
Do Sambizanga, berço do Kabocomeu e do União Kiela, ergue-se um apelo por transparência, justiça cultural e protecção das tradições carnavalescas.
Os resultados do Carnaval de Luanda voltam a cair como um trovão sobre muitos corações luandenses. Caso se confirme, a quarta vitória consecutiva do União Recreativo Kilamba sobrepuja realmente a força de um grupo emergente, mas não deixa de aprofundar uma polémica que já não se limita ao campo festivo e avança, a todo o vapor, para os terrenos da ética, equidade e transparência no financiamento cultural.
I. Mas, antes de mais, não vou esconder que sou um dos inconformados com a tendência seguida pelo Carnaval de Luanda, empurrado pelos carretos de uma pseudo e muito controversa modernidade.
Vemos agremiações emblemáticas do nosso Carnaval aos solavancos e sob ameaça de extinção, enquanto um único grupo — surgido recentemente do nada — impõe uma hegemonia asfixiante sobre os demais usando meios técnicos e logísticos impressionantes e provocando sentimentos mistos que vão da admiração pela qualidade avassaladora do espectáculo, mas, simultaneamente, inquietação e angústia diante das desigualdades.
Sou nativo do Sambizanga, bairro que não constitui apenas um ponto no mapa da cidade, mas um território simbólico da memória e da identidade carnavalesca. Foi ali que nasceram o Kabocomeu e o União Kiela, duas formações que transportam longas décadas de história, criatividade popular e resistência cultural.
Também foi no Sambizanga que tivemos, outrora, grupos carnavalescos igualmente emblemáticos como o Cidrália e o Senguessa — estes no entanto que sucumbiram e desapareceram do firmamento.
Dói-me imenso ver agremiações gigantes do nosso Carnaval como o Kabocomeu e o Kiela — que com toda a legitimidade deveriam ser consideradas patrimónios imateriais da Cultura Nacional — lutarem pela sobrevivência.
O Kabocomeu está a definhar a um ritmo tal, que corre mesmo o risco inexorável de desaparecer, caso não surja uma mão salvadora. Para quem cresceu no Sambizanga, o Kabocomeu não é apenas um grupo carnavalesco — é património vivo. A kazucuta, sua dança, não é apenas ritmo e cor. É identidade. Prova de que a cultura popular pode resistir ao tempo.
Hoje, porém, definha. E a ameaça de desaparecimento não é mera retórica: é uma possibilidade real.
A União Kiela resiste com dignidade. Mas esbraceja ao enfrentar um cenário competitivo cada vez mais oneroso e desigual.
O facto é que se grupos como estes desaparecerem, perder-se-á mais do que um desfile de Carnaval: perder-se-á memória colectiva, saber ancestral e um pedaço da alma cultural de Angola.
II. Ninguém ignora que o Carnaval moderno exige recursos significativos. Figurinos, alegorias, logística e preparação artística implicam investimentos elevados. No entanto, quando a origem desses recursos permanece pouco clara, instala-se obviamente a suspeita.
E, assim sendo, temos, com toda a legitimidade, de perguntar quem afinal financia esta agremiação carnavalesca imbatível, que atropela os demais concorrente como uma motoniveladora. Quais os critérios de apoio? Por que razão alguns grupos têm acesso a patrocínios robustos enquanto outros sobrevivem com sacrifício comunitário?
O problema é que a ausência de transparência abre espaço para especulações, incluindo admitir-se a possibilidade de existirem capitais de origem duvidosa. Mesmo sem provas, a dúvida corrói a credibilidade do concurso e fragiliza a confiança pública.
III. O Carnaval, conforme sabemos, sempre foi expressão popular e comunitária. Mas, nos caminhos trilhados pela modernidade, foi lógico admitir a entrada de mecenas para assegurar o progresso e o futuro.
O mecenato é um recurso sempre essencial para ampliar o acesso à cultura; preservar património histórico; financiar inovação artística; complementar o investimento público e apoiar educação cultural. Contudo, o mecenato cultural é simultaneamente uma oportunidade e um desafio.
A sua legitimidade depende da transparência, da justiça distributiva e do respeito pela autonomia artística. Sem esses princípios, pode reforçar desigualdades; com eles, torna-se um poderoso instrumento de democratização cultural.
Por conseguinte, é preciso não perder de vista que a crescente dependência de patrocínios privados introduz lógicas de mercado que podem desvirtuar o equilíbrio competitivo.
Quando os recursos financeiros determinam a grandiosidade estética e a capacidade técnica, o desfile deixa de ser apenas uma celebração cultural para tornar-se uma disputa assimétrica moldada pelo poder económico.
São essas novas lógicas que surgiram no Carnaval de Luanda e que vão alimentando e engordando o novo papão União Recreativo Kilamba. Mas o facto é que tem sido bastante questionável devido à controvérsia que carrega, pois vemos que emerge, em meio a tudo isso, uma clara ausência de ética e equidade.
Não é claro donde lhe vem o apoio; se há conflito de interesses, ou mesmo se o financiamento que tem obtido serve para “lavagem de reputação”. Afinal, no contexto angolano, onde abundam os actores empresariais e económicos com práticas de fuga ao fisco e corrupção, muitos são os que podem usar o mecenato com o fito de melhorar a imagem, ocultando práticas controversas.
IV. Para arrumarmos a casa, impõe-se por isso garantir igualdade de oportunidades; assegurar que haja transparência obrigatória nas fontes de financiamento; proporcionar mecanismos que possam proteger grupos históricos, e melhorar os mecanismos e papel do Estado na salvaguarda do património cultural.
Resumindo e concluindo: esta polémica não deve ser reduzida a rivalidades carnavalescas. Ela revela tensões profundas entre tradição e modernidade, cultura e mercado, memória e poder económico.
Do Sambizanga, berço de tantos talentos carnavalescos e guardião de tradições, ergue-se um apelo simples e justo: transparência, equidade e protecção do património cultural.
Porque o Carnaval não pode ser apenas um espectáculo de vencedores — deve continuar a ser uma celebração da identidade colectiva, onde o rufar de batuques e o rugir de cornetas contam a história de um povo.
*Jornalista