
A Plataforma para os Democratas Africanos (PAD) considerou hoje que as eleições presidenciais realizadas no Uganda, na quinta-feira, decorreram num “guião autoritário”, denunciando cortes da internet, intimidação da oposição e forte presença das forças de segurança, e apelou à realização de uma auditoria internacional ao processo eleitoral.
Numa declaração divulgada hoje, a PAD afirma que o sufrágio colocou os ugandeses perante “dois futuros profundamente diferentes”: a continuidade, representada pelo Presidente Yoweri Museveni, de 81 anos, no poder há quatro décadas e candidato a um sétimo mandato, e a mudança, personificada pelo líder da oposição Bobi Wine, de 43 anos.
Segundo a organização, a campanha de Museveni terá recorrido de forma “visível” a recursos do Estado para garantir a segurança do regime e proteger os interesses das elites, enquanto a candidatura de Bobi Wine enfrentou “tiroteios, intimidação constante, uso de gás lacrimogéneo e canhões de água”, além de detenções e agressões físicas.
A PAD critica ainda o corte do acesso à internet na véspera das eleições, medida que, afirma, limitou a capacidade de activistas e observadores independentes de acompanhar a votação e denunciar eventuais irregularidades nas mais de 50 mil assembleias de voto do país.
“No dia das eleições, o regime manteve uma forte presença de forças de segurança nos locais de votação, alegadamente impedindo o acesso de delegados da oposição”, refere a declaração, que menciona também denúncias de enchimento de urnas e manipulação de resultados.
A organização afirma que, no final do dia, forças de segurança cercaram e invadiram a residência de Bobi Wine, uma prática que diz repetir-se desde eleições anteriores.
“Países que desligam a internet durante uma eleição, regra geral, têm algo a esconder”, sublinha o documento.
A PAD alerta para o risco de agravamento da violência e de violações dos direitos humanos caso uma parte significativa da população acredite que o processo foi fraudulento, lembrando que mais de 85% dos cerca de 50 milhões de ugandeses têm menos de 25 anos e enfrentam um rendimento per capita inferior a 990 dólares anuais.
Na declaração, a plataforma critica ainda a comunidade internacional e os líderes africanos por, segundo diz, privilegiarem a estabilidade dos regimes em detrimento da defesa efectiva da democracia e dos direitos humanos.
A organização apela aos actores internacionais a promoverem “uma auditoria exaustiva” às eleições no Uganda e na vizinha Tanzânia, realizadas em Outubro, e a proporem “medidas correctivas práticas” em caso de fraude eleitoral.
O documento é subscrito por várias personalidades políticas e cívicas africanas e internacionais, entre as quais o presidente da UNITA, Adalberto Costa Júnior, o antigo Presidente do Botswana, Ian Khama, e o antigo chefe de Estado da Ucrânia, Viktor Yushchenko.