
Quando Israel investe centenas de milhões de dólares em lobby junto dos Estados Unidos, fá-lo para influenciar a política externa de Washington — e, na maioria dos casos, esse investimento regressa a Telavive multiplicado duas ou três vezes, sob a forma de equipamento militar e apoio de inteligência.
Quando o Qatar oferece a Donald Trump um Boeing 747-8 avaliado em cerca de 400 milhões de dólares, não se trata de generosidade, mas de uma estratégia para se afirmar como parceiro indispensável entre os aliados de Washington no Médio Oriente.
Já quando Angola gasta dezenas de milhões de dólares — recursos de que o país desesperadamente necessita — em lobby nos Estados Unidos, fá-lo para satisfazer o sonho pessoal de João Lourenço: apertar a mão e posar para uma fotografia ao lado do presidente norte-americano.
A visita de Joe Biden a Angola, em Dezembro de 2024, foi amplamente celebrada pelos órgãos de comunicação social estatais como prova inequívoca do sucesso da diplomacia angolana.
Segundo essa narrativa, Angola estaria em vias de assumir um papel central nas relações entre África e o Ocidente, preenchendo um suposto vazio deixado pela África do Sul. Por outras palavras, Angola seria o único país africano com peso diplomático comparável ao sul africano.
No entanto, mais de um ano após a visita de Biden — uma visita que custou caro ao erário público — os ganhos concretos dessa aproximação permanecem desconhecidos.
Para além da África do Sul, existem vários outros países africanos cuja influência ultrapassa largamente as fronteiras do continente.
A Etiópia, por exemplo, não é apenas a capital política de África, como também tem o seu antigo ministro da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, à frente da Organização Mundial da Saúde (OMS).
A Nigéria conseguiu colocar a sua ex-ministra das Finanças, Ngozi Okonjo-Iweala, na liderança da Organização Mundial do Comércio (OMC).
O Gana legou ao mundo Kofi Annan, um dos mais respeitados secretários-gerais das Nações Unidas. Até o Congo — que Angola insiste em apresentar como a obra-prima da sua diplomacia regional — conta com um Prémio Nobel, um feito que Luanda ainda está longe de alcançar.
Ao contrário da crença popular, a diplomacia não se limita à retórica política ou à participação em cimeiras internacionais. Ela é também uma extensão da organização interna de um Estado, da credibilidade das suas instituições e da relevância das suas iniciativas no cenário global.
Se Angola fosse, de facto, o actor estratégico que afirma ser — com todas as capacidades militares que proclama possuir — a União Europeia teria recorrido ao exército angolano, e não ao ruandês, para apoiar a luta contra o terrorismo em Cabo Delgado, no norte de Moçambique.
Se a diplomacia angolana tivesse a eficácia que apregoa, os mais de vinte anos dedicados à estabilização da República Democrática do Congo já teriam produzido uma paz duradoura, em vez de uma sucessão interminável de fracassos.
O saldo das dezenas de reuniões tripartidas resume-se a ganhos pontuais e frágeis — equivalentes a apagar incêndios. A paz efectiva é o único resultado que realmente importa, e Angola está muito longe de a garantir ao povo congolês.
Esse fracasso decorre, em grande medida, da incapacidade dos diplomatas angolanos de actuarem como mediadores verdadeiramente imparciais, capazes de conduzir todas as partes em conflito à mesa das negociações.
É inegável que o M23 funciona como um proxy do Ruanda, mas também é inegável que se trata de uma das partes beligerantes — é uma das mãos que têm o dedo no gatilho. Um princípio elementar de qualquer processo de mediação é a inclusão de todas as partes envolvidas no conflito.
Aparentemente, os diplomatas angolanos necessitam de um desenho explicativo para compreender algo tão básico.
Quanto à pretensão de ocupar o segundo lugar na hierarquia da diplomacia africana — uma ambição propagandeada pelo governo angolano e pelos seus quinta colunas — trata-se de pura fantasia.
Luanda está muito atrás de Pretória e, realisticamente, não se qualificaria sequer para figurar entre os dez principais actores diplomáticos do continente. A alegação de que a África do Sul estaria a perder relevância por integrar os BRICS é igualmente falaciosa.
Ao contrário do que parecem acreditar os diplomatas angolanos, pertencer aos BRICS não é uma desvantagem.
A África do Sul e os seus parceiros estão a desmontar a hegemonia ocidental e a promover uma ordem multipolar — um modelo de governança global assente em múltiplos centros de poder, que inclui o Sul Global.
Defender a manutenção da supremacia ocidental não é sinal de pragmatismo, mas sim um sintoma do complexo de colonização que continua a afectar a elite governante angolana.
Dentro e fora dos BRICS, a África do Sul afirma-se cada vez mais como um actor soberano, com uma agenda própria, que não se submete à chantagem nem à pressão de qualquer superpotência.
Perante o genocídio em curso em Gaza, foi o primeiro país a apresentar uma queixa contra o Estado de Israel no Tribunal Internacional de Justiça, contrariando as expectativas das potências ocidentais.
Angola, por sua vez, cedeu à pressão dos Estados Unidos ao votar contra a Rússia — seu principal aliado histórico — na quarta resolução das Nações Unidas sobre o conflito russo-ucraniano. A África do Sul, em contraste, optou pela neutralidade, recusando alinhar-se com qualquer dos blocos.
Essa postura não só a qualifica como potencial mediadora, como demonstra a sua independência face tanto a Washington como a Moscovo, parceiro estratégico com quem mantém uma agenda comum.
O Campeonato do Mundo de Futebol de 2010 — um dos eventos mais marcantes da história da FIFA e o único até hoje realizado em África — recorda-nos que os frutos da diplomacia sul-africana transcendem largamente a política e os negócios, projectando o país no imaginário global através da cultura e do desporto, além de reforçar o seu soft power.
Em suma, na hierarquia da diplomacia africana, Angola está muito longe de merecer um lugar imediatamente atrás da África do Sul. Antes de ambicionar protagonismo internacional, o país precisa de se organizar internamente; a relevância geopolítica surgirá apenas como consequência.
Os angolanos que viajam para além de Portugal conhecem bem a longa explicação a que são obrigados sempre que se apresentam no estrangeiro como cidadãos de Angola — explicando o que é o país e onde se localiza.
Essa ignorância não se limita à Ásia, às Américas ou à Europa. Mesmo em África, muitos não sabem se Angola é o nome de um fruto exótico, de uma marca de cerveja ou de um país.
Entre a África do Sul e Angola existem mais de uma dezena de nações africanas cujas conquistas diplomáticas são amplamente reconhecidas.
O facto de essas realizações raramente chegarem ao nosso conhecimento deve-se à natureza da imprensa angolana, cujo centro de gravidade é o executivo, banindo sistematicamente dos noticiários tudo o que não sirva a narrativa oficial do governo.