O legado da Jamba na construção do estado angolano contemporâneo – Lukamba Gato
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A Jamba foi criada pelo Dr. Jonas Malheiro Savimbi, diante de um grupo de angolanos que não se deixaram subjugar por ideologias e sistemas de governo baseados na exclusão e intolerância ao pluralismo político.

A Jamba é um símbolo de resistência diante daqueles que nos viam como inimigos e propalavam aos quatro ventos que “ao inimigo nem um palmo de terra”. Esse inimigo de que eles falavam éramos nós. Por isso criamos a Jamba que foi um centro de resistência e hoje deve ser vista como um símbolo dessa resistência.

A vinda dos quadros e militantes da UNITA da Jamba para as cidades, e em particular para a capital do país, ao abrigo do Acordo de Bicesse (1991), teve, sem sombra de dúvidas, um impacto profundo e multifacetado na sociedade angolana e em sectores vitais e estruturantes do Estado. Esse impacto manifestou-se em várias dimensões fundamentais:

1) No plano político e institucional, assistiu-se à instauração efetiva do pluralismo político, rompendo-se com o modelo de partido único que vigorara na nossa terra, desde a independência.

Este processo implicou a primeira revisão pontual da Lei Constitucional, adequando-a a uma nova configuração do Estado, assente no multipartidarismo, no reconhecimento das liberdades fundamentais e na consagração formal do Estado Democrático e de Direito. A presença política da UNITA nas cidades obrigou o sistema a abrir-se, a dialogar e a competir no espaço público.

2) Do ponto de vista económico, o impacto foi igualmente significativo. A abertura à economia de livre iniciativa marcou o abandono progressivo do modelo centralizado e estatizante.

A descriminalização do uso do dólar americano, até então associado à práticas ilícitas, constituiu um sinal claro de pragmatismo económico e de aproximação à economia de mercado, permitindo maior circulação de capitais, dinamização do comércio e integração gradual de Angola nos fluxos económicos regionais e internacionais.

3) No plano cultural e identitário, a transformação foi também muito visível. A chegada às cidades de quadros oriundos das matas trouxe consigo uma revalorização dos usos, costumes e referências culturais dos diversos povos de Angola.

Os nomes africanos, sobretudo de dirigentes e figuras públicas, passaram a ocupar o espaço político e mediático, “libertando”, em grande medida, a idiossincrasia nacional de uma hegemonia cultural até então marcada por nomes e referências de matriz portuguesa, cubana e, em certos casos, russa. Tratou-se de um reencontro com a angolanidade profunda, plural e diversa.

4) No domínio militar, com a criação das Forças Armadas Angolanas (FAA), iniciou-se igualmente um processo de revisão da doutrina militar. Esse processo traduziu-se numa maior abertura a modelos de organização e formação de inspiração ocidental, com um pendor inicial para a experiência portuguesa, rompendo gradualmente com uma doutrina exclusivamente moldada pela lógica da guerra ideológica e de alianças do período da Guerra Fria.

5) Até em aspetos aparentemente periféricos, como o parque automóvel, os efeitos foram evidentes. O país conheceu uma renovação e modernização sem precedentes, reflexo da abertura da circulação de pessoas e bens e da mudança de mentalidades que acompanhou o fim do isolamento político e militar.

Desvalorizar a Jamba é, em última instância, desvalorizar um capítulo incontornável da história contemporânea de Angola e ignorar os contributos concretos que esse período teve na configuração do Estado, da sociedade e da identidade angolana pós-guerra.

Desvalorizar a Jamba é regressar ao passado da rejeição do outro angolano. Agora, o tempo é da aceitação de todos os angolanos uns pelos outros.

Aceitar a Jamba como parte da nossa história comum é também aceitar a nossa total disponibilidade para a fortificação de um regime verdadeiramente democrático que inclui necessariamente a alternância de poder, com toda a naturalidade.

É essa a lição que todos os mais velhos devem transmitir aos mais novos, sem nenhum complexo de superioridade ou de inferioridade. Assentemos todos na geração da paz.

*Ex-secretário-geral da UNITA

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