
A segurança do Reino Unido está estreitamente ligada à Europa Continental. E, a Europa Continental sem o Reino Unido é como uma águia sem as asas. Durante a segunda guerra mundial a Europa foi logo ocupada no início da guerra e o general Charles de Gaulle (França) refugiou-se na Inglaterra.
Foi a partir da Grã-Bretanha, com o apoio inabalável do Winston Churchill, primeiro-ministro do Reino Unido, em que o general Charles D’Gaulle organizou e estruturou a «Resistência Francesa», cujas unidades clandestinas e de guerrilhas operavam na retaguarda das tropas de ocupação Nazis.
Quer dizer, a libertação da França e da Europa foi feita a partir da Grã-Bretanha através do desembarque massivo das tropas dos países aliados na Normandia, na manhã do dia 06 de Junho de 1944.
Isso para dizer que, o BREXIT (31/01/2020) teve consequências negativas sobre a Europa, em diversos domínios. A Europa ficou mutilada e a sua influência no mundo ficou reduzida, sobretudo nas suas relações bilaterais com os Estados Unidos da América, que é o garante da Aliança Transatlântica (OTAN) em termos do potencial militar, económico e tecnológico.
A título de exemplo, no ranking mundial (2025) das dez maiores economias do mundo, em termos de PIB, as quatro maiores economias da Europa (Alemanha, Reino Unido, França e Itália) juntas têm o PIB total de cerca de 14,39 trilhões de dólares.
Ao passo que, o PIB dos EUA é de cerca de 30,34 trilhões de dólares. A China, a segunda maior economia mundial, o seu PIB é de cerca de 19,53 trilhões de dólares.
Olhando a esses dados, as quatro potências europeias o seu PIB total corresponde a cerca de 47,4% do PIB dos EUA, e de 73,6% do PIB da China.
Se juntar-se o PIB total dos 27 países membros da UE pode superar o PIB da China. Curiosamente, a Rússia, uma das maiores potências nucleares, com enormes recursos minerais, não faz parte do ranking das 20 maiores economias do Mundo.
Portanto, o peso do Reino Unido no mundo reside na sua monarquia, na sua civilização, na sua identidade cultural, na sua língua (universal), na sua história colonial e na manutenção da Comunidade das Nações (Commonwealth), composta por 56 países independentes, com cerca de 2.7 bilhões de habitantes, espalhados por todos os Continentes.
Embora os EUA é um país multiétnico, multirracial e multilinguístico cujos povos são de diversas origens da Europa, da América Latina, da África e de outras partes do mundo, porém os descendentes britânicos, de expressão inglesa, dominam os EUA.
Portanto, a saída do Reino Unido da União Europeia deixou uma lacuna enorme na estrutura do poder, sobretudo na «Aliança Estratégica» com os EUA.
O surgimento do Donald Trump na Casa Branca aprofundou os «atritos» entre a União Europeia e os EUA, alterando imensamente a postura dos EUA perante a OTAN. O artigo 5.º da Aliança Transatlântica, que consagra a «Defesa Colectiva», tem sido posto em causa por parte da Casa Branca.
Aliás, a invasão (24/02/2022) da Ucrânia pela Rússia, que se enquadra numa «Estratégia Global» do expansionismo russo nesta região, despertou a consciência da Europa sobre a fragilidade da Aliança Transatlântica.
Vê-se claramente o jogo de interesses geopolíticos entre Moscovo e Washington, pondo em perigo a segurança e a defesa da Europa. Pois, a capitulação da Ucrânia, que tem sido exigida insistentemente pelo Donald Trump, em troca de recursos minerais críticos do leste da Ucrânia, revela a «indiferença» da Casa Branca em relação a segurança da Europa.
Esta postura do Presidente Donald Trump viola a doutrina militar da OTAN, e sobretudo, o seu artigo 5.º, que constitui a essência da Aliança Transatlântica.
Por isso, a União Europeia sente-se pressionada para assumir (em grande parte) a segurança e a defesa da Europa. Não obstante a importância estratégica dos EUA como o aliado mais potente dentro da Aliança Transatlântica.
A Conferência de Segurança de Munique (13-15/02/2026), que juntou todas potências industrializadas (menos a Rússia) trouxe à superfície novos conceitos geopolíticos e novas doutrinas militares sobre a segurança global e a «gestão colectiva dos recursos minerais críticos» do Mundo.
Nota-se claramente uma «viragem estratégica» nas relações bilaterais e multilaterais entre a China e a União Europeia. Pois, nos últimos tempos Beijing transformou-se na «placa giratória» de parcerias estratégicas entre a China e as potências europeias, bem como, entre a União Europeia e a China.
Fazendo destaque às visitas do Presidente da França, Emmanuel Macron, do primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, da prresidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e do presidente do Conselho Europeu, António Costa, que foram recebidos calorosamente pelo Presidente Xi Jinping e terem celebrados acordos muito importantes de parcerias estratégicas.
Essas démarches diplomáticas mexeram fortemente a Casa Branca que, através do Secretário de Estado, Marco Rubio, na conferência de segurança de Munique, procurou minimizar as tensões existentes entre os EUA e a União Europeia, com um discurso de «rapprochement» e de Aliança Histórica Transatlântica.
Apesar disso, a Europa não será a mesma no que diz respeito a sua «visão estratégica» sobre a segurança e a defesa do seu continente, bem como da sua abertura aos grandes mercados asiáticos.
