
A poligamia é uma realidade. Em África, esta prática existiu. Contudo, não nasceu da desordem, da promiscuidade, da libertinagem ou do desrespeito, como muitas vezes é apresentada hoje.
Nas sociedades africanas tradicionais existia uma organização própria, ligada à vida comunitária, à produção agrícola e à continuidade das famílias.
A família não era apenas uma estrutura afectiva. Era também uma unidade económica e social. A vida girava em torno da terra, da lavra, da agricultura, da criação de animais, do conhecimento da época e da cooperação entre membros do clã e dos reinos.
Na tradição africana, os homens eram ensinados a praticar a poligamia com responsabilidade. Quando um homem tinha mais de uma mulher, as responsabilidades eram maiores; não havia liberdade sem deveres.
O homem precisava de:
As crianças eram ensinadas a chamar “mãe” a todas as esposas do pai. Não existia a ideia de madrasta. Este termo foi introduzido posteriormente com a influência colonial.
Outro ponto importante: nem todos os homens podiam ser polígamos. O homem era observado pela comunidade e pelos líderes tradicionais.
Precisava demonstrar:
Também existia respeito pela primeira esposa. Antes de trazer outra mulher, o homem precisava pedir permissão à primeira. Se ela não aceitasse, a nova união não acontecia. Quando aceitava, muitas vezes participava também na avaliação da mulher que iria entrar na família.
As mulheres eram educadas para viver dentro dessa organização familiar, aprendendo convivência, cooperação e respeito naquela fase da vida.
Em muitas regiões africanas existiam guerras frequentes entre tribos, nas quais muitos homens morriam. Isso fazia com que existissem mais mulheres do que homens. Por isso, em alguns contextos, a poligamia também funcionava como forma de protecção social para mulheres e crianças.
Não existia prostituição institucionalizada. As crianças não ficavam abandonadas. A família alargada assumia uma responsabilidade colectiva.
Do ponto de vista psicológico, havia também um sistema de equilíbrio social e emocional dentro da comunidade. As mulheres eram preparadas culturalmente para aquela estrutura familiar, e os homens eram educados para exercer liderança com responsabilidade e justiça.
Mesmo assim, é importante dizer outra verdade: nem todos os homens africanos eram polígamos. Muitos tiveram apenas uma esposa e viveram dentro do seu limite de equilíbrio espiritual, mental, emocional e físico.
A liderança familiar exige uma estrutura interior sólida. Na África antiga havia organização e responsabilidade. A questão não é negar a história africana, mas compreender como aquela realidade estava organizada dentro do seu tempo. Porque tradição sem responsabilidade deixa de ser tradição.
Hoje precisamos falar com clareza e coragem. Muitos homens querem falar de poligamia, mas recusam falar de responsabilidade.
A realidade que vemos hoje é dura. Há homens que querem várias mulheres, mas não têm paz de espírito nem estabilidade. Vivem stressados com a vida financeira, enfrentam pobreza extrema, dependem de um salário mínimo ou instável, não têm rendimentos extras, não fazem poupança e não sabem gerir as próprias finanças.
Mesmo assim, dizem querer praticar poligamia. Mas a pergunta precisa ser feita com seriedade: será que conseguem sustentar a poligamia de forma responsável?
A realidade mostra outra coisa. Muitos desses homens não conseguem sustentar os filhos de todas as mulheres. Abandonam as crianças com as mães, não acompanham a sua educação e muitos filhos acabam fora do sistema educativo, sem acompanhamento adequado na primeira infância.
Depois afirmam que estão a viver a tradição africana. Mas isso não é tradição. Isso é irresponsabilidade familiar.
Outro ponto preocupante é que muitos homens que falam de poligamia hoje enfrentam também problemas espirituais, desequilíbrios emocionais, instabilidade profissional, falta de visão de futuro e ausência de disciplina financeira. Ainda assim querem multiplicar famílias.
A poligamia tradicional africana exigia:
Hoje, em muitos casos, o que vemos não é poligamia, mas sim confusão familiar.
Antes de querer várias mulheres, um homem precisa perguntar a si mesmo: consigo sustentar todos os meus filhos? Consigo garantir educação, alimentação e dignidade? Tenho estabilidade emocional e espiritual? Tenho estrutura financeira para isso?
Porque família não é brincadeira. Filhos não são acidentes. Mulheres não são experiências.
África precisa de homens responsáveis, não de homens que usam a palavra “tradição” para justificar irresponsabilidade.
Porque, no final, a verdade é simples: se um homem não consegue sustentar uma família com dignidade, não tem estrutura para sustentar várias.
*Conselheira matrimonial & activista contra Violência Doméstica e de Género