
O presidente da UNITA entrou em modo “Mensageiro das Desgraças”. Adalberto Costa Júnior está disposto a infundir medo ao País inteiro. A torto e a direito.
Em entrevista recente à Lusa, recorreu à sua bola de cristal para anunciar: “A UNITA vai apresentar, muito em breve, um pacto de transição, que possa trazer garantias de abordagem dos processos eleitorais em ambiente de democracia, de estabilidade, para garantir que o período pós-eleitoral seja isento de conflito e violência.”
Uma tragédia grega à angolana. Com assinatura política de Adalberto Costa Júnior. As perguntas impõem-se: O que é que a UNITA sabe que as autoridades angolanas desconhecem? O que é que vai acontecer depois do anúncio dos resultados das eleições de 2027?
Perguntas sem respostas. Por enquanto.
Vejamos se nos (des)entendemos. Na Ciência Política, um pacto de transição é linguagem de falência do Sistema. Surge quando há crise estrutural de legitimidade. Quando há mudança de regime. Quando há ruptura constitucional. Quando o Sistema deixa de se autorregular.
Nenhum desses factores está configurado de forma sistémica em Angola. Pelo menos até ao dia de hoje. Pode haver tensões. E há. Pode haver descontentamento. E há. Muito. Mas isso não é suficiente para uma transição de regime. E disputa política normal.
Adalberto Costa Júnior confunde conceitos. Confunde alternância democrática com pacto de transição. Confunde normalidade eleitoral com linguagem de colapso. Confunde competição política com ruptura. Como quem confunde carapau com robalo. Ou melro com cotovia.
Alternância democrática é simples. Eleições regulares. Regras estáveis. Mudança normal de Governo. Funcionamento contínuo das instituições do Estado. Competição dentro do Sistema.
Pacto de transição é outra coisa. É linguagem de falência. Os dois conceitos não coexistem. Ou há Sistema. Ou há colapso. Não há meio-termo conceptual. Entre um e outro, a UNITA tem de escolher. Porque a confusão é estratégica. Propositada. Visa confundir o cidadão-eleitor. O resto é ilusão política. Ilusão óptica.
É leitura errada do País político. É erro de sociologia eleitoral. É má interpretação de Luanda. Atenção: O voto urbano é volátil no discurso. Mas conservador na decisão.
O descontentamento é ruidoso. O voto é silencioso. E disciplinado. Na hora da verdade, uma parte significativa dos desafectos circunstanciais do MPLA tende a regressar ao MPLA. Como cantou um dia Dionísio Rocha: “Na hora da verdade/ Ninguém segura o Petro/ Com toda sinceridade/ Ninguém segura o Petro.”
O chamado “pacto de transição” é engenharia discursiva. É fabricação de clima. É estratégia sem sustentabilidade. Serve para confundir o eleitor. Serve para criar ansiedade. Serve para produzir instabilidade simbólica. Serve para construir a narrativa da derrota antes da derrota. É um avant-papier eleitoral. Um guião prévio. Um discurso de antecipação da perda.
Nem toda a previsão é visão. Nem toda a profecia é leitura da realidade. Algumas são apenas discurso. Nem tudo o que se anuncia é destino. Nem tudo o que se profetiza é verdade. Algumas coisas são só política. Estratégia. Cálculo. Este é, no fim, medo travestido de previsão. Estratégia pura de uma derrota previsível. Anunciada.
*Jornalista