Com efeito, o mundo está na «viragem decisiva na cooperação internacional» entre as grandes potências industrializadas.
De forma mais resumida, a doutrina do Donald Trump consiste em desmantelar o multilateralismo e a cooperação internacional, em substituição do unilateralismo, da lei da selva e do mercantilismo.
O multilateralismo tem como foco a igualdade, as sinergias e a cooperação internacional para alcançar objetivos de interesse comum. Em contraste, o unilateralismo promove a prepotência e a subjugação dos fracos pelos fortes.
E, o mercantilismo, por sua vez, assenta na subordinação de tudo aos interesses económicos e ao apego excessivo ao dinheiro. O mercantilismo está inspirado no egocentrismo, no monopólio e na hegemonia.
Interessa-me afirmar que, no ponto de vista estratégico, a essência da doutrina do Donald Trump visa controlar o mercado internacional (recursos minerais críticos, terras raras e comércio) e fortificar a economia norte-americana com fim de conter a expansão económica da China, desvinculando a Rússia da aliança estratégica com a China.
Para dizer que, neste processo da «reconfiguração» da nova ordem mundial, a África, que estava reunida na cimeira (14-15/02/2026), em Adis Abeba, ficou ausente em Munique onde a estratégia global estava sendo discutida e reformulada.
Como sabemos, a opinião da África não tem muito peso nem tem eco no mundo devida a sua dependência excessiva sobre os países industrializados.
Além disso, a África está confrontada por instabilidades internas, que são caracterizadas por fenómenos como o subdesenvolvimento, a má governação, a corrupção sistémica, a fome, a pobreza extrema, os conflitos internos, os golpes militares, os golpes constitucionais, as repressões populares, as perseguições de adversários políticos, os massacres pós-eleitorais e as ditaduras que crescem exponencialmente em todos os cantos do continente.
Historicamente, a Europa foi o centro da «civilização universal» através do tráfico de escravos transcontinentais, da colonização e das guerras sucessivas que culminaram nas duas (1914-1918 e 1939-1945) guerras mundiais.
Este processo complexo da transformação cultural e socioeconómica impulsionou a Revolução Industrial (1760-1840) e a transformação democrática.
Isso passou pela aprovação no dia 10 de Dezembro de 1948, da Declaração Universal dos Direitos do Homem, que deu origem à descolonização dos países africanos, asiáticos e latino-americanos, baseando- se no princípio fundamental da autodeterminação.
Desde 1945, no final da segunda guerra mundial, até a época contemporânea, a Europa perdeu a liderança mundial, tornando-se um apêndice dos EUA, que se encarregou da sua segurança e da defesa.
Desde então, as economias europeias ficaram excessivamente dependentes do mercado norte-americano. Porém, no final da guerra fria (1991), o mundo conheceu uma nova ordem multipolar centrada em três eixos principais de influências: EUA, China e Rússia.
Todavia, com a invasão (24/02/2022) da Ucrânia pela Rússia alterou imensamente a ordem mundial. A Rússia perdeu a sua credibilidade, e para reduzir este impacto ela alinhou-se com a China, como seu protector.
Mesmo o regime angolano, por exemplo, que foi o principal aliado da Rússia em África, tem estado no fingimento de se afastar do Kremlin. O EUA, através do Trumpismo, perdeu igualmente a sua credibilidade não apenas na Europa, mas sim, no mundo.
Neste jogo de tabuleiro geopolítico acima descrito, a Europa acordou do fundo do sonho do Tio Sam, buscando agora a sua própria identidade cultural para se defender e reestruturar o seu sistema de segurança e de defesa.
Como acabei de afirmar atrás, o tabuleiro geopolítico está em transformação profunda. Nota-se a crescente aproximação entre a Europa e a China. Este novo fenómeno deve ser tido em devida consideração.
Pois que, a China é uma potência global em plena ascensão. Uma aproximação entre a Europa e a China resultará numa nova dinâmica na constelação do mundo e na reconfiguração da nova ordem mundial, que assentará em novos conceitos políticos, em novas doutrinas militares e novas parcerias estratégicas.
Sem dúvidas nenhumas, o EUA ainda continua a ser a maior potência económica, tecnológica e militar.
Além disso, o sistema político norte-americano possui mecanismos muito sólidos e resilientes que permitem a «alternância do poder» e a reformulação da política externa. Só que, no caso específico da Europa, daqui para diante, ela não será mais a mesma Europa satélite aos EUA.
Acho que a lição aprendida desde 1945 lhe vai permitir assumir o pragmatismo económico, a “realpolitik” e a doutrina militar europeia, em vez de persistir no pacifismo, na dependência económica e na subserviência política.
Nós os africanos devemos libertarmo-nos do autoritarismo e da dependência económica e tecnológica, pugnando por boa governação, equilíbrio político, pluralismo, democratização, integridade eleitoral, industrialização, infra-estruturas sólidas, construção de autoestradas e caminhos-de-ferros transcontinental, sistema energético integrado, novas tecnologias, educação de alta qualidade, crescimento económico e desenvolvimento humano.
Estes factores, em referência, constituem a única «tabua-de- salvação» para a África sair da condição do subdesenvolvimento e da subalternização.
*Antigo deputado à Assembleia Nacional