridades de apresentarem “supostos agressores” que, em alguns casos, acabam por ser libertados, situação que mina a confiança dos cidadãos no sistema de justiça.
Organizações promotoras da marcha defendem que a tolerância social e institucional contribui para a repetição dos crimes, razão pela qual prometem erguer a voz sob o lema “Basta de Violência e Agressão Sexual contra Indefesas”.
A Marcha Nacional contra o Abuso Sexual terá lugar simultaneamente em Luanda, Benguela e Uíge. Na capital do país, a concentração está marcada para as 10h00, no Mercado do São Paulo, com destino ao Largo das Heroínas.
No Uíge, os manifestantes concentram-se no Mercado do Dunga, seguindo para o Largo do Governo, enquanto em Benguela o percurso será anunciado localmente.
Os organizadores apelam à participação massiva da sociedade, sublinhando que “enquanto um abusador estiver solto, nenhuma mulher estará segura” e que “quando uma criança é violada, o país inteiro falha”.
Os participantes são encorajados a levar cartazes, manifestar indignação e romper com a cultura de silêncio que, segundo os promotores, ainda protege os agressores.