
A sucessão na liderança do MPLA ganhou novos contornos explosivos após sinais de que o Serviço de Inteligência e Segurança do Estado (SINSE) estará a testar a popularidade de Manuel Domingos Vicente, antigo vice-presidente da República e figura central de vários processos judiciais, actualmente a residir no exterior e afastado do país desde 2018.
A movimentação surge na sequência da morte súbita de Fernando da Piedade Dias dos Santos, antigo vice-Presidente da República, que era apontado como um dos potenciais sucessores de João Lourenço.
Com a sua saída abrupta do xadrez político, alas influentes do regime terão reactivado antigos nomes, entre eles Manuel Vicente, considerado por sectores internos como um “plano B” para garantir continuidade e controlo.
O sinal mais visível desta manobra foi dado esta quarta-feira pelo portal Correio da Kianda, associado a círculos próximos do SINSE, que avançou com o título sugestivo: “Manuel Vicente volta a ser apontado como hipótese para a sucessão”.
Nos bastidores, a publicação é vista como um balão de ensaio para medir a reacção da opinião pública e das estruturas do partido a um eventual regresso político de uma das figuras mais controversas da era pós-José Eduardo dos Santos.
Segundo o referido portal, a hipótese Manuel Vicente estaria a ser impulsionada por sectores tecnocratas do MPLA e por figuras ligadas ao universo petrolífero, onde o antigo presidente da Sonangol ainda conserva influência, contactos e reconhecimento.
A leitura dominante é de que, apesar do discurso oficial sobre renovação geracional, o MPLA tenderá a optar por perfis considerados “experimentados”, mesmo que carreguem um pesado lastro político e judicial.
O cenário torna-se ainda mais polémico quando se recorda que Manuel Vicente é alvo de processos relacionados com suspeitas de corrupção e branqueamento de capitais, tanto em Angola como no exterior.
Em Fevereiro de 2025, o Procurador-Geral da República, Hélder Pitta Grós, admitiu publicamente que o Estado angolano continua dependente da cooperação internacional para avançar com o processo-crime contra o ex-vice-Presidente, sublinhando as dificuldades em recolher provas, uma vez que o arguido se encontra fora do país.
As imunidades legais de que Manuel Vicente beneficiava expiraram em Setembro de 2022, abrindo caminho à sua responsabilização judicial. Ainda assim, sete anos após ter abandonado Angola, o antigo homem forte da Sonangol permanece fora do alcance da justiça nacional, alimentando a percepção pública de impunidade para figuras ligadas ao núcleo duro do regime .
Entretanto, fontes partidárias admitem que João Lourenço deverá recandidatar-se à liderança do MPLA, com o objectivo de manter o controlo do processo interno, ao mesmo tempo que prepara uma transição cuidadosamente gerida. Nesse quadro, a escolha de um cabeça-de-lista “sem ambições internas” surge como hipótese, separando a disputa eleitoral da sucessão partidária.
Apesar disso, entre os quadros mais jovens do MPLA, ainda assim, a simples reabilitação simbólica de Manuel Vicente nos debates internos mostra que o partido continua preso a fantasmas do passado.