O activismo em Angola é bungle bangle – Nsambanzary Newton Xirimbimbi
O activismo em Angola é bungle bangle - Nsambanzary Newton Xirimbimbi
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O activismo é, por definição, uma actividade nobre. Trata-se da ação consciente, engajada e orientada para a transformação social, seja em defesa de direitos humanos, de justiça social, de reformas institucionais ou de causas ambientais.

Historicamente, o activismo foi o motor que retirou sociedades da inércia, converteu indignação em estratégia e pressão moral em mudança política.

Contudo, a nobreza do conceito não garante, automaticamente, a qualidade da sua prática. No contexto angolano contemporâneo, impõe-se uma reflexão séria sobre a natureza, o nível e a responsabilidade do activismo que hoje se manifesta no espaço público.

Activismo: conceito e dignidade histórica

Activismo não é sinónimo de oposição ruidosa, nem de exposição mediática constante. É acção estratégica, fundamentada, informada e orientada por princípios.

Ao longo da história, movimentos transformadores foram conduzidos por lideranças intelectualmente preparadas, dotadas de clareza ideológica e visão estratégica. Basta recordar figuras como Mahatma Gandhi, Martin Luther King Jr., Nelson Mandela, Steve Biko ou Jesse Jackson.

O mesmo se verificou no pan-africanismo e na negritude, cujos protagonistas eram intelectuais com sólida formação académica e densidade conceptual.

Mesmo no contexto angolano, as lideranças dos movimentos de libertação nacional — como Agostinho Neto, Mário Pinto de Andrade, Alda Lara e Jonas Savimbi — possuíam formação intelectual consistente e consciência histórica estruturada.

Isto não é elitismo; é constatação histórica: movimentos com impacto duradouro foram liderados por indivíduos preparados, capazes de formular diagnósticos complexos e propor alternativas consistentes.

O activismo na era digital: literacia como condição de eficácia

Na contemporaneidade, o activismo deslocou-se em grande medida para o espaço digital. Redes sociais, plataformas de vídeo e canais de comunicação instantânea ampliaram a capacidade de mobilização.

No entanto, também reduziram o custo da intervenção pública, permitindo que qualquer opinião seja difundida sem mediação técnica ou verificação rigorosa.

Aqui emerge uma variável central: a literacia.

O activismo moderno exige competências que ultrapassam a alfabetização básica. Requer literacia digital, mediática e temática. Implica capacidade de identificar fontes credíveis, interpretar dados, avaliar enviesamentos e compreender o impacto das narrativas na opinião pública.

O chamado “data activism” — activismo baseado em recolha e análise de dados — demonstra que a intervenção cívica eficaz depende de domínio técnico.

Sem literacia, o activismo degenera em ruído. Transforma-se em indignação performativa, ou no chamado “activismo de sofá”: forte em retórica, frágil em substância.

Entre indignação e oportunismo

No contexto angolano, observa-se frequentemente uma prática activista marcada por superficialidade conceptual, inconsistência argumentativa e, em alguns casos, motivação predominantemente pessoal. A crítica ao poder político é elemento saudável de qualquer democracia.

Contudo, quando a intervenção pública se reduz a polémica constante, simplificação de problemas complexos e busca de visibilidade, perde-se a dimensão ética do activismo.

Activismo não é carreira mediática. Não é instrumento para obtenção de notoriedade, benefícios pessoais ou capital simbólico. O que confere dignidade ao activismo é o desprendimento — a disposição de trabalhar por causas que transcendem interesses individuais.

É importante ressalvar que existem exceções: activistas sérios, comprometidos e tecnicamente preparados. Contudo, o problema não está na existência de crítica, mas na sua qualidade.

O contexto angolano: polarização e déficit de capital Humano

Angola enfrenta desafios estruturais significativos: escassez de mão de obra qualificada, necessidade de diversificação económica, fragilidades institucionais e polarização política acentuada.

Num ambiente já tenso, discursos desinformados ou radicalizados tendem a aprofundar divisões, em vez de contribuir para soluções.

O país necessita de debate público qualificado, sustentado por dados, enquadramento histórico e responsabilidade ética. A crítica construtiva fortalece instituições; a crítica superficial enfraquece o tecido social.

Conclusão: reabilitar a nobreza do activismo

O activismo é, em essência, uma expressão elevada de cidadania. Mas para cumprir esse papel precisa de literacia, rigor, ética e visão estratégica. A história demonstra que mudanças estruturais não foram produzidas por improviso intelectual, mas por liderança informada e organizada.

Angola não precisa de activismo ruidoso; precisa de activismo responsável. Não precisa de indignação vazia; precisa de propostas fundamentadas. Não precisa de protagonismo individual; precisa de compromisso coletivo.

Resgatar a nobreza do activismo implica reconhecer que a transformação social exige preparação, disciplina e conhecimento. Sem isso, corre-se o risco de banalizar uma prática que, quando bem exercida, é um dos pilares mais importantes da vitalidade democrática.

*Docente

